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segunda-feira, 9 de maio de 2011

O tesão a priori é o nosso ato falho

Às vezes tudo desaparece e só sobra você. Às vezes tudo parece que perece, uma letra muda, e -------- Você (não eu) soçobra por entre quatro paredes, num aperto no peito que só, perto, pertinho, a despeito de um quarto oval, ¼ de merdas esmigalhadas, e não há nada pelo que valha a pena desenterrar uma pá de grilos, mastigar alface e ir à luta. O sacrifício não equivale a uma canção do Bowie. Space Oddity cantada pela Karen Carpenter. Lindo! Imagens redemoinham e, em seguida, na proa do sobressalente, um universo de favores me assaltam: pelas beirinhas, beiradas calhordas, embustes, sacrilégios. Refaço a literatura desonesta esculpida por pentes em lugar de canetas. Os cabelos se enroscam nos mamilos. A vaidade, como ele já disse, é tudo. Não estou falando de Deus, D’us (lacrimoso) ou de Mademoiselle Iolanda. É da memória de que vos falo. Da estupefação contida nesses momentos de intimidade não tida, do sexo imaginado, dos versos ditos, do segredinho que permanece entre nós dois apesar de sermos ambos casados à moda antiga e conservadores pra caralho. Exxxxxxxxxiste, sim, um subtexto tenso, um tesão a priori que é o nosso ato falho, e vou desmerecê-lo se não sair daqui, já que, por ora, pirei. Parei. Voltemos àquela... Àquela historinha da qual se faz roteiro tipo “û de sempre”.


Não tenho a mais vaga e imaculada idéia. Procuro o núcleo e só me resta o medo. Meus amigos são até pessoas descentes, filhos da classe média dos anos 80 que inundou a cidade com seus hábitos filisteus. Eu, amuada, e compelida pela conjuntura, cabe ressaltar, cotegei o russo com um idioma neutro e morri. Alhures, algures e, no hemisfério sul, multidões de refugiados em êxodo. “Tô cuma saudades famélicas de ti... de te namorar... de te devorar... Carentizei” – Foi o que ela lhe disse. Não tinha a mais vaga e imaculada idéia. Procurava o núcleo e só lhe restava o medo. Seus amigos eram pessoas descentes, filhos da classe média dos anos 80 que inundou a cidade com seus hábitos ridículos, homofóbicos, racistas. Mais uma vez, cotejou o russo com o italiano e partiu.
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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Sobre Ana, a alcoólatra, e o Sarcasmo, o Zé Mané

Achava estranho o dinheiro que desaparecia de suas vistas
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e era usado para algo que ela não fazia idéia do que fosse, muito embora confiasse na espiral do ralo eclesiástico. Dinheiro, de um modo geral, perturbava-a, de forma que nunca tinha um puto. Se tivesse, tratava logo de transubstanciá-lo em roupa, esmola, livro ou algo comestível, o que punha invariavelmente suas finanças em estado de alerta. Fome era algo recorrente. Uma taça de vinho caríssimo também. E quando a miséria se achegava, insinuante, costumava vestir-se a propósito e partir à cata de vernissages, lançamentos literários, noites de autógrafo, estréias de peças, enfim, essas ocasiões em que se bebe do melhor vinho ou champagne. Ficava de pileque sem gastar nada e, como se não bastasse, posava de intelectual antenada, o que era totalmente irrelevante. Suas pupilas não arredavam o pé da garrafa de prosseco, do chopp escuro. Conhecia todos os lugares onde ocorriam eventos do tipo, a cada dia da semana, e, quando a coisa apertava, lá estava ela, presente ao lançamento de “Direito tributário for dummies”. Humilhante. Mas desde que a cidade grande a ofendera em sua humanidade, voltara a embebedar-se, a confundir-se, a forjar argumentos vis, a despeito de todos os avisos ressonantes de Rodrigo – um amigo psiquiatra que a diagnosticara como alcoólatra nível “ninguém pode te ajudar, só você”. “O que é uma merda” – pensava Ana, já que, por mais corruptível e pernicioso que fosse o ambiente, por mais matreiro e filho da puta fosse o aprendiz do diabo, ela, só ela e mais ninguém além dela mesma (ela no âmbito do “eu”), detinha a culpa dos males causados a si. Agora, no entanto, vivia refestelada naquele maldito hiato existencial em que devia tomar uma decisão: ou pirava de vez ou parava de vez. Parou. Pela manhã antes da missa, aliás. Satisfeita por ter evadido o mundo dos bebuns, dos jacófilos, desistido de se tornar uma degustadora de vodka em São Petersburgo, satisfeita, inclusive, por ter ajudado a si mesma, a única responsável por todas as catástrofes de cunho pessoal, particular, intransferível, pedia a Deus que lhe cultivasse a determinação e, o que é mais importante, não a deixasse fraquejar diante do sarcasmo eventual. Sim, o sarcasmo – esse era o inimigo. No fundo, no fundo, apesar daquele papo todo de alcoólatra nível “só você”, de todas as humilhações precoces que sofrera por conta da bebida, Ana, irresponsavelmente, não se levava a sério e, por conseguinte, não levava nada daquele cenário horrendo a sério. Gostava de Bukowski - e achava engraçado o fato do Conde Liev Tolstói ter empreendido uma campanha anti-vodka na Rússia no século XIX, onde a bebida foi por muito tempo usada como moeda de troca. Substituíra o trauma por um riso idiota, cafajeste (no sentido masculino de o ser), pela gargalhada inconsequente – coisa de Vermebile, provavelmente. Por isso, suplicava aos céus que a livra-se daquela sem-vergonhice, daquele arroto frugal de mesa de bar que lhe atulhava a razão, daquele passo que, se dado, poderia condená-la ao vício. Queria o trauma, o sofrimento redentor de quem tudo perde, a dor inefável, a cicatriz aberta e infeccionada onde pousam moscas xexelentas. Queria arrepender-se, achar-se moribunda, putrefata, maldizer todas as atrocidades que os homens haviam cometido contra ela, todas as vezes em que estivera disponível para o pernoite, todo dinheiro que gastara em vão, todos os comportamentos pífios (a despeito de gabar-se por jamais ter serpenteado na rua como a Paola), todas as orelhas de livros de “gestão de risco” que lera a fim de bebericar, as incontáveis saideiras, todas as matinas em que voltara para casa, sonada, a caminho do quarto nicotinado, enfiada em roupas bolorentas, acompanhada de sabe-se lá quem, salivando o pó que vinha na esteira da perversão. Mas a verdade era que, após uma ou duas semanas de angústia profunda flambada a culpa non-sense, começava a rir. Diabólico. Fatofúsico. E o que é pior: aquele riso que se oculta de mão na boca, que se quer inevitavelmente domesticar, que sai a princípio como uma flatulência, uma trombonada, estoca ar nas bochechas e que, em seguida, vira uma torrente de soluços agudos e oligofrênicos. Precisava, por isso, a semelhança de Alex em Clockwork Orange, curar-se – não do alcoolismo, mas daquele desvio de caráter patético antes que fosse tarde demais. Todos sabiam: no fundo, Ana era uma boa moça.

