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sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O evangelho segundo Bulgakov

Segue trechinho do segundo capítulo de O Mestre e Margarida, obra prima do Bulgakov escrita no início do século XX, disponível integralmente em inglês na internet. Há uma versão em português lançada pela Ars Poetica em 1992 (Valeu Zazie!) que, infelizmente, deixa muito a desejar ao original do autor russo. Esperamos que a obra seja revisitada por tradutores e revisores brasileiros que possam fazer por merecer o trabalho desse brilhante escritor.

'(...) No, no, Hegemon,' the arrested man said, straining all over in his wish to convince, 'there's one with a goatskin parchment who follows me, follows me and keeps writing all the time. But once I peeked into this parchment and was horrified. I said decidedly nothing of what's written there. I implored him: "Burn your parchment, I beg you!" But he tore it out of my hands and ran away.'
'Who is that?' Pilate asked squeamishly and touched his temple with his hand.
'Matthew Levi', the prisoner explained willingly.
'He used to be a tax collector, and I first met him on the road in Bethphage, where a fig grove juts out at an angle, and I got to talking with him. He treated me hostilely at first and even insulted me - that is, thought he insulted me -by calling me a dog.' Here the prisoner smiled. 'I personally see nothing bad about this animal, that I should be offended by this word...'
The secretary stopped writing and stealthily cast a surprised glance, not at the arrested man, but at the procurator.
'... However, after listening to me, he began to soften,' Yeshua went on, 'finally threw the money down in the road and said he would go journeying with me...'
Pilate grinned with one cheek, baring yellow teeth, and said, turning his whole body towards the secretary:
'Oh, city of Yershalaim! What does one not hear in it! A tax collector, do you hear, threw money down in the road!'
Not knowing how to reply to that, the secretary found it necessary to repeat Pilate's smile.
'He said that henceforth money had become hateful to him,' Yeshua explained Matthew Levi's strange action and added: 'And since then he has been my companion. (...)'


quinta-feira, 18 de junho de 2009

Coração de Cão - Mikhail Bulgakov

Baseado no romance homônimo do genial Mikhail Bulgakov (na foto acima), mais conhecido como o autor de Mestre e Margarida, o filme Coração de Cão, dirigido por Vladimir Bortko, é uma porrada hilária no seio do regime da ex-URSS, que esmagou, em meio ao frenesi bolchevista, qualquer tentativa de se produzir arte no país. Vide Maiakovski, Nabokov, Bábel e tantos outros. Bulgakov tentou sobreviver a essa dinâmica, mas teve muitos de seus livros e roteiros para teatro censurados à época. Em 1925 escreveu Coração de Cão, que só veio a conhecimento do público em 1987 - e, dois anos depois, Bortko também filmaria essa peculiar história de um "homem-cão" (um cachorro no qual se implanta a glândula pituitária de um homem morto) que se torna membro do partido e serve, talvez por ser um boçal insuportável afeito ao sistema dominante, muito bem aos desígnios do governo socialista. Um proletário-criatura, totalmente sem escrúpulos, que sabe tirar vantagem tanto da miopia soviética, que parece não enxergar o ser humano, quanto dos privilégios da burguesia que lhe deu vida. Baita crítica.

Fica clara a referência a Mary Shelley, mas os propósitos de Bulgakov eram outros. Vladimir Bortko é uma diretor fabuloso que vem filmando vários clássicos da literatura russa tanto do séc. XX quanto do séc. XIX. O último, agora em 2009, foi Taras Bulba, romance do piradíssimo Gógol.

Parece que existem edições portuguesas (segundo dizem, muito mal traduzidas) dos livros do Bulgakov. Quanto ao filme do Bortko, não faço a mínima idéia de onde encontrar. A Nastia trouxe pra galera lá de "Peter" - com legendas em inglês ou em russo. Quem quiser emprestado, vale muito à pena.

Como existe o you tube, fique com um trechinho da cena em que Polygraf Polygrafovitch Sharikov, o homem-cão (e sem noção) é apresentado ao mundo: