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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O twitter e a legitimidade do ser via publicização virtual

Foi-se o tempo em que apenas os fatos jornalísticos precisavam ser publicados para "ocorrerem" ou para terem qualquer (des)importância. Chegamos à era virtual e, nesta arena 3x4, o indivíduo, para existir, precisa estar conectado, precisa ter o aval dos outros, precisa ter um séquito que o siga para onde ele for, precisa ser visto, precisa dizer gracinhas e provocar risos. Como se não bastasse, cada ato isolado do indivíduo, seja uma flatulência seja uma descoberta arqueológica, para ter qualquer legitimidade, para virar história e memória nesse cubículo amplo, implica um post no twitter, no facebook, no orkut ou, enfim, nessas tranqueiras. Se o mundo, para você, são aplausos virtuais ecoantes, comentários e curtição em fotos, algumas palavrinhas bicudas nas entrelinhas, lembre-se que, se for viajar, deve levar a câmera - ou então, para o resto da humanidade você não foi a lugar nenhum. O que importa, afinal, é a visibilidade que tens. Eis o quão sem graça se tornou o espaço público.

Show de Truman? Balela!... Hoje todo mundo tem seu show particular e ele começa com @.
Da mesma forma, você não precisa entrar em um buraco negro para ser John Malkovich - entre no twitter e seja quem você quiser.

A legitimidade do ser, hoje, passa pela publicização do ser na internet. Chegaremos a um ponto em que cada pessoa terá uma câmera acoplada a seus olhos filmando a própria vida full-time. Vamos editar e postar esse filmete no fim do dia no twitter-eye - ou, melhor, ele será transmitido ao vivo, já que sem esse olho não "seremos mais nada". Nada? De súbito, isso soa atraente. Nem Habermas, ao dissertar sobre o espaço público inerentemente burguês, nem Orwell, na obra-prima 1984, nem ninguém, ora pois, poderia imaginar tamanha tragédia. Acho que o Andy, aliás, foi o único que acertou na mosca - também, era pop.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Aos utilitaristas...........................o nada

Em última instância, à exceção das chamadas necessidades básicas, nada serve para nada. Quanto mais dinheiro um cidadão de respeito, bem nutrido e com o sono em dia, acumula, mais ele se empanturra do mais indisfarçavel nada - o qual, por um ausente momento, deixa-o morbidamente feliz. São Paulo é uma cidade em que as pessoas vivem em função de plata. Ou seja, no frigir dos ovos moles, de porra nenhuma. E hoje esbarrei com um jornaleiro mal-humoradíssimo que não quis carregar meu bilhete único (vale-transporte recarregável) sob o pretexto de que não ganharia "nada" para fazer aquilo. Nada o quê, cara-pálida? Mal sabe ele que, na grande maioria das vezes, ele não ganha nada para fazer nada! O que diabos afinal é um veículo de comunicação hoje em dia? Nada. Presta algum serviço de fato útil à sociedade? Nada! E se, com o dinheiro que ganha, por exemplo, ele compra um CD, um aparelho de som, um DVD, uma TV LCD, um carro do ano, ele não comprou, sob sua lógica paradoxal, absolutamente nada de fato válido. Então, para que serve, pragmaticamente falando, ouvir música? Para nada. E ler poesia? Para nadica de nada. No entanto, é no não-pragmático, ocioso, nobre, prenhe de amor, imortal, incorpóreo, na dança que não se desloca a lugar algum, e, assim, não no andar de um ponto ao outro (como já disse Valery), que encontramos o combustível da vida - a pulsão rumo a algum paradeiro zerificado ao qual se soma o número 1. A vida, portanto, é, quando já nos foi entregue o tudo realmente necessário, cosida de reminescências de nada. Nada é o amor. Nada é o sorriso. Nada é a alegria de estar vivo e viver - e isso sim, por outro lado, me parece algo de concreto. A dança - o nada que dá ensejo ao tudo: ou seja, esse tal andar que, por sua vez, transforma nossa trajetória passo a passo e que não tem absolutamente nada a ver com estar a maquinar "Qual será o bem de consumo mirabolante que irei adquirir agora?"
kkkk
Deus, seja Ele quem for, dança. E só. Cabe a nós ouvirmos o nada sinfônico que Dele emana e cavalgar rumo ao destino que se descortina a seu encalço. Se o nada, portanto, impulsiona o tudo, poderia muito bem ser o contrário em termos de significados e significantes. E eu diria ao senhor jornaleiro: "Você está ganhando tudo. Pena que não percebe. Pena que o l'argent - que é nada - lhe parece mais do que um "oi" amistoso, humano. Pena que as pessoas deixaram de confiar umas nas outras, de fitá-las com carinho. Pena que o dinheiro enferrujou as relações, sobrepondo-se a elas, tomando conta de nossas vidas de tal forma que em razão dele passamos a correr deslumbrados em direção ao nada, onde fica o abismo, o buraco negro, os utensílios e funções que parecem nos servir como "tudo", o cadáver. Ouça a canção. Dance, alucine e, em seguida, caminhe resoluto e verdadeiro para a imensidão do próximo. O que nos serve verdadeiramente não é "nada" de natureza hostil e só pode residir no outro. Qualquer outro que esteja "próximo". Na real, logo ali".

Tudo = Nada
Nada = Tudo
(Faça a regra de três)

terça-feira, 10 de março de 2009

Sobre a paixão: um arrombo ou um arroubo!

... Ana havia se apaixonado pelo seu... psicólogo.

“Melhor contar” – pensou. “Contar???” – hesitou. “Claro!” – decidiu. Afinal de contas, de que valeria todo aquele processo terapêutico se ele não estivesse, pelo menos, baseado na mais imaculada e solene verdade? Se, por um lado, a verdade tem sua porção de desbunde kamikaze, por outro, Ana não tinha culpa se aquele sujeito encantador que antes se apresentara como “a” solução, de súbito – e à luz do inevitável químico – transformara-se no problema propriamente dito. E concluiu: “Problema dele, porra!”. Assim, ensaiando algumas manobras fajutas, soltou:

- Me apaixonei perdidamente por você, Doutor.

Big Deal! E, pela enésima vez, como fizera com todas as outras pacientes, o doc contou para ela a velha história do bombeiro...: (Zzzzzzzzzzzzz...)
- Querida, imagine que você está presa em um apartamento que está ardendo em fogo. Último andar. Restam apenas alguns segundos até que as labaredas te alcancem. De repente, quando você está sem esperanças e prestes a ser queimada viva, alguém arromba a porta, te pega pelos braços e te resgata das chamas lancinantes.
Fez uma pausa. Ana arregalou os olhos. Ele continuou:
- Ana, veja bem: eu sou a pessoa que te salvou do incêndio. A primeira pessoa que você viu logo após o pesadelo que viveu. Eu abri a porta para que você pudesse sair, para que você pudesse respirar. Só que, se pensar bem, vai reparar que não está apaixonada exatamente por mim. Você está apaixonada por alguém (seja lá quem for) que te livrou do pior. Você está apaixonada pelo bombeiro. E esse bombeiro, cuja função era te salvar, poderia ser qualquer um. Isso (quem era ele!) é o que menos importa.

E o assunto terminou por aí. Infelizmente, Ana nunca mais teve a oportunidade de dizer ao doc que, na verdade, jamais havia se apaixonado por homens que não fossem bombeiros. Bombeiros que arrombavam portas para que ela pudesse sair do cômodo em que, não por vontade própria, trancafiara-se. A paixão, assim, era esse resgate de si mesma por meio de um outro qualquer. E este "si", invariavelmente, era o constructo de alegorias internas - tumultos silentes, nada muito precioso. O homem pelo qual se apaixonara insinuava-se como uma hipótese de toque, de chave, de arrombo, de arroubo – e, no fim, não existia ninguém exceto ela mesma. A paixão sempre trazia à tona uma possibilidade de ser. Ser outra coisa no entre-lugar onde habitavam dois. Sim, ela estava de fato apaixonada por seu angelical psicólogo. E era esse toque no nervo doente, essa porta que se escancarava palpitante, convulsiva, que de fato dava contornos à febril dinâmica da paixão. "Nos apaixonamos por aquele que nos toca (nos abre) "naquele" lugar que anseia tremeluzente nada mais do que a imensidão - e nos sugere um novo mundo: admirável e irremediável" - dizia. Para Ana, portanto, o objeto da paixão era sempre (sempre!) um bombeiro. "Save me, firefighter!"

