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terça-feira, 20 de outubro de 2009

A dialética das relações humanas pós-apocalipse

É dialético. Paradoxal. Hegeliano. Quase marxista e, sem dúvida, adorniano. As opções de escolhas são tantas - tanto para nós quanto para os outros - que começamos a abrir (arreganhar mesmo!) nosso leque de opções mais restrito ou seleto. Assim, aquelas coisas que antes cultivávamos por algum tempo, aninhávamos em berço esplêndido, decifrávamos, passamos a descartar de imediato - isso porque, igualmente para os outros que nos acolheram de qualquer forma, somos a priori descartados qual produtos. Reagimos conforme "o chute na bunda" que levamos - ou seja, partimos para outra pseudo-escolha. Só que ampliando ou estendendo nosso leque de escolhas e diminuindo o tempo de consumo, além de nos tornarmos hiper-superficiais, examinando mal e porcamente o objeto de estudo, rebaixamos o nível em que se assenta o objeto - até o nível em que "qualquer coisa serve". Nesse rastro, e confirmando as proposições da Escola frankfurtiana, quanto mais escolhas temos, menos escolhas fazemos. A liberdade de escolha do mundo pós-moderno é a total falta de escolha. É catastrófico: vivendo em uma sociedade tão repleta de opções, estamos completamente sem opção.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Dafne disse:

Abre aspas -

Gosto de oferecer tudo que amo aos meus amigos. Gosto de oferecer os homens que amo às minhas amigas. Ando apaixonada por essa coisa de estar apaixonada – o que, na verdade, dizem, não é bom. Tô nem aí – tô apaixonada e sei de cor todo caminho de ida e de volta de tanto que já me embrenhei por esse mato sem cachorro, sem ida, sem volta, sem caminho...

Fecha aspas.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Carta ao ET



Querido ET,

Como vai aí arriba (ou aí abajo, dependendo do point of view)? Por aqui você já sabe, né? Tá tudo uma merda. Só o desamor constrói – montoeiras de lixo, rios de espuma branca, miséria raquítica, invisible people, cultura vagaba, cinismo sensual, e por aí vai a perder de vista ad infinitum muito além de qualquer horizonte cinzento – como a CNN intergaláctica já deve ter divulgado. No entanto, há uma série de aforismos que, pairando sobre a tigela, conformam a massa, né, fofo? Coisas do tipo “O passado será sempre melhor”, “The show must go on” ou “Deus ajuda a quem cedo madruga”. E os humilhados e ofendidos? Vixe, Nossa Senhora, estes terão o reino dos céus. Terão sim, mas, antes, acho que esse show já anda mal das pernas e precisa dar uma paradinha. E a arte? No que se transformou a auto-proclamada (por uma horda de piadistas burgueses) e divinizada arte? Bloquinhos de gelo derretendo em Paris? Ah, faça-me o favor. Intervenções cômicas ao lado do banco anti-mendigos – eu diria. Certos surtos freudianos de introspecção alienada deveriam, por ora, ser categoricamente proibidos (Ah, inconsciente tem limite!) – mas aí é fazer como fez Stalin, né, o que já provou ser ineficaz. Então não chama de arte, poxa! Aqui reclamar não é nada cool, ET. Soa ultrapassado, antiquado, retrógado. Sinto falta daquele clima vermelhão de marte. Vermelho-sangue: adoro! Os terráqueos não cultivam muito respeito pelo verde ou pelo azul, por exemplo, e não me admira que você não queira mais pisar por aqui . Sabe ET, acho que a humanidade nem vive mais um retrocesso, vive um retrocídio, movendo-se para trás sem nem dar uma olhadinha pelo espelho retrovisor. E, ao que tudo indica nesse chamado retrocídio, já estamos na Idade Média, exatamente no filme do Bergman, já que tudo no sétimo selo é, de fato, sétima arte. No mais, sinto que a essência humana, essa que nunca se soube direito o que era, mas acerca da qual, com efeito, havia indícios palpáveis, volatilizou-se de vez. De concreto, só o marketing. E a vida, veja você, reside na idéia (ou no pseudo-pilar) de que é preciso “vender-se” para ser. É vendendo, portanto, que podemos comprar. Comprar o que? Nossa liberdade... de consumo (Uebaaaaaaaaa! Adorno rules!). Só – já que, infelizmente, só essa liberdade fake nos cabe. Tenha você acumulada a fortuna que tiver, tanto mais enganado é pela roda que o escraviza. Liberdade (o que você acha, ET?), na verdade, é desvencilhar-se disso tudo (não sou nada original, Platão disse algo semelhante). Camadas de marketing puro, à exceção dos enfants, há muito, ocultam la vérité – liberté, egalité, fraternité. Ideais sobrevivem apenas como pruridos no mamiloUUUUUUU – é o que parece. Depois passa.