Sobre Ana, a jacófila, e Guto, o "song à monga"

- Terminei. – Disse Guto tamponando a brochura enquanto Ana irrompia a porta indolente, relegando-a, na verdade, aos ácaros pulhas; como estavam, aliás, os guris na praça da Sé, o pote de margarina sobre a pia: ao sabor do acaso desordeiro. Uma pia de mármore, gagá, dessas que não se vê mais em parte alguma, a não ser que se engate marcha ré no tempo do espaço. Restituiu a banha ao lugar e sentou-se à mesa alva. Quase caiu. Depois, fez que ia. Não foi. Guto vira apenas um pacote trôpego, bulímico, de passo elefantino, mas já sabia que àquela altura só podia ser a tal, displicente, rechonchuda, despontando ao encalço das centelhas de neon cujas deixas espocavam pelas frestas da cidade. “Tem dobradinha” – murmurou borocochô – “Dentro do forno”. Sem hesitar, Ana deitou um par de raias de pó sobre a fórmica e, atenta à rinite sazonal que lhe cutucava as narinas, ao frio ocioso de meados de julho, deu dois tiros no alvo. Lift ::::::::::: lift! Aquele pó, ensopado em anilina, desidratado em forno de manicure, ensacado em qualquer coisa plástica, fora a melhor solução que encontrara para não ignorar tilts eventuais. Rosa bambolê. Passando ao largo do que se avizinha, um deleite sem igual invadiu suas papilas. Uma nesga de secreção escorreu pela narina esquerda rumo ao buço, mas ela conseguiu, ora inclinando a cabeça e, por seu lado, minorando a força gravitacional, ora retorcendo a mucosa nasal, remediar a patética situação. Os sinos da Igreja ribombaram, encenando um foda-se católico apostólico romano a todos que já sonhavam: 23 horas. Precisava dormir. Precisava, antes, “Caralho!” desbravar o quarto atrás da cartela do fármaco sem o qual não capotaria jamais. Como a missa estava marcada para às sete, o tempo que lhe restava para o descanso era parco, embora suficiente. Afora isso, havia terço, confissão, eucaristia, metrô e um galo pontiagudo que insistia em ciscar pelos arredores. Sim, participaria da liturgia. “A leitura, a homilia e a oferta” – sussurrou escorregando cadeira abaixo como quem parte rumo a uma antologia literária sideral.- Ana, terminei!!! – gritou Guto, dessa vez invadindo a cozinha à tamancadas – Putz, você chegou no final! – e sorriu à medida que dissecava o ambiente no rastro de suas pupilonas esculpidas a doses cavalares de prozac. Ele segurava um dos livros mais preciosos à Ana, Pais e Filhos, do Turgueniev, ou, como ela também gostava de dizer, "a história de Bazárov": um amante à moda antiga que havia sucumbido ao tifo e aos refugos da história. Era refém do segredo que com ele fenecera.

- Ah, que pena! - fingiu se importar, enquanto, corada, ainda espanava os restos de pó com um pano de prato.
- Pois é...
- E gostou? – indagou mecânica.
- Fantástico!... - disse ele, hipnotizado pelas palavras cruentas que acabara de ler. Ela deu de ombros.

Na verdade, haviam combinado uma espécie de leitura conjunta de algumas páginas do romance quando Ana lhe emprestara o livro. Munida de certa altivez, entretanto, não achava que ele seria capaz de compreender patavinas, já que nem São Dostoiévski, ao que parece, o fora, encaminhando o devaneio do suposto niilista com cópia oculta (cco) para Ivan. Por ora, ficara feliz por não ter de se submeter de forma tão gratuita à tamanha tortura cênica. Mesmo assim, sublevada que estava pelo anti-efeito viciado, deu sequência a um discurso dos mais maníacos, arregalado, enquanto Guto franzia o cenho e punha os olhos em banho-maria:

- Não vejo muita diferença entre Pedro, o Grande, que só queria abrir uma saída para o mar; os marxistas, que queriam banir a sociedade de classes; Bazárov, que dinamitou o bunker; uma prostituta, que troca o que tem pelo o que não tem; ou um alcoólatra, que canoniza com vodka-benta e limão o Santo Boteco da esquina. São todas, irremediavelmente, tentativas de sair, de ir embora, de partir e tudo deixar à sombra de um útero baldio, estéril, oco. O homem anseia pela mudança: sair de casa, sair da toca, sair na noite e perder a dignidade no pardieiro-emblema chamado cidade. Sair, conquistar, fincar raízes e sair novamente! Que seja! O próprio ato de nascer é uma saída! Partimos rumo à vida. Ou, parafraseando Rimbaud: partir é retomar o caminho! – e soltou uma estrepitosa gargalhada.
Era a deixa que Guto precisava.
- Brilhante sua colocação, Ana. Rimbaud disse isso é? Whatever, parto então. Pela enésima vez, imagino. Boa noite, querida.
- Calma aí!... É preciso esperar um bocadinho. Bebês não nascem de supetão... – Ana percebia, enfim, que não falava sozinha, mas que alguém a ouvia. No caso, Guto, aquele sujeito que alugava um quarto para ela e para o qual, vez por outra, ela emprestava um romance.
- O quê?
- A globalização, por exemplo.
- O quê??? – repetiu atônito.
- A globalização. Essa palavra empertigada metida a pós-moderna. Isso sempre existiu. Se hoje falamos com alguém que mora do outro lado do atlântico pelo MSN e se há 500 anos tínhamos que construir caravelas para fazer o mesmo, pouco importa. A intenção sempre foi a da conquista - não raro pestilenta, é verdade. Cheia de jugos e grilhões, mas legítima em seu “Avante!”. O mundo jamais foi outra coisa que não potencial ou realmente global. Não entendo por que razão no século XX isso virou notícia, virou invasão, virou probleme, virou anti-cultural, virou “slovo”. A aventura humana também passa pela terra,Itálico pela lama ou, permutando as letras, pela alma. Não sei qual é a diferença entre o Cacique Coral equatoriano e o MC Donald’s norte-americano. Ambos, a exemplo do “foda-se” ocidental, são franquias aptas a nos infligir facadas. A conquista é inerente à anima nesse tráfego constipado rumo à coisa. Diante da banalização do “nice to meet you”, talvez, precisaríamos, a exemplo do êxtase primitivo, buscar exits espirituais... Ou, quem sabe, trilhas menos, menos... – e, furiosa, socou a fórmica – desalmadas, lamacentas, egocêntricas, o que me soa, na verdade... uma obviedade sem tamanho. – De súbito, Ana refreou o ímpeto tagarela, agarrou um penacho de cabelo, levou o mindinho à boca e se pôs a fitar a janela. Esse delito pareceu a Guto outra chance de se eclipsar. A fim de não induzi-la a um terceiro round verborrágico, no entanto, preferiu se certificar do terreno onde pisava.

- Acabou? – perguntou nocauteado.
- O quê? – Ana assustou-se.
- Esse seu discurso estúpido. Acabou?
- Eu... eu não sei...
- Bom, pra mim chega. Tô indo.
- Sim, saia!.. Isso mesmo.
- Não. Essa coisa de sair só vai rolar amanhã, gata. Agora vou dormir. Boa noite. – e acrescentou – Passe no banheiro, hein! Acho que há um restinho de maquiagem na sua bochecha. Aqui, ó – e indicou a Ana o suposto lugar apontando em si próprio. Ela não ouviu. Guto dirigiu-se ao quarto e desencanou.

Ana ficou em silêncio, ainda atada por alguns pensamentos que, como rebentos de tartarugas-marinhas, precisavam vir à tona a fim de serem desovados na praia. Lembrou-se das pí-lu-las. Enfiou a mão na bolsa e, com a ajuda de um copo d’água, engoliu três comprimidos. Rezou cinquenta ave-marias – permeadas, cada dezena, por um Pai Nosso e um Glória a Deus. O terço. Meia hora depois, com o pulso linear, murmurou: "Terminei. Cheguei mesmo no final, Guto". À revelia do que quer que fosse, a moça dormia. Zzzzzzzzzzzzzzzzzz...


Pinturas: Gerhard Richter

domingo, 15 de novembro de 2009

Quando o Tolsta veio me visitar!!! (4) - O sagrado

O vento vai, vem, vai-e-vem, Nievá, perverte o ar, volteia, tartamudeia, pousa, bóra, cantarola, refaz-se uno, corre, apalpa o pomar, até pensar como um ser (não é Hermes), pois se é Deus, é (tri)vivo, é pulmonar - embriaga-se de caules, réstias de (fran)galhos, ao encalço do outono sem jamais lhe ter. Tonteia o sentido do "à", á margem, á luta, avante!, leiloa a língua benta,
ecoa
lufa,
arfa,
pulsa,
baba,
coroa,
aventa
rebenta areia fina na película cristal, mastiga, regurgita e, pontiagudo, entrelinha estupor e sal - calmo, contudo, acomoda-se à meia-luz, até que se avizinha a tarde e, afinal, na fímbria do horizonte, sangra ao pé do sol. Genuflexão: hora da missa. Santíssimo sacramento. A luz vermelha sinaliza: é Ele. Tolsta não se submete ao que não acredita, mas entra,encosta-se ao invés de se sentar, tensiona os músculos para entender, desentende, não relaxa, não se atreve, distende a razão e se perde. A enormidade da Catedral da Sé não lhe contagia os ânimos. A contigüidade do que ocorre pelo seu avesso, na praça, é que lhe espeta o cérebro. As gentes de todo o Brasil, atamancada, disputando palavreado, sentido, espaço pra dizer que está tudo de revés, que está tudo absolutamente movediço. O conde se amiúda e, pé-ante-pé, aproxima-se de um юродивый (Iorodivi), espécie que na Rússia parte em busca de Deus, só, produzindo instantâneos orais, santos, migalhas de arte, arrebanhando fiéis, parasitas, sendo, ao pé, um mendigo alienado, tonto, vidente. Aquele ali, entretanto, lhe parece falso, pois quando com ele quer dialogar, não é ouvido, a despeito de febrilmente respondido. O sujeito só tem olhos para si e sua Bíblia, a cujos significantes imputa qualquer significado, pautado em interesses que Tolsta não reconhece como os seus. O conde só vê sentido no desinteresse - e prenhe de amor.

- Precisaríamos de uma ambição embolada de ponta-cabeça – nada que nos fizesse retroceder, mas que nos obrigasse a ceder ao tédio de não querer tudo para si, em silêncio galhofeiro, mallllllllll, como quem agradece simples e naturalmente por estar vivo, por não ter caído hoje do precipício. Difícil isso. Lembro-me daquela moça que, ilhada, discutia comigo. Punha, à guisa da revista Veja, muito popular no Brasil, todos os adeptos de regimes ditos totalitários no mesmo saco (Che, Prestes, Fidel, Hitler e Stalin, tanto faz) – e depois suplicava por qualquer bem genuíno que se desdobrava no afamado "individualismo neoliberal", essa lei do pós-guerra que nos atola no supermarket punk. E - concatenei tentando seguir o raciocínio dela - o individualismo desses homens no saco, ora bolas? Por que hão de ser todos iguais? Pensar é difícil, pensar demora, pensar, não raro, é abdicar de qualquer opinião, é, no bilhar, não encaçapar nenhuma bola. É dom, é perda, é humilhação - desapego e comunhão. Dizem que a fé é dom de Deus. Dios. Dieu. God. Бог.

- A razão também – bombardeia o conde. O resto é reprodução. Arte, guria, é criação.

Lembrei de Nietzsche, que disse: “pensar é criar”. Enfim, outro péla-saco-mor pro panteão olimpiano do intelecto. Tolsta não me ouve mais. Tolsta não me ouve nunca, aliás. Conversa com Johannes, o sem-teto alemão – agora sim, um legítimo юродивый.

Encontro histórico: Os юродивый Tolsta e Johannes deixaram-se fotografar em plena Praça da Sé - marco zero de Sampa City. O calor de novembro não os impediu de vestir seus capotes, botas, bigodes e parangolés, o que corrobora minha tese de que ambos estão completamente alheios ao que se passa no mundo. Devem achar que estão na Rússia! Hahaha! Ou pior: em Iasnaia Poliana! Hahaha! Imagina!!! Loucos de pedra!... Detalhe: a foto foi envelhecida no photoshop - essa parte eu não pesquei.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Naquele dia, já era noite

Naquele dia, já era noite. Ela vinha tropeçando em cacos de pensamento: refugos de uma longa refrega. Bifurcou coisitudes que, ademais, não lhe serviriam de droga nenhuma. Algumas delas tomaram o rumo do texto ao lado, que emergia em paralelo, reclamando autoria distinta e escrito por um ghostwriter legítimo, desses que pululam aos montes em SP. Adentrou o apartamento com a sua cota de sandices, devidamente cotejada com o original em russo, sem nem suspeitar que já estivesse grávida há 20 dias, que um bisneto da Cândida nasceria dentro em pouco, que a toalha estava molhada sobre a cama – despencou do oitavo andar de suas idéias direto para o colchão. Sentiu estalar duas lágrimas uma noutra na escuridão da pálpebra fechada. Pálido cansaço de não ir a lugar nenhum, de desejar além do seu o querer alheio, “todos juntos e de mãos dadas, atadas”, o querer alheio pleno de dignidade e compostura: bondade. Pessoas perdem tudo que têm de “pessoa” por causa de míseros R$ 100. Que verdade limítrofe em torno da qual sofrer e chutar toda e qualquer esperança no que quer que seja o ser. Não há escolha. Hamlet, para ela, soou como um risível desvario nefelibata.

Tristes trópicos – agora em outra pegada. Como diz a Zazie: “Meu cú” – o que, apesar de lacônico, significa: meu cú é bem mais limpo do que essa imundície toda.

Continua aqui.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O dia parte – e já é tarde

Era manhã. E guardava pra ti, por entre os cômodos da casa, a pedalar de saias, como quem aguarda o passo que vem na contramão, mastigando as sandálias no piso, o dia. Fantasiei-me de sonsa para ver-te, amor. Contudo, o dia parte – e o que chega já é tarde. Tu não vieste? Eis que o tempo retalha e ri, maltratando a fatia que guardei toda faceira pra ti.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Eis a gula do pecado...

Eles têm um ao outro. E um ao outro me tem – disse Lilia Brik.

Bem que te disse, de molho alfafa ainda hoje, que tentei falar com algumas pessoas, mas há tanta gente que não há, de fato, ninguém. Lembro-me que, para festa, não convidaria os perfis com foto. Preferi os avatares – sejamos tão iguais que praticamente idênticos. “Preciso embalar a toca em que me estoco para recebê-lo”. Vou presentear-te com uma lingerie importada de 1930 do Fetiche Brabo – loja da bisa em Copa. Vou servir iguarias picotadas do corpo, tipo lóbulos de orelha, estrias. Não sei lidar com nada disso: estou porca, dei para cuspir no chão e mastigar-me até os ossos fêmures. Lamber os dedos, babar muco bucetal como quem verte gordura de cabra pelas moneras. Eis a gula do pecado. Coalhada feito leite. Não me responsabilizo por patavinas e nem pelo amor que cansei de sentir cortar-me os pulsos do beiço. Afiei-me na humilhação. Empobreci-me na ofensa. Sô de sôfrega, sonada, sozinha e sonsa. Santa de hálito regional entre as cáries que prenunciavam um “T” tão delicado que desfalecia sem dizê-lo. “Culpa dela. Da Tiaaaa...”. É preciso haver culpados, senão ele se recusa a rodar o filme – o diretor: “Ação!”. Mas não há. Ação ou culpa? Já nem sei. De resto, era displicente também: reaparecia sem deixar rastros.

sábado, 3 de outubro de 2009

Quando o Tolsta veio me visitar!!! (2)

(Tolsta indo passear no Ibira pela manhã. Péla.)

Quem é o Tolsta? Gaúcho, mujique, apóstolo de cristo, retirante nordestino, anarquista, tarado, sadhu indiano, tuareg, profeta, monge ou, como todos os russos, um louco? Hmmmmm... Ah, já ia me esquecendo: escritor também é uma opção dentre tantas.

hhhh
Moramos no 12º andar, eu e Tolsta, no centro da cidade. São “Inferno de Dante” Paulo. Ele odeia pavorosamente essa turbina de concreto-vândalo que apita sem ressalvas o dia inteiro e quer ir para o campo – ou para qualquer destino feudal onde possa caminhar algumas verstas sobre um extenso e bucólico gramado. Eu, impaciente com sua lista interminável de reclamações, aconselho-o a ir dar um passeio no Ibira, na Aclimação ou no Parque Villa Lobos e não me atazanar o saco com esse papo Ctrl-C Ctrl-V de Rousseau. Poupe-me, bom selvagem.
- Second Life, Tolsta... – repreendo-o.
Mas ele ignora. Não entendeu ainda como nós, humanos do século XXI, podemos ter algo tal qual uma vida virtual.
- Não podemos, não podemos. É pura fantasia. Contextualize, poxa. É como na Bíblia. Ou você acredita em Adão e Eva?
- Niet – ele solta.
Tolstói é algo descrente. Não acredita em nada que, de relance e num vasto prado, não possa fitar, tocar, curar, abastecer com seu viço aristocrático dissimulado e bronco. De retidão apaixonada, queria ser padre, mas me pergunta, sem pestanejar, onde é o lupanar. “Não sei... mesmo” – respondo encabulada. Ele desconversa, diz que só queria saber se há algo do tipo nas redondezas e, quando eu digo que a cidade inteira é um grande bordel, um “Gogol Bordello”, um “American Bar”, que muita gente nem cobra pelo pernoite, ele murmura entredentes: “Diabólico, diabólico. Preciso andar mais por aí”. E fico matutando o que seria dele se fosse ao Love Story vestido daquele jeito e com os sobrolhos a meio. (Des)penso o impensável.
- Para que serve a razão? – ele me indaga de soslaio.

“O universo nada delicado da libido”, persuade-me Tolsta, “é bulímico e anoréxico – é um veleiro sob tormenta, é catastrófico, truculento e trágico, uma foda-relâmpago que tudo parece iluminar e subverter com seu gorjeio para, em seguida, apagar-se”.
Não refreio meu ímpeto de mulherzinha, já violentada por essa corja de canalhas, no bojo de Lilia 4-ever, no âmago de Grace, enfeixada por Suely, e metralho:
- A cabeça de baixo venceu Tolsta. Seus apelos à castidade e ao uso da razão não adiantaram muito. É sob a égide do pau, do falo, do pênis, do cacete, do alfarrábio masculino, que vivemos. E o mundo é uma rede de cabeças acéfalas interligadas de forma cruel. E, claro, um retardado querendo ejacular mais do que o outro. Poucas pessoas fogem a essa regra desumana. É tudo porra. É tudo porra...
Tolsta, entretanto, acredita que eu tenha descrito um procedimento científico e, fulo da vida, retalha:
- Oh, eu odeio médicos. Não me venha com essa conversa mole, guria.
Não entendo que tipo de parentesco o Tolsta tem com os gaúchos. Vira e meche ele solta uma bá, um guria, adora um chimarron, diz que lembra o chá feito no samovar. Enfim, isso me intriga sobremaneira.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Quando o Tolsta veio me visitar!!!

Tolstói é algo desagregador de células. Pergunta-me se há qualquer coisa como morte virtual, portfólio vivo na internet, cemitério online e, em seguida, descobre o céu e o inferno do ciberespaço. É chato. Usa meu banheiro para uma ducha e grita: “Tu enfiaste a escova no reto, guria? Porque se for desse jeito não a uso para limpar as costas”. Cavalo. Kholstomer. Finjo que não ouço, indagando-me se antes de chegar aqui ele pernoitou com algum gaúcho. Esses escritores do século XIX acham que, ao invés de progredir, a humanidade iniciou um longo réquiem rumo à latrina, à contraparte sanitária de tudo que seríamos se não fossemos o que acreditamos ser. Seja como for. Tanto faz. No fim das contas, estamos, sobretudo e aprazivelmente, mais translúcidos e bem comportados, sendo que palavrinhas como cú, nessa geração, são pronunciadas aos quatro ventos e guardadas a sete chaves. Ou seja: assepsia suína.
Passo ao largo de mim mesma. Sublime no parque e a pique, confundo um pássaro com uma ratazana. Sossego: a coisa voa e baila e cantarola. Lindo. O pouco que tinha nas mangas se foi: precisei gastar alguns copeques com um tênis para ele. Mas valeu à pena. Hilário. O Tolsta de all-star fica absolutamente ridículo, e, o que é mais ridículo, preciso me conter para não rir nas fuças dele – ou ele me enfia de novo na máquina do tempo que acredita existir, pois, a contragosto, já andou vendo alguns filmes norte-americanos –, sendo esta tal contenção de despesas, água e risos o que há de verdadeiramente cômico na infame história.

Eis o tênis que comprei pro Tolsta. Ele achou cool, mas se disse adepto da resistência pacífica (!). Eu não entendi.

São Paulo é um desgoverno – e isso ele sente tão logo põe os pés na rua. Quer uma bicicleta – adorou. Na Paulista, segue a via tátil, por mais que eu lhe diga que aquilo é um caminho para cegos. Quando volto, atarantada, todos os mendigos da rua estão lá em casa – para ele são mujiques, imagine – mujiques russos que, como ele mesmo acha que é, despencaram por aqui. E palestra, palestra, palestra: sem fim, endless lecture, ad infinitum. Adora falar. Vous parlez français? – ele pergunta a quase todos. Comme Il faut. Um saco o Tolstói. Mala sem alça. Saudades da Anna e de suas correspondências miúdas. Essa sim foi uma visita, eu diria, troglodita: não saíamos da caverna nem para comer e, dá-lhe Vronski , pude tocar nas feridas adquiridas por ela no embate com o vagão do trem, pobrezinha. Foi quase como tocar nas chagas de Jesus Cristo. Inoportuno era manter seu vício em morfina. Acabou na cracolândia. Desde então, não sei que raios de rumo tomou na (sobre)vida.
À noite, já deitado, Tolstoi insiste em dizer que é o Levin. “Não, de novo não!” – penso. E que o personagem era um alter-ego dele. Dãããã. Eu, claro, não acredito.
“Como assim, Tolsta? Antes ou depois de Freud? Não me engane, hein.”
“Eu não acredito em inconsciente, guria” – ele manda.
“Nem eu” – emendo.

Nisso concordamos.

Já botei a vassoura atrás da porta. Mas o Tolsta não quer ir embora e já fez amizade com os "nóia" da rua. Ele não consegue entender que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Aff!...