Hummm... muito hiperbólica essa imagem (!)

segunda-feira, 2 de março de 2009

Da Rocinha ao Leblon e do Leblon à Tijuca



Existem poucas pessoas que vivem no mundo real. Uma delas, dentre essas poucas, é o Marcelo Yuka. Independente do que houve com ele (por duas vezes, como ficamos sabendo hoje), o cara sempre fez questão de permanecer neste lugar - e passou a sofrer na pele o corte da realidade quando ficou paraplégico. A luta pela vida, ou pela plenitude da vida, nos faz tangenciar de forma muito sincera a realidade e, por sua vez, perceber que esta pode ser tudo, menos egoísta. É, como já disse o Nei Lisboa, estar na "luta armada disfarçado de cantor". É exterminar o Thomas Edson Jr., como fez Grace em Dogville. É ver no outro nós mesmos e, dessa forma, saírmos do isolamento gerado pelo egocentrismo, que nos lança aos distantes alpes de lugar nenhum.
))))))))
Bom, eis a lição: se por um lado o sofrimento desloca boa parte da humanidade para a senda equivocada da armagura, onde todos os demais são culpados pela miséria daquele que sofre (auto-piedade é uma merda e, se o apocalipse existe, é para lá que ela está nos levando), por outro lado, através da experiência do sofrimento (ou da experiência da própria vida, puxa!) muitas pessoas abrem as cancelas do mundo real, que, embora não pareça, é de fato o melhor e mais solene dos mundos: o mundo em que estamos e, sobretudo, o mundo que, sem muito chororô, devemos lutar para que se torne cada vez melhor.

O mundo da fantasia
(denegrindo de vez a imagem das "patys" cariocas...)

Tive um exemplo bem claro de pessoas que vivem no encantado mundo do delírio neste domingo, quando fiz uma caminhada com alguns grandes amigos para a Pedra Bonita, em São Conrado. Até aí, tudo bem. Quando retornamos, entretanto, havia duas meninas (que eu tinha acabado de conhecer) que queriam ir à praia. Tudo ótimo! E eu disse: "Vamos?". E uma delas disse: "Aqui???". E eu: "Claro, qual é o problema? São Conrado é uma praia tão bonita...". E ela: "Você não sabe??? O problema é que é uma praia super mal frequentada: desce geral da Rocinha para vir aqui". E eu disse: "Sério???". Enfim, as gurias partiram de ônibus para o Leblon e eu permaneci por ali, um tanto intolerante, esperando por pessoas que "pensam" e que já pularam faz tempo do pedestal da esteira rolante. Acabei indo para São Conrado, claro. O curioso da história é que as meninas eram da Tijuca e, na verdade, o mesmo preconceito que elas demonstravam contra a galera da Rocinha elas iriam notar no olhar irônico dos moradores do Leblon, que acreditam, por sua vez, que tijucano é suburbano. Enfim, como disse o Dani Ribas, foi uma justiça poética digna dos equinos. Às vezes, o mundo fica de fato "cronicamente inviável". E já que o Yuka é tijucano, e admiravelmente se recusa a sair do bairro, que ele seja também um baluarte do mundo real por aquelas bandas de lá.
)))))))
PS: Descobri que não são as mulheres propriamente que são de Marte. São as patricinhas. Meninas, parem de malhar os glúteos e voltem ao planeta Terra!!! Aliás, em vez de filhos, as mulheres daqui a pouco vão começar a parir glúteos - ou, quem sabe, culotes. Eu, confesso, já malhei muito os glúteos - mas parei. Agora só corro...

sábado, 7 de fevereiro de 2009

- - - - - - - Extermine o Thomas Edison Jr!