Vou ficando por aqui, ET. Já escrevi muita besteira. Se escrever mais a Gannibal não me deixa postar no blog dela, sabe? Vai dizer que eu ando lendo muito... Hmmmmmmmmm.

Espero que não demore uma eternidade para pintar por aqui. Estamos sentindo sua falta. Suas aparições são tão divertidas!!! Muito melhor que arte pós-moderna! Apareça, viu!

Lembranças do Planeta Terra!
Inté
@nostálgica.

sábado, 19 de setembro de 2009

Barata e nada

"O dia é meu, o céu azul: poderia abraçá-los se quisesse. Á noite espezinho a tarde e mergulho sob os estrados da tapeçaria de lençóis, quando, em face de um cálido alvorecer, venho à tona arrolada a remelas e a estilhaços de medula.
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Ela era intensa, não cabia em si. Mundos arrolavam de sua pele, de seus cabelos. Era molhada.

... para depois procurar. Só que antes, muito antes - tão antes que já passou - eu tinha que fazer uma série de outras coisas, de mentirinhas, de entre-safras, de porra nenhuma, para só nesse ponto especifico, em algum momento indeciso, rijo e condensado, poder me safar de fininho, poder pular o muro, poder partir. Partir para procurar, procurar alguma minúcia, alguma reminiscência que - ufa! - eu acabei deixando de lado por falta de saudades.

Está feito: na verdade, eu ia principiar me embrenhando pelas caneluras da preguiça, pelo peitoril do que já passou, dispondo-me pé ante pé no cimento fresco, até resgatar do chão o montículo de flocos, até arrumar esse microlar que eu deixei às avessas, estando assim, nessa mesma posição - sentada, descadeirada, acomodada - como se varresse o entulho com os olhos. Depois, juntaria a bagunça num cantinho remoto, numa quina, empilhada, ereta, a fim de que nada me anuviasse a vista, e de que todos esses ciscos de meio-fio continuassem sendo próprios a isso, ao mínimo e inadvertido sinal da tormenta. Não há dúvidas: empenho-me nesse troço estática, sem ação, sem mãos ou pernas, sonolenta, quase sonhando, deitada, quase desmaiada, inerte, quase morta: a um passo de, na iminência de - apática. Meus calcanhares não respondem mais às ordens imperativas da minha mente. Mas é como se tudo não passasse de um mero desejo exclamativo sonado, dissimulando-se pelas intrincadas redes do não-fazer-nada-sem-movimento. ----------- Se tivesse sentido saudades, saudades constituída de suspiros, saudades do durante experimental, saudades das impressões perfeitas, saudades daquelas tigresas de tocaia na mata, saudades da obscuridade das coisas, saudades das incertezas fabulosas, ou se tivesse sofrido de dispnéia e saudades, se tivesse sido acometida pela insônia, pelo sonambulismo e pelas saudades - que sei lá que sufoquei -, se tivesse dilacerado meu corpo, minha alma e meu espírito de saudades - vomitado, urrado, me debatido, reivindicado - não precisava parar. Parar - para depois partir.