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Carta ao ET



Querido ET,

Como vai aí arriba (ou aí abajo, dependendo do point of view)? Por aqui você já sabe, né? Tá tudo uma merda. Só o desamor constrói – montoeiras de lixo, rios de espuma branca, miséria raquítica, invisible people, cultura vagaba, cinismo sensual, e por aí vai a perder de vista ad infinitum muito além de qualquer horizonte cinzento – como a CNN intergaláctica já deve ter divulgado. No entanto, há uma série de aforismos que, pairando sobre a tigela, conformam a massa, né, fofo? Coisas do tipo “O passado será sempre melhor”, “The show must go on” ou “Deus ajuda a quem cedo madruga”. E os humilhados e ofendidos? Vixe, Nossa Senhora, estes terão o reino dos céus. Terão sim, mas, antes, acho que esse show já anda mal das pernas e precisa dar uma paradinha. E a arte? No que se transformou a auto-proclamada (por uma horda de piadistas burgueses) e divinizada arte? Bloquinhos de gelo derretendo em Paris? Ah, faça-me o favor. Intervenções cômicas ao lado do banco anti-mendigos – eu diria. Certos surtos freudianos de introspecção alienada deveriam, por ora, ser categoricamente proibidos (Ah, inconsciente tem limite!) – mas aí é fazer como fez Stalin, né, o que já provou ser ineficaz. Então não chama de arte, poxa! Aqui reclamar não é nada cool, ET. Soa ultrapassado, antiquado, retrógado. Sinto falta daquele clima vermelhão de marte. Vermelho-sangue: adoro! Os terráqueos não cultivam muito respeito pelo verde ou pelo azul, por exemplo, e não me admira que você não queira mais pisar por aqui . Sabe ET, acho que a humanidade nem vive mais um retrocesso, vive um retrocídio, movendo-se para trás sem nem dar uma olhadinha pelo espelho retrovisor. E, ao que tudo indica nesse chamado retrocídio, já estamos na Idade Média, exatamente no filme do Bergman, já que tudo no sétimo selo é, de fato, sétima arte. No mais, sinto que a essência humana, essa que nunca se soube direito o que era, mas acerca da qual, com efeito, havia indícios palpáveis, volatilizou-se de vez. De concreto, só o marketing. E a vida, veja você, reside na idéia (ou no pseudo-pilar) de que é preciso “vender-se” para ser. É vendendo, portanto, que podemos comprar. Comprar o que? Nossa liberdade... de consumo (Uebaaaaaaaaa! Adorno rules!). Só – já que, infelizmente, só essa liberdade fake nos cabe. Tenha você acumulada a fortuna que tiver, tanto mais enganado é pela roda que o escraviza. Liberdade (o que você acha, ET?), na verdade, é desvencilhar-se disso tudo (não sou nada original, Platão disse algo semelhante). Camadas de marketing puro, à exceção dos enfants, há muito, ocultam la vérité – liberté, egalité, fraternité. Ideais sobrevivem apenas como pruridos no mamiloUUUUUUU – é o que parece. Depois passa.

Vou ficando por aqui, ET. Já escrevi muita besteira. Se escrever mais a Gannibal não me deixa postar no blog dela, sabe? Vai dizer que eu ando lendo muito... Hmmmmmmmmm.

Espero que não demore uma eternidade para pintar por aqui. Estamos sentindo sua falta. Suas aparições são tão divertidas!!! Muito melhor que arte pós-moderna! Apareça, viu!

Lembranças do Planeta Terra!
Inté
@nostálgica.

sábado, 19 de setembro de 2009

Barata e nada

"O dia é meu, o céu azul: poderia abraçá-los se quisesse. Á noite espezinho a tarde e mergulho sob os estrados da tapeçaria de lençóis, quando, em face de um cálido alvorecer, venho à tona arrolada a remelas e a estilhaços de medula.
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Ela era intensa, não cabia em si. Mundos arrolavam de sua pele, de seus cabelos. Era molhada.

... para depois procurar. Só que antes, muito antes - tão antes que já passou - eu tinha que fazer uma série de outras coisas, de mentirinhas, de entre-safras, de porra nenhuma, para só nesse ponto especifico, em algum momento indeciso, rijo e condensado, poder me safar de fininho, poder pular o muro, poder partir. Partir para procurar, procurar alguma minúcia, alguma reminiscência que - ufa! - eu acabei deixando de lado por falta de saudades.

Está feito: na verdade, eu ia principiar me embrenhando pelas caneluras da preguiça, pelo peitoril do que já passou, dispondo-me pé ante pé no cimento fresco, até resgatar do chão o montículo de flocos, até arrumar esse microlar que eu deixei às avessas, estando assim, nessa mesma posição - sentada, descadeirada, acomodada - como se varresse o entulho com os olhos. Depois, juntaria a bagunça num cantinho remoto, numa quina, empilhada, ereta, a fim de que nada me anuviasse a vista, e de que todos esses ciscos de meio-fio continuassem sendo próprios a isso, ao mínimo e inadvertido sinal da tormenta. Não há dúvidas: empenho-me nesse troço estática, sem ação, sem mãos ou pernas, sonolenta, quase sonhando, deitada, quase desmaiada, inerte, quase morta: a um passo de, na iminência de - apática. Meus calcanhares não respondem mais às ordens imperativas da minha mente. Mas é como se tudo não passasse de um mero desejo exclamativo sonado, dissimulando-se pelas intrincadas redes do não-fazer-nada-sem-movimento. ----------- Se tivesse sentido saudades, saudades constituída de suspiros, saudades do durante experimental, saudades das impressões perfeitas, saudades daquelas tigresas de tocaia na mata, saudades da obscuridade das coisas, saudades das incertezas fabulosas, ou se tivesse sofrido de dispnéia e saudades, se tivesse sido acometida pela insônia, pelo sonambulismo e pelas saudades - que sei lá que sufoquei -, se tivesse dilacerado meu corpo, minha alma e meu espírito de saudades - vomitado, urrado, me debatido, reivindicado - não precisava parar. Parar - para depois partir.

Ficar paralisada, indefinidamente, esperando - o quê? - toda bagagem de trecos escorregar por detrás de mim, todo o sangue, todo o tumulto de lixo se espraiar pelos móveis da casa, ansiando por aquele documento vazio - o ultimato da vida -, para daí emergir da letargia, afoita, como uma âncora lançada ao mar e logo em seguida içada. Parada, quase que meio alucinada, recurva, dedilhando notas sem som sobre o teclado, solfejando estribilhos de letras mudas, imundas, açoitando um mundo estranho e comprovadamente impossível. Eu, eu, eu - tomando fôlego pra continuar -, por que não tenho, ao que parece, saudade daquela infantaria de desejos que irrompiam de meus poros, feito calafrios inumanos, feito frutas de doces no pé, feito lulas e tentáculos, chocando-se ao perecível, ousando-se aos contra-sensos, importunando meia orbita e meio mundo de otários sem governo e direção. Eu, eu, eu, sempre eu, quando é difícil respirar para abortar o ontem - e que se foda o antes, e que se danem os documentos e registros extraviados, e que se enterrem os mortos -, para desencorajar o medo de afogar tudo isso em mim, para viver na base sôfrega, porém saborosa, da saudade."