1) Tentativa de invento: o “nada” e o problema urbano

Não. O problema urbano não é o desemprego, o touro catalão, os moradores de rua, a camada de ozônio, a poluição do ar, o engarrafamento, a água, o lixo, ou qualquer uma dessas coisas que soam tão peculiares e caras à cidade. O problema urbano não é a violência, a miséria e muito menos a “tão valorizada” educação. Se tudo isso que dizem ser o tal problema urbano fosse extinto, o corte dos arranha-céus continuaria lá, ferindo a urbe, porque, na verdade, há uma espécie de pré-requisito para saná-lo que as pessoas deixaram de enxergar perdidas entre a briga dos guarda-chuvas e pára-brisas – os quais, inevitavelmente, reduzem nosso campo de visão já embaçado pela garoa. Difícil denominar este ente "místico" que paira supostamente inacessível sobre nós. Mas... (Sim!...) O Lars, em uma certa ocasião cinematográfica, conseguiu identificá-lo muito bem. Não que outros não tenham conseguido, mas o Lars o fez de maneira muito poética e corrosiva – antropomórfica, eu diria.

Há, por exemplo, esse filme recente dos Irmãos Cohen – que se parece muito com uma comédia idiota, mas é muito bom: Queime depois de ler (Burn After Reading). Nesse filme, entretanto, o ente inominável é literalmente o “nada”. E assim o filme termina: mostrando o poder absurdo de devastação do “nada” ou, no máximo, de uma certa paranóia, sobre a mente humana. É engraçado. Mas o Lars fez melhor: deu nome e sobrenome a esse nada. Vestiu-o. Concedeu a ele uma profissão: não por acaso, filósofo. E, como não podia deixar de ser, uma língua através da qual ele pudesse se comunicar: o “blá-blá-blá” intelectual.

1,5) O In-telectual versus o Out-telectual
...........
Em Dogville, o ator Paul Bettany é Thomas Edison Junior, uma referência clara e antitética ao norte-americano inventor da lâmpada elétrica. Para ser efetivada, porém, supõe-se que uma invenção deva sair do campo das idéias e partir para a esfera da prática. De verve prática, como podemos ver no filme, o Junior não tem nada. Ele só fica andando de um lado para o outro, teorizando, filosofando, escrevendo, enfim, convocando reuniões. O Edison inventor, ao contrário, por uma necessidade capitalista, obviamente, experimenta, age.

2) Tentativa de solução
do problema

O nada, portanto, que
Grace extermina sem dó e por amor à humanidade, é a teoria do imprestável, essencialmente egocêntrica e nula. Ou mais: o discurso cotidiano, errático, fake, chato, non-sense, grotesco, irradiado de todos os cantos do planeta que não adentra o campo da ação e que, por isso, torna-se altamente pernicioso. Não basta a prática "sem alça", evidentemente. Muito menos a prática pautada em interesses escusos, vazios. E o que, lamentavelmente, mais existe por aí: a prática que refuta completamente o blá-blá-blá que lhe reclama a autoria. Para expulsar o nada de nossas vidas, é preciso que aniquilemos qualquer vestígio de Thomas Edison Junior – cuja função é nos guiar rumo à inutilidade de coisa alguma – e passemos da teoria à prática, traçando uma ponte Mente-------------Ação, Eu---------------Nós. Revolution Action: ação autêntica que visa primordialmente o bem-comum (sim, vivemos em sociedade, esqueceu?) e que tende a dissipar esse entediante “nada” amarrotado e desbotado de nossas vidas. MATE o Thomas Edison Junior e seja feliz. :-)
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("A verdade é que, desculpem a expressão, vivemos em uma Era aparentemente sem fim em que cada um só quer saber de salvar o seu maldito cú - porque o cú não serve para nada, uma vez que não serve para nada de muito nobre! E não se pode, nem ao menos, "gozar" com o cú alheio! E atente para a merda de seres humanos que esta nossa sociedade está produzindo! A questão é: está tudo muito bom, está tudo muito bem, mas até quando vamos conseguir realizar nossos sonhos adolescentes? Até quando, hein?" - Dra. Picareta, psicóloga cult, em conferência via msn.)
.....................
Ou como diria o Pizza, bem a propósito: "Intelectual de cú é rola!!!"