Ficar paralisada, indefinidamente, esperando - o quê? - toda bagagem de trecos escorregar por detrás de mim, todo o sangue, todo o tumulto de lixo se espraiar pelos móveis da casa, ansiando por aquele documento vazio - o ultimato da vida -, para daí emergir da letargia, afoita, como uma âncora lançada ao mar e logo em seguida içada. Parada, quase que meio alucinada, recurva, dedilhando notas sem som sobre o teclado, solfejando estribilhos de letras mudas, imundas, açoitando um mundo estranho e comprovadamente impossível. Eu, eu, eu - tomando fôlego pra continuar -, por que não tenho, ao que parece, saudade daquela infantaria de desejos que irrompiam de meus poros, feito calafrios inumanos, feito frutas de doces no pé, feito lulas e tentáculos, chocando-se ao perecível, ousando-se aos contra-sensos, importunando meia orbita e meio mundo de otários sem governo e direção. Eu, eu, eu, sempre eu, quando é difícil respirar para abortar o ontem - e que se foda o antes, e que se danem os documentos e registros extraviados, e que se enterrem os mortos -, para desencorajar o medo de afogar tudo isso em mim, para viver na base sôfrega, porém saborosa, da saudade."

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Da série: sinceridade gauchesca (!)

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Eu: Mó legal "tu" ter vindo Gauchinho. Não esperava. Por que "tu" veio???

Gauchinho: Bah. Por que eu não tinha nada pra fazer.

Nothing to daclare.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Brincando de Deus

Na passagem do virtual para o real, da fantasia para o concreto, que, sabemos, jamais se realiza, uma vez que o partilhar do ente, inda mais do ser, se desloca no esteio do tempo perpétuo, algo de lírico se perde. Pessoas imaginárias são degoladas pelo lapso que, tentador, fertiliza a idéia, tornando-a monumental, falsamente realizável, megalomaníaca, à imagem de seu criador: qualquer vacilo como Pedro. Pedro não é Deus. Enquanto milhares de servos e escravos erigem um sítio misto de Amsterdã e Roma, um eldorado, outros tantos definham sob suas anáguas. A imaginação de Pedro mata, desmantela, aniquila, suporta à revelia da razão um universo de faz-de-conta. Não se desdobra em nada de fato, e, quando a realidade dá as caras, não há muito a fazer a não ser encará-la, distorcê-la – acomodar-se como placas tectônicas em seus ornamentos fictícios, em seus contornos defeituosos, em suas axilas mal-cheirosas, em suas fibras bolorentas, em seus pilares bambos. O que “é”, assim, vasculha e espezinha o que "seria", sem deixar rastro. "E é difícil fitá-lo. Não era nada do que imaginava". É caótico, e até medonho, rasgar a existência onírica daquele que com tanto carinho aninhamos entre têmporas. Enterre-o. Você não é Deus. Há um quê de masoquista, incompreensível e inevitável nessa coisa demasiado humana de brincar de Deus.

domingo, 23 de agosto de 2009

Pro domingão paulistano - cante Lobão (e invente outras memórias...)

"Chove lá fora
E aqui tá tanto frio
Me dá vontade de saber...
Aonde está você?

Me telefona
Me Chama! Me Chama!
Me Chama!...
Nem sempre se vê

Lágrima no escuro
Lágrima no escuro
Lágrima!...
Tá tudo cinza sem você

Tá tão vazio
E a noite fica
Sem porque...
Aonde está você?

Me telefona
Me Chama! Me Chama!
Me Chama..."