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Homens ao pé do sol

Hoje são todos barbudos – os homens. Sim, esses meninos que se aninham acuados feito filhotes, sob capotes. Tenho cá comigo que o homem de verdade talvez seja imberbe. Uma quase mulher. Mas só desbigode ralo do ser nu. Homem que viole o íntimo da história e desmereça o vendaval que nele assanhe os pelos. Sem pelos. Abaixo da derme imaculada – e epi-livre. Livre de ser o ter, por ora, no lume da história vil do macho, essa que tantos já fizeram doer - ele mesmo: refém perpétuo do sexo-escarro. Eis, por sinal, a virilidade do amor. Algo como o avesso ao pau – mesmo sendo dele, você, um devoto senil. O bom senso, virtude irrefutável, lhe proporcionará, assim, escolhas à revelia do quedar sob a égide ingrata do falo. E o mundo, embasbacado, será desse czar estéril, comum, galhardo, absorto em sua razão soberana. Um macho-rei, portanto: alheio à herança maldita que há tanto o guia, consciente de sê-lo na extensa plenitude do nós. Sem amarras. Sem rancor. Ser-eno. Celebremos a plenitude silente do nós. A liberdade do gozo, prolífico, relegado a todas as instâncias do outro, enfim e por fim, logrará. E seremos no ato, homens e mulheres, cambada humana arredia insana, ao bel prazer do imaculado, encontro. Encontro este puro e perfeito – no acaso do mais recôndito amor. O homem de verdade – na aurora do amor, vencerá.
Boreal.
Orgia ao pé-do-sol.

domingo, 6 de setembro de 2009

....................................Esquece.

No inferno, trabalho como jornalista. No céu, ainda não tenho uma atividade certa. E saio pela cidade de vez em quando, dobrando-me às esquinas, até que com todas elas enfeixadas às minhas ancas, espiraladas ao meu tornozelo, possa, enfim, tropeçar e estabacar-me (!) - ou, melhor, erguer a blusa voluntariosa e louca como quem levanta uma bandeira e mostra a todos o resultado de tamanha efervescência: a inscrição que trago tatuada abaixo dos meus seios, rígidos e nodulados, cancerosos talvez, no volteio sob a cloaca: não estou disponível para o pernoite. É vero. Depoisssssssss, tento relaxar e, quando percebo, rodopio lívida qual um carretel do qual se puxa a linha, sabe? Neste caso, entretanto, linhas são como ruas, avenidas, retas, mares que, galgando pelo cabo das esquinas, pelas ondas, pelo anzol que vara os séculos, arrolei ao meu corpo flagelado e nu. Muito embora, como mencionei outrora, não vai rolar. Na verdade, não agora, que me sinto fula da vida. Que não me sinto. Que... sinto muito. Sinto tanto que chega a doer.

No fim, é preciso comprar-se. Como foi, como era e como sempre vai ser. É preciso comprar-se. É?... É preciso comprar-se - e não vender-se - todo mês.

domingo, 30 de agosto de 2009

No parachutes, no shelter...

Sinto-me no topo de uma Beleza etérea – a qual, entretanto, não me foi dado o direito de ver ou circunscrever.
Apenas sinto.
Cintila, portanto, pelo ar que dentro de mim circula, uma beleza consciente de sê-la.
Beleza, avesso da aparência, construída de percalços, viva.
Esteio e leito por onde navegam lembranças de decênios e milissegundos, conforme a velocidade de cada ato, voluntário ou compulsório, silente ou ruidoso, desmemoriado no presente e perpétuo de sabores que decolam parachutes a perder de vista.
É tão humano quanto a essência do ser – e carrega, em suas vitrines, um quê de fálico, mas não ultraja, só reproduz, tal qual emas na savana africana.
Paro. Apresento-lhe meu sexo, Beleza etérea.
E suplico-lhe por um cafuné, shiatsu a meia-luz, beliscão.
É por ti que, esperançosa, já que me alças ao topo do mundo, e me vejo aqui a tocar as sílabas do céu, que continuo a galopar.
Dou voltas ao mundo em 80 passos.
É por ti que me entrelaço aos homens, ignorantes de sua bondade, de seu poder, desse jardim que pare com tamanha anuência.
É por ti, Beleza etérea, Amor recôndito, dimensão aos homens oculta, que pedalo.
Eis a minha bike: sangue matador.

As atitudes equivocadas acima listadas ensejam, via puro acaso, um encontro: Francis "louco-cara-de-bulldog" Bacon e William "junkie-beat" Burroughs. Fico pensando (em russo) cá avec moi même qual era exactly o tema em pauta. Alguém arrisca?

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Brincando de Deus

Na passagem do virtual para o real, da fantasia para o concreto, que, sabemos, jamais se realiza, uma vez que o partilhar do ente, inda mais do ser, se desloca no esteio do tempo perpétuo, algo de lírico se perde. Pessoas imaginárias são degoladas pelo lapso que, tentador, fertiliza a idéia, tornando-a monumental, falsamente realizável, megalomaníaca, à imagem de seu criador: qualquer vacilo como Pedro. Pedro não é Deus. Enquanto milhares de servos e escravos erigem um sítio misto de Amsterdã e Roma, um eldorado, outros tantos definham sob suas anáguas. A imaginação de Pedro mata, desmantela, aniquila, suporta à revelia da razão um universo de faz-de-conta. Não se desdobra em nada de fato, e, quando a realidade dá as caras, não há muito a fazer a não ser encará-la, distorcê-la – acomodar-se como placas tectônicas em seus ornamentos fictícios, em seus contornos defeituosos, em suas axilas mal-cheirosas, em suas fibras bolorentas, em seus pilares bambos. O que “é”, assim, vasculha e espezinha o que "seria", sem deixar rastro. "E é difícil fitá-lo. Não era nada do que imaginava". É caótico, e até medonho, rasgar a existência onírica daquele que com tanto carinho aninhamos entre têmporas. Enterre-o. Você não é Deus. Há um quê de masoquista, incompreensível e inevitável nessa coisa demasiado humana de brincar de Deus.

domingo, 23 de agosto de 2009

Pro domingão paulistano - cante Lobão (e invente outras memórias...)