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Mulher-objeto-insaciável em duas versões:

Foto by Terry Richardson

Plástico ou Silico.
Diferenças?
A segunda fala... ops, geme. Ou não. Vai saber...
Mas isso é irrelevante.
A grande questão é que, segundo a Dra. Picareta, a incompatibilidade entre homens e mulheres (plástico ou silico, isso não vem ao caso) se dá por que o primeiro vira para o outro lado da cama - aquele do abat-jour - tira um ronco ou fuma um cigarro ou, enfim, entra em um estado de ultra-relaxamento pós-gozo, enquanto as mulheres não se satisfazem jamais. Sim, elas são desesperada e despudoradamente insaciáveis, umas leitoas àvidas por filhotes, mesmo que não demonstrem. E, nelas, não há uma zona erógena específica, visto que o gênero é por inteiro uma vasta zona erógena formada por cada poro, fio, arrepio, pio, calafrio, pinto, ovo ou xota. "Na mulher, cada poro é uma xota. Ponto. Ao passo que, em seu processo de diferenciação de células ainda incipiente, a natureza do homem relega involutariamente a satisfação sexual a um único e débil órgão, sem o qual ele não é absolutamente nada e através do qual, pelo menos por algum tempo, ele se sente completamente saciado. É como o cerrar das cortinas após um espetáculo".
That's what she said (Michael Gary Scott).
(Sei lá, acho que às vezes falta romantismo...)
*******************
Eu, humilde e particularmente, acredito que a mulher não pode ser um objeto porque este supõe um elemento passivo e, por ser insaciável, como mencionou a Dra., ela se torna, a priori, super-ativa. Portanto, não é objeto: é sujeito. No máximo, pode ser predicado, uma vez que este contém o verbo e, por conseguinte, a ação. Daí o delírio de nossa era. Deu pra pegar?

sábado, 31 de janeiro de 2009

Conexão Lapa-Taras Bulba
(in "o que nos move é a paixão")

São Paulo não é uma cidade cujas maravilhas estão à mostra. O Rio é: com seu oceano atlântico despudorado lambendo a vista por onde quer que você passe. Só encontrei maravilhas por aqui na verticalidade abissal da alma paulistana – e tive que ralar um bocado para encontrá-las, pois não ia passar os próximos “?” anos da minha vida em um lugar pelo qual não estivesse apaixonada. E apaixonei-me: pelas pessoas, pelo ritmo aceleradíssimo, pelo trabalho, pelo estudo matador, pela correria tresloucada, pela Avenida Paulista, pela Sé, pela ZL, pela horda dos “no destiny”, pelo ente workaholic que dá as cartas, pela “Augusta Pussy Market”, pela diversidade psycho yuppie, pela fantasia que vestimos no dia-a-dia, pelos loucos manicomiais que andam desgovernados pelas ruas, pelo sotaque (!), pelo “Brasil” que a megalópole megalomaníaca sintetiza tão bem – enfim, nada que meu espírito também gipsy e antropologicamente investigador não estivesse ávido por encontrar. É claro que há coisas notadamente paulistanas que eu continuo não aturando. Tipo: gel no cabelo, cordão de prata e “wannabes” . Venero a autenticidade, seja lá o que isso for. Mas, no geral, adoro mudanças e sou incapaz de viver sem elas.

Só que dia desses dei mole: estava no Rio. Enquanto caminhava por dois de seus mais batidos cartões postais (Copa e Ipanema), falava mal da morosidade e da malandragem do carioca, do calor insuperável e insuportável, da violência, do Bope, da Rede Globo e suas celebridades patéticas, do ar de província que ainda ali impera e por aí vai. Entrei numa de virar paulistana e vestir a camisa, sabe? (Eu sou uma piadista...) Só que não contava que fosse esbarrar em um recém-chegado tão apaixonado pelo Rio: o Hütz, que de fato se mudou de mala e cuia para o Brasil e acredita que a Lapa é o lugar mais sensacional e espetacular da face da terra. Vindo dele, não tenho dúvidas. O cara está encantado. Encontrou seu lugar ao sol: na vida noturna que só termina ao amanhecer, na bagunça em parte saudável do povo, na quadra da Mangueira, na vibração porra-loka cotidiana, no salve-se quem puder (!) e sobretudo no clima de "festa" que parece pairar sobre a urbe - emanando um calor que ele chama de "intenso" e produtivo. É até bonito ver a paixão reverberante que move o sujeito por inteiro, instaurando-lhe um despertar prenhe de vida, de sexo, de música, de modo certeiro para onde quer que ele alce vôo – seja para o mainstream da música pop, seja para o Carnaval de Olinda. Um perfeito carioca, sem tirar nem pôr. Perfeito. Fiquei admirada e pus minha desesperança com relação a cidade (e ao país) ao lado da esperança sorridente e um tanto mística dele. Um amor. Uma distância crítica necessária para que possamos rever o brilho de uma pérola que já nos parece fosca. Um "gringo" enfeitiçado que nos obriga, de modo implacabilíssimo, a olhar a paisagem sob uma perspectiva menos embaçada pelo tédio do day-after-day. Rio e Sampa fizeram as pazes. Na verdade, nunca brigaram. Na verdade, nunca existiram. No mundo, só existem pessoas – só. E nada melhor do que vê-las apaixonadas, em contato estreito com o objeto de sua paixão (outras pessoas), tendo como pano de fundo um belo cenário e celebrando a vida no que ela tem de mais vasto. Amemos à moda de Dostoiévski! Porque uma nova paixão não significa o ocaso da anterior; assim como a morte não invalida a vida – mesmo por que esta é concebida ao som de uma trilha sonora singular.

Andrei, eu, Eugene e Pedro (Faltou o Dani "boi piranha" Ribas!...)

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

REUNIÃO DE CONDOMÍNIO - em "Histórias da Vida Real"

Se você quer ver o lado mais infame do ser humano, o lado mais vil de quase todos eles, com uma (se muito) raríssima exceção, experimente ir a uma reunião de condomínio no lugar de alguém. Mas tem que ser no lugar de alguém, para que você não esteja evolvido na encrenca e possa ver a coisa toda com olhos de lince. E condomínio grande!... Sim... Em São Paulo, onde as pessoas não têm o que fazer (brincadeirinha hermanos!) e levam as coisas muito a sério – especialmente quando envolve plata. E vamos supor, assim, que essa pessoa que você, muito humildemente, está representando, não pague o tal do condomínio há séculos. E os outros condôminos, junto com a síndica (e essa de fato não tem nada o que fazer), estão lá todos devidamente reunidos esperando o condômino caloteiro como urubus ávidos por carniça. Tudo que eles querem é dar o veredicto e se refestelarem sobre ele.
Então você, o representante que está meio por fora do que está acontecendo e tem uma historinha na ponta da língua para justificar a ausência do caloteiro, segue rumo à tal reunião – onde, aliás, está sendo traçado o destino do dito cujo. E as pessoas esperam por ele – não por você. Sabe 12 Homens e uma Sentença, de 1957? Igualzinho, só que com um “representante” do réu.