Fui lá ontem. Quando entrei, elas me receberam como se eu fosse alguém muito especial – e de fato era, já que todos somos, ora pois. Incrível perceber-se alguém muito especial nessa cidade torta. Diziam-se revolucionárias – e eram. Passei o dia inteirinho por lá, na ânsia de ouvir jazz, entre livros, metafísica e arrepios, do tipo: “Uma palavra vale mais do que mil imagens”. De fato, com imagens não podemos pensar no que quer que seja, só imaginar. O que é ótimo; embora em dias como esses, de descalabro nu, seja preciso pensar, refletir, raciocinar e agir. De resto, também deglutia, alheia a engasgos, aquele bando de histórias que me aturdiam embaladas feito vagões de locomotiva e adentravam afoitas, em looping, em minha boca caudalosa, salivante, esgueirando-se pelo esôfago e assentando-se no estômago, no bojo de pavores e bolores gástricos eslavos. O almoço ainda me escapulia em pílulas de arroto: bafos. No prumo da assepsia – algo terrível. Algo que eu, naturalmente e sem perceber, disfarçava. Sentia-me no meu lugar – e acabei encontrando uma edição portuguesa de um raríssimo exemplar do Turgueniev. Amo. Pensei em tantas pessoas que amo, aliás – e o quão longe e próximas elas podem estar de mim a um só tempo e espaço. Abismos que se desfazem em um piscar de olhos quando – e especialmente – este estilete que trazemos a reboque e a contragosto cessa repentinamente de circunscrever sulcos ao nosso redor ou de machucar aqueles que não somos. Contudo, já de volta a casa, o cio de meados do mês provocou-me sonhos eróticos, verdadeiros pesadelos, concedendo-me, de presente, um encontro com o avesso do menino. Merda. Não entendi quando ela disse que deveria tolerar. E me deixar mutilar? Não. Algo pertubador – e, por ora, já nem quero expor meus copiosos tropeços ou falar sobre nada disso. Prefiro continuar por lá, semeando conceitos, ao encalço de um homem formidável que, dentre outras coisas, perguntou-me se estava tranqüila enquanto palestrava pela enésima vez a respeito da história de minha terceira vida – não a última, espero, mas a mais deslumbrante e orgíaca, consciente de seus prazeres infames e de sua beleza divina. Pedi para sair depois que me ofereceram companhia e um jantar perfumado. Alguém ia tocar piano. Havia, em uma esquina pouco visível, uma balalaica também. Alice e Carrol. Pena... meu tempo de paraíso havia se esgotado.

Holofotes tonitruantes espocam na sílaba. Bá. Algo mesmo como um “bá” gaúcho. Sorry – Des-leia.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Um gosto particular pelo nada

Depois que extraíram meu cérebro, puseram-no em uma pequena bancada de vidro ao lado da porta. Vi Mariah aspergindo-lhe pimenta e suco de tangerina (ou manga, difícil saber sem ter ao menos provado), o que deveria conceder-lhe um arzinho de fresco, saído do forno. E era. Não tinha morrido ainda ou – no mais – não havia morrido em vão. Sentei-me no chão e comecei a imitar um frango. Muito fácil: bastava levantar as alças dos braços e sacudi-las ao léu, em zigue-zague, deixando aparecer as entrelinhas das axilas. Mariah ria. Aquilo deveria ser mesmo risível. Enquanto meu cérebro flambava, disseram-me, comecei a dizer sandices, as quais não posso me lembrar, naturalmente, pois no lugar do cérebro pendia-me uma cabeça oca, algodoada, de onde vertia sangue o bastante para pintar um quadro. Do coração, entretanto, tenho recordações: disparava-me, pois lá pelas dez, à noitinha, senti dores no peito. Era o triunfo oxigenado de não ser.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Apocalíptica adverte: o fim do mundo é só uma questão de lógica e twitter



Apocalíptica diz:
Se:
tudo que existe começa e termina nas relações humanas.
e se:
a integridade das mesmas está cada vez mais ameaçada pela internet.
e se:
transformadas substancialmente*** as relações humanas deixam de existir.
Logo:
o twitter, na verdade, é o fim do mundo.

Nostálgica se manifesta:
Jesus, Apocalíptica! Você tá completamente por fora, menina! Nunca leu Lukács? Nada disso: o mundo acabou faz tempo!... Acabou quando o homem deixou de ser homem para virar mercadoria. Hum? Sociedade capitalista, São Paulo, Avenida Paulista, Manhattan, Champs-Élysées, cultura das saídas. Não há mais relações humanas desde entonces. Há relações entre coisas. Marx - nosssa! - já havia cantado essa pedra da desumanização, sua zéfa. Lá na cracolândia neguinho dá até uma cafungada nela...

Apocalíptica (perplexa):
Oh my God!... Vou comprar amoras!...

(Eu, muito humilde e insignificantemente, continuo acreditando que enquanto houver amor(as), há esperança........................)

***?

quinta-feira, 30 de julho de 2009

O desamor é cego (ou quando virei verme...)

"What kind of love would a blind man choose?"

Parece coisa de nada, mas não é fácil quando a lente de contato se perde no globo ocular. A sensação é a de que os olhos, eles mesmos, fossem navegar pela superfície da córnea e ancorassem em algum universo baldio, à deriva, de onde só um cirurgião oftálmico, em uma cirurgia de alto risco, poderia extraí-los – embora não sem cegar o paciente. A paranóia é foda na primeira vez. E foi naquele momento, o do esfregão debutante, que o safado me apresentou a sua amante, a amiguinha dos dias de folga, a tal da Mirela, ou Milena, ou “devagar” em russo – a saber, Medllena –, em um dos mais caóticos e malfadados episódios da minha vida - já notadamente absurda, cabe reforçar, em razão do simples leitmotiv que a acerca: viver. O mundo ruiu. Tive vontade de parti-lo em dois, na verdade, quebrá-lo em mil, ficar com a maior metade e deixar para aquele casal de funâmbulos a parte dos líderes carniceiros, da indústria cinematográfica norte-americana, das novelas mexicanas e da música pop, infortúnios dos quais eu nem iria me lembrar. Eu ficaria com o Gaudi, claro, os escritores russos, o Che e o querido jovem frade em um mosteiro em Bordeaux estudando metafísica. De resto, ia fazer como a Andrea: passar as férias em Itacaré na Bahia. Mas não. Não. Muxoxo de “não”. Como já disse o referido jovem frade, “a realidade é o que existe”, minha cara. E, sendo “a realidade o que existe” e não o que a gente inventa para suportá-la, como mal informou o desinformado Proust em alguma das sei-lá-quantas páginas de La Recherche, na tradução do Fernando Py que é a melhor (ah... foi mal, Bandeira!...) – bom, retomando o fio e a meada, como ele bem frisou, mega inspirado que estava, naquele dia de sol a pino, a realidade é o que existe quer você queira quer você não queira ao despetalar a flor do mero acaso. E, para minha completa infelicidade, na realidade em que me enfurnei, pé no âmago da jaca, não havia cavalo ou cavaleiro nenhum para me resgatar – devorando-me, imaginava, logo em seguida, em meio ao capinzal enquanto os carrapatos me transmitiriam uma doença venérea qualquer e eu (hahaha) nem aí. Não havia nada além da cruel realidade. Foi desse modo, aliás, que descobri algo que viria a ser de suma importância (sério!) quando comecei a freqüentar um centro espírita: sim, eu não era esquizofrênica como meus irmãos. Porque se fosse, prestenção, uma paisagem um tanto mais psicobela teria se descortinado perante myself, e não aquela cena oca que, desventurada, porcamente testemunhei: a Medllena, bêbada, aos tropeços, vestindo uma calça da Gang – como diz o Ricardone -, cachorrona, silicone ao relento, e aquele homem para o qual tantos bordados e tricotados fiz, para o qual tantos varais de roupa estendi e camisas sociais alinhei a ferro, também embriagado, na cama, expulsando-me às gargalhadas da casa em que morei, sobretudo ébria, por tantos desenganos e carnavais sem conta. Bem pior e desastroso seria, com efeito, se não fosse o poder de minhas fervorosas orações - que por tantos anos copiosamente rezei sem fraquejar e saber nem para quê ou por quê. Pois foi Deus, tenho certeza, foi Deus que me privou da vista naquele instante, deslocando o par de lentes de meu par de olhos, e só fazendo que aqueles dois ciscos retornassem a seus devidos lugares quando evadi do pardieiro qual um verme. Meu coração, sem dúvida, não agüentaria tamanho desgosto e desafeto – enregelar-se-ia para todo sempre no bojo da estupefação de meu mais caro sentido: a visão. Desde então, não me apoquenta a auto-piedade, não me apunhala a tristeza ou o ciúme e, dos homens, eu só quero o amor. Sim, o amor, pois o desamor, egoísta, nada vê – ou só vê o que bem quer.

PS: Na separação de bens, deixei para ele a música pop. Fiquei com o sobrenome, claro, muito mais útil.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Os hormônios e o século XXI

Apesar de ser um péssimo poeta, Cazuza tinha razão quando dizia que, a despeito da rima, burguesia e poesia não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Em pleno século XXI a sociedade continua dividida em castas, sendo a pior delas, como diz Lukács, a pequena-burguesia, em relação a qual qualquer forma de arte mais elevada é totalmente incompatível. “Enquanto houver burguesia não vai haver poesia”. Em pleno século XXI as pessoas se recusam a se levantar de seus troninhos – onde defecam, dormem, constroem cercas e o diabo – and life goes on. Jean Cocteau profetizou: "a vida é uma queda horizontal" - não por que vamos morrer algum dia, mas por que conseguimos seguir nossas vidinhazinhas em meio ao genocídio alheio, que nos avizinha, sem estar nem aí. Em pleno século XXI vivemos uma peste atrás da outra, sendo a moléstia da vez a tal da porcina, contra a qual não há – não adianta, hermanos – não há prevenção. Em pleno século XXI a sociedade, além de patriarcal, hostil e machista até o útero, continua dividida, na prática, entre aqueles que acreditam em Deus e aqueles que não, sendo que estes não fazem a mínima idéia do que seja esse Tal ente, e aqueles que acreditam, em sua maioria, também não. Em pleno século XXI, os povos primitivos já mostraram ter mais domínio sobre qualquer tecnologia do que o homem civilizado, mesmo assim as últimas aldeias indígenas do Brasil se esvaem como água pelo ralo. Em pleno século XXI vivemos, sim, a barbárie. Em pleno século XXI, não há século XXI – e a mulher, mais particularmente “eu”, sofre de TPM e se põe a reclamar sensibilizada, visto que não há, veja você, te enganaram, século XXI algum. Tudo invenção, estamos na Idade Média. Em pleno século XXI eu abro a janela do apartamento em que moro em São Paulo (essa cidade, esteticamente falando, horrenda) e o que eu vejo é aquela afamada cena de “O sétimo selo” do Bergman: uma montanha e silhuetas próximas ao crepúsculo, em fila, seguindo um líder sem saber para onde ou para quê, à deriva e desnorteadas. Como diz meu sobrinho de quatro anos: “ai, ai, ai...” Um anjinho.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Verbo de hoje: Endomingar*** (no presente do indicativo)

Eu me endomingo
Tu te endomingas
Ele/Ela se endominga
Nós nos endomingamos
Vós vos endomingais
Eles/Elas se endomingam

***Vestir-se para o Domingo (!), dia de missa. Ver Domingo.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Esbofeteei-me