Você chega.
- Como assim??? Como assim???
- Você tem procuração???
- Você vai assinar o cheque???
E você se apresenta.
- Como assim???
- Para mim chega. Isso é demais. Vou voltar para o meu apartamento.
- Nós tivemos o trabalho, o “favor”, a "bondade", de nos reunir para decidir a situação dele e evitar o pior, e ele manda outro! Que absurdo!
- Você tem procuração?
Você diz: “Não”.
- Para mim chega. Vou embora.
- Você não tem procuração???
E você diz: “Não”.
- Nós não podemos fazer mais nada. Se ele teve a audácia de não comparecer à reunião que ele mesmo convocou, vai a leilão!
- É... vai a leilão!.
E você conta aquela história triste com um sorriso entre lábios.
- Mas é você que vai assinar o cheque???
- É, porque se não for você... Quem vai assinar o cheque???
“Cheque?” – você tira o corpo fora – “Eu não vou assinar cheque nenhum”. Até que uma alma caridosa puxa sua saia e diz:
- Senta aqui que eu te explico o que foi decidido.
E você diz: “Claro.”
- Ah... pronto: ela vai ficar de pombo-correio agora.
E você diz qualquer coisa que silencia o sujeito – na hora. Uma atriz.
- Pra mim chega. Eu não vou levar isso a cabo.
- Você trouxe procuração???
- Eu vou embora.
Algumas pessoas saem abruptamente, injuriadas e soltando “affs!” pelo caminho. O mau-humor impera.
- Que absurdo!
- Já digo: pra mim, vai a leilão!!!
- Sim, vai a leilão!!!
A alma caridosa termina a explicação. Você anota, se despede e se dirige à saída. No caminho, a sindica e várias outras mulheres lhe interceptam:
- Olha, a gente se reuniu aqui, saiu cada um de suas casas, teve esse trabalhão todo, gastou nosso tempo precioso em plena terça-feira. Poderíamos levar o imóvel a leilão e ganhar muito mais. Mas não: tivemos "alguma" consideração com ele. Por isso, o mínimo que ele podia fazer era vir aqui, poxa, na reunião que ele mesmo convocou para julgarmos a proposta dele, e para que pudéssemos passar para ele o que foi decidido! É um absurdo ele não vir!
E você diz: “Absurdo por que??? O que foi decidido acabou de ser passado. Boa noite”. E sai radiante, sem nem saber por que.

FIM

Conclusão: é incrível como têm pessoas que só estão vivas para ver “neguinho” se estrepar. Assim, ao vivo e a cores. E armam um baita circo só para isso: para ver “neguinho” se estrepar. Tirar esse prazer delas é uma verdadeira ofensa. Tenha o descaramento de tirar esse prazer delas.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Sobre ele

"Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão"

(letra do Chico, voz do Edu e piano e "laialaaaa" do Tom)



Você pode até mudá-lo. Deslocá-lo de um lugar para o outro, como quem troca os móveis da sala para o quarto. Mudá-lo, por exemplo, do mar tempestuoso da paixão para um ambiente mais sóbrio, plácido, low-fi – familiar, eu diria. Ou resgatá-lo da prisão e devolvê-lo a seu habitat natural: o ventre da liberdade. Por outro lado, não pode transformar suas propriedades intrínsecas, seu DNA, digamos assim, por mais que ele eventualmente lhe inspire medo. Você pode – e deve, algumas vezes – enterrá-lo, triturá-lo, baleá-lo com uma pistola sem qualquer misericórdia. Mas como ele pertence à esfera do abstrato, baby, do incorpóreo e atemporal, não adianta. Ele sairá incólume, sem um arranhãozinho sequer, quando, na verdade, na verdade, a baleada foi de fato a pobre da esperança. Essa, por mais guerreira que seja, é possível exterminar de vez, veja você, sem deixar pedra sobre pedra. E muitas vezes é ela, inclusive, que morre no lugar dele (não se engane!), não ele. Ele não é o objeto, nem tampouco o sujeito. Ele “é” – independente e simplesmente. Muitos outros, a bem dizer, adoram se fazer passar por ele. Como depois, no entanto, o troço passa – e passa a graça e passa o trem e passarim –, esses bastardos são infalivelmente desmascarados. E esquecê-lo, pode? Claro, como quem esquece uma carta enfurnada na gaveta. Ela continua lá. Mas não se avexe não: o coração tem lugar para montes deles, e nem se sabe ao certo quantos, mas dizem que a soma beira o infinito.