A quarta-feira chegou e tudo que eu precisava era levar um tapa na cara, uma porrada no meio das fuças. Ninguém apareceu para me dar (nessas horas todo mundo some, né?). Tudo bem - Esbofeteei-me. Algumas lágrimas quiseram se achegar, insinuaram-se na meia-lua do umbral, entre a foice dos olhos, pináculo da córnea, ao largo da tez, fizeram-me rememorar o ante-ontem, e eu disse "nem veeeeeeem, meu". E... sorri... Sorri. :-)

Por isso chove.
Por isso venta.
Por isso vou viajar.

sábado, 6 de junho de 2009

Meu pai diz que quando está bêbado toca essa música ao piano. Eu sinceramente, não sei. Vai saber (?), talvez ele esteja incorporando o Shoenberg (!). Não descarto nenhuma possibilidade.



Essa também:



E daí vc pega seu CD do Debussy ou do Erik Satie e aperta o play. Alívio - essa é a palavra. Alívio.

Verbo de hoje: Embarangar*** (no pretérito perfeito)

Eu embaranguei
Tu embarangaste
Ele/Ela embarangou
Nós embarangamos
Vós embarangastes
Eles/Elas embarangaram

*** Tornar-se baranga. Ver Baranga.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Русская народная песня

Ой мороз мороз не морозь меня

Не морозь меня моего коня

Не морозь меня моего коня

Моего коня белогривого

У меня жена ох ревнивая

У меня жена ох ревнивая

У меня жена ох красавица

Ждет меня домой ждет печалится

Я вернусь домой на закате дня

Обниму жену напою коня

Обниму жену напою коня

Ой мороз мороз не морозь меня

Не морозь меня моего коня

Не морозь меня моего коня

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Esta casa

"Esta casa cheia de luminárias, que amarela o olhar só de focalizar os corpos e os relevos, fingindo ser um imenso astro da manhã, não é minha. Essa casa pertence a alguns de meus amigos. Possui uma bela janela que conduz a uma ainda mais exuberante paisagem do dia, cuja composição se faz de mares e horizontes que trafegam. Fico aqui entre o sofá e alguém que me entoa lamúrias que mal ouço, e mecanicamente respondo, não correspondendo a nada do que um dia interpretei. É sutil, mas muitos deles se assustam - e mesmo eu me assusto - quando assumo e compreendo de vez o estado de espirito que me leva em definitivo para além desse amarelo-caqui-pastel dos arredores, para o refratário campo no supra-teto no qual reside uma bússola, para um mundo de cores vivas que prefigura a ilha - agora percebo, é um ilha - que suporta a lua no mar estrelado do firmamento. É para onde devo ir.

Por vezes, sinto que deveria retornar. Que deveria retornar rumo ao que deixei em celibato e casto em renovadas noites a partir dessa, andando de frente para trás, no sentido anti-horário. Daí, se hoje estou aqui onde estou, era só retroceder um pouco ou mais nesse tempo sem relógio e atingir a linha de largada, de onde jamais deveria ter saído. Lá está uma grande porção de mim, uns 55% sem cálculo, à minha espera na matina na qual me despedi à luz de uma lua rosada, sob a promessa de um dia, após ter resolvido todas essas picuinhas do pessear, do navegar e do estremecer, voltar de mãos repletas para onde o meu pensamento invariavelmente decola: à outra metade de mim.
Mas isso são bobagens.
O fato é que não sei mais, desde então, o caminho que volta.
Não saber o caminho de volta talvez seja um dos maiores problemas da minha amargurada vida. As setas nas estradas, há muito, perderam a sua imobilidade, girando insensatamente, indicando saídas multiplicadas e subtraídas por todas as direções do possível.
O impossível.
Pensava que talvez devesse tentar o caminho do impossível, a vereda periclitante do improvável, o insubstituível pavor pelo que não é mais conhecido ou catalogado: pois é a única alternativa que me restou. É por aí que devo guiar os meus passos".


Bobagens, bobagens, bobagens.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Notas paulistanas

Vou fazer 1 ano de imigração daqui a alguns meses. Não sei como os japoneses aguentaram fazer 100.

sábado, 23 de maio de 2009

Ressentido, amargurado, humilhado, ofendido, mas lindo.