Ele é eterno – ou a própria eternidade. E não é à toa que Deus, esse magnânimo e polêmico ser (acredite você ou não), roga para si o direito de sê-lo: o AMOR.

Love is forever!

É cafona assim mesmo.
Como já dizia o Fernandinho: é ridículo (!).

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

O que quer que seja o ser

Há aqueles que desistem fácil, aqueles que se satisfazem com uma meia-boca, aqueles que chegam no fim da festa, aqueles que não sabem (e nem querem saber), aqueles que morrem na praia, aqueles que ajoelham mas não rezam, aqueles que perdem o bonde, aqueles que pulam de galho em galho, e, por fim, aqueles que sabem o que querem. E-xa-ta-men-te. Estes são calculistas. Pacientes. Discretos. Inteligentes. Frios. Serpenteiam... e, quando chega a hora, quando a hora chega, quando batem as doze badaladas noturnas e, você, distraído, está na balada, ou embalado em sono profundo, eles dão o bote.



Para eles não há pensamento que não escoe na direção do ato (atores?). Para eles, o pensamento, aliás, é como um tsunami que varre tudo que encontra a sua frente em um raio de dez mil quilômetros, continente adentro, carregando almas consigo – é objetivo, pragmático, quase físico (pornô?), avassalador. Uma força da natureza? Talvez. Submete, não é submetido. Faz escolhas – é um sujeito ativo.


Em geral, são pessoas humildes, dóceis, boas, "altruístas". O que é estranho. A primeira vista, você não daria nada por elas. Não há arma oculta, não há máscara, não há qualquer espécie de jogo, capangas, ranhuras ou artifícios traduzidos nessas dezenas de agentes emburrecedores do ego a serviço de uma sociedade tapada - essa em que vivemos. Elas não se acham. Elas são. Íntegras. E a dor... faz parte. E a sutura... sem anestesia. Por que ser humano é viver ativa e honestamente. Por que ser humano é ser – livremente. Ser-eno. O que quer que seja essa porra de ser.


terça-feira, 16 de dezembro de 2008

No divã do tempo

Quem me conhece, e não são muitos, sabe que, em geral, eu não acredito em psicólogos, psicoterapeutas, psicanalistas ou qualquer coisa que o valha. Como muita gente boa, já estive em lugares estranhos, inomináveis, lynchianos, eu diria, e sei que, quando o bicho pega, não existe ajuda que possa vir atrelada a interesses escusos do tipo: dinheiro. Ou do tipo: cartão de crédito. Ou ainda: de qualquer tipo. Se alguém quer te ajudar, te ajudar de verdade, e não há mal algum nisso, essa pessoa deve querer tão somente te ajudar. Ponto. E quem quer ajudar, na maioria das vezes por que também foi ajudado, não quer nada em troca que não seja o seu bem. É apenas um gesto de amor de quem conhece o amor. Nesse sentido, consultório psicoterapêutico e levante emocional (e eu não estou me referindo a processos de auto-conhecimento inócuos) são coisas absolutamente in-com-pa-tí-veis. A princípio, essa lógica pode confundir, pois a linha que separa uma intenção de outra é tão tênue que aqueles mais fracos e desesperados (os que, por sinal, procuram ajuda psicológica) não conseguem enxergá-la.

Se você deixou de ser uma catástrofe emocional por que teve um bom psicólogo, de duas, uma: ou você estava muito carente e precisava de um ouvinte – o que pode acontecer; ou você é daqueles que fez análise por longos dois ou cinco anos – e aí, querido, vamos combinar, o mérito foi todo seu...

... e do tempo.


É fim de ano e nada de chororô!

Só existe um meio de retroceder no tempo (e “consertar” as burradas cometidas no passado): vivendo-o agora do jeito que era para ter sido. Sim, Viver o tempo agora é isso. Mudam os personagens, mas a história é a mesma. Cabe a você, dessa vez, fazer diferente.