Como diz o menino diabético, esse oráculo de tanto tempo, a "vida afetiva toma um espaço descomunal na vida das pessoas" - ou algo do tipo, não lembro mais. Mais triste que tudo isso é o fato de que quando eu descobri essa banda ela já tinha acabado. Pena.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Bureaufóbica

São Paulo é um baita escritório a céu aberto, desgovernado por leis civilizadas em desuso, onde tudo, basicamente, é trabalho, cafezinho e burrocracia - eu, particularmente, prefiro o binômio que sintetizou minha estadia desde então: correria-balada. Na verdade, preciso voltar para casa (home sweet home!), já passa das 22 horas. Casa? Vai dormir no escritório, chuchu. Sério: não se pode fazer porra nenhuma por aqui. Um dia quis fazer porra nenhuma e me dei mal: fiquei sem opção, já que é preciso sempre fazer qualquer coisa, mendigar atenção, produzir matéria pautável, entorpercer-se cultural ou etilicamente, transvestir-se de capacidade oral-fálica. Sinto falta daquele nada obeso, desbotado e esparramado tipicamente carioca que madrugava pelo ar. Ecos de O Retorno fundem minha cuca. Sem dúvida: um dos filmes mais prenhes de sentido que já vi e ouvi. Que motivos, afinal, levam alguém a comprar um óculos de dois mil reais? Os mesmos que levam alguém a comprar um de duzentos ou um de vinte no camelot. Não coloquem a culpa na Daslu. A lógica é a mesma: a do consumo voluntário consciente. Fudeu. Não acredito em inconsciente, em Freud, enfim, essas baboseiras redentoras do sujeito ativo. Preocupo-me com o que eu seria se eu não fosse quem eu sou. Discursos incoerentes rondam por aí aos borbotões - a começar pelo meu. Infelizmente, o ente "compra-compra" é quem dá as cartas nesta urbe sacal. Pacman, sacolas sacolejantes e só. É preciso fazer algo com o dinheiro que se ganha, né, meu? Ser. Sumir. Sonhar. Ou seremos interpelados por um odioso "para quê"? O que é uma merda belíssima e sem tamanho. Vide o Johannes. Vide o Miguel. No caminho até a cama, milhares de pessoas te bombardeaim com tudo quanto é tipo de produto inflamável: de solos de guitarra (como vi hoje na Paulista) à filosofia Hare... Triste é o trabalho infantil. Até quando vão permitir que crianças sejam expostas à piedade alheia? A cidade grande brasileira abriga a maior concentração de trabalho infantil do planeta. Crianças como instrumento de dor inflingida em seu coração yuppie maternal. Negligência. Como denunciar? A quem culpar? Já não há culpados... Eu quero ir para casa. Cansei. Casa? There's no place for us, baby. Ask Johannes. Ask the dust. I need to sleep. J'ai sommeil. Odeio o francês. Prefiro os russos. Amo loucamente os russos. Morrer em um duelo é muito punk. Existe, afinal, um liame espectral que conecta Puchkin (Deus) à musa Patti Smith. Um Cavalo de Bronze a Horses. Um mar de possibilidades a uma inundação em São Petersburgo. Johnny a Ievguieni. Mas isso é sublime e eu vou deixar para depois. Go Rimbaud! Carros só servem para engarrafar, causar acidentes e tolir o atleta nato: você. E, por aqui, já nos deparamos com os mártires da bike. Regressamos, veja só, à invenção da roda. E tudo que se propaga aos quatro ventos via descolados de plantão é como a descoberta (tardia) da pólvora. Talvez o mar em sua presença irrefutável e soberana nos confira um sentido de humildade que, no fim, é imprescindível. Não somos nada - ou porra nenhuma. Boa noite, amado. Escrevi demais - nada que preste. Des-leia.