"Chove lá fora
E aqui tá tanto frio
Me dá vontade de saber...
Aonde está você?

Me telefona
Me Chama! Me Chama!
Me Chama!...
Nem sempre se vê

Lágrima no escuro
Lágrima no escuro
Lágrima!...
Tá tudo cinza sem você

Tá tão vazio
E a noite fica
Sem porque...
Aonde está você?

Me telefona
Me Chama! Me Chama!
Me Chama..."

Fui lá ontem. Quando entrei, elas me receberam como se eu fosse alguém muito especial – e de fato era, já que todos somos, ora pois. Incrível perceber-se alguém muito especial nessa cidade torta. Diziam-se revolucionárias – e eram. Passei o dia inteirinho por lá, na ânsia de ouvir jazz, entre livros, metafísica e arrepios, do tipo: “Uma palavra vale mais do que mil imagens”. De fato, com imagens não podemos pensar no que quer que seja, só imaginar. O que é ótimo; embora em dias como esses, de descalabro nu, seja preciso pensar, refletir, raciocinar e agir. De resto, também deglutia, alheia a engasgos, aquele bando de histórias que me aturdiam embaladas feito vagões de locomotiva e adentravam afoitas, em looping, em minha boca caudalosa, salivante, esgueirando-se pelo esôfago e assentando-se no estômago, no bojo de pavores e bolores gástricos eslavos. O almoço ainda me escapulia em pílulas de arroto: bafos. No prumo da assepsia – algo terrível. Algo que eu, naturalmente e sem perceber, disfarçava. Sentia-me no meu lugar – e acabei encontrando uma edição portuguesa de um raríssimo exemplar do Turgueniev. Amo. Pensei em tantas pessoas que amo, aliás – e o quão longe e próximas elas podem estar de mim a um só tempo e espaço. Abismos que se desfazem em um piscar de olhos quando – e especialmente – este estilete que trazemos a reboque e a contragosto cessa repentinamente de circunscrever sulcos ao nosso redor ou de machucar aqueles que não somos. Contudo, já de volta a casa, o cio de meados do mês provocou-me sonhos eróticos, verdadeiros pesadelos, concedendo-me, de presente, um encontro com o avesso do menino. Merda. Não entendi quando ela disse que deveria tolerar. E me deixar mutilar? Não. Algo pertubador – e, por ora, já nem quero expor meus copiosos tropeços ou falar sobre nada disso. Prefiro continuar por lá, semeando conceitos, ao encalço de um homem formidável que, dentre outras coisas, perguntou-me se estava tranqüila enquanto palestrava pela enésima vez a respeito da história de minha terceira vida – não a última, espero, mas a mais deslumbrante e orgíaca, consciente de seus prazeres infames e de sua beleza divina. Pedi para sair depois que me ofereceram companhia e um jantar perfumado. Alguém ia tocar piano. Havia, em uma esquina pouco visível, uma balalaica também. Alice e Carrol. Pena... meu tempo de paraíso havia se esgotado.

Holofotes tonitruantes espocam na sílaba. Bá. Algo mesmo como um “bá” gaúcho. Sorry – Des-leia.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Um gosto particular pelo nada

Depois que extraíram meu cérebro, puseram-no em uma pequena bancada de vidro ao lado da porta. Vi Mariah aspergindo-lhe pimenta e suco de tangerina (ou manga, difícil saber sem ter ao menos provado), o que deveria conceder-lhe um arzinho de fresco, saído do forno. E era. Não tinha morrido ainda ou – no mais – não havia morrido em vão. Sentei-me no chão e comecei a imitar um frango. Muito fácil: bastava levantar as alças dos braços e sacudi-las ao léu, em zigue-zague, deixando aparecer as entrelinhas das axilas. Mariah ria. Aquilo deveria ser mesmo risível. Enquanto meu cérebro flambava, disseram-me, comecei a dizer sandices, as quais não posso me lembrar, naturalmente, pois no lugar do cérebro pendia-me uma cabeça oca, algodoada, de onde vertia sangue o bastante para pintar um quadro. Do coração, entretanto, tenho recordações: disparava-me, pois lá pelas dez, à noitinha, senti dores no peito. Era o triunfo oxigenado de não ser.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Apocalíptica adverte: o fim do mundo é só uma questão de lógica e twitter



Apocalíptica diz:
Se:
tudo que existe começa e termina nas relações humanas.
e se:
a integridade das mesmas está cada vez mais ameaçada pela internet.
e se:
transformadas substancialmente*** as relações humanas deixam de existir.
Logo:
o twitter, na verdade, é o fim do mundo.

Nostálgica se manifesta:
Jesus, Apocalíptica! Você tá completamente por fora, menina! Nunca leu Lukács? Nada disso: o mundo acabou faz tempo!... Acabou quando o homem deixou de ser homem para virar mercadoria. Hum? Sociedade capitalista, São Paulo, Avenida Paulista, Manhattan, Champs-Élysées, cultura das saídas. Não há mais relações humanas desde entonces. Há relações entre coisas. Marx - nosssa! - já havia cantado essa pedra da desumanização, sua zéfa. Lá na cracolândia neguinho dá até uma cafungada nela...

Apocalíptica (perplexa):
Oh my God!... Vou comprar amoras!...

(Eu, muito humilde e insignificantemente, continuo acreditando que enquanto houver amor(as), há esperança........................)

***?

quinta-feira, 30 de julho de 2009

O desamor é cego (ou quando virei verme...)

"What kind of love would a blind man choose?"

Parece coisa de nada, mas não é fácil quando a lente de contato se perde no globo ocular. A sensação é a de que os olhos, eles mesmos, fossem navegar pela superfície da córnea e ancorassem em algum universo baldio, à deriva, de onde só um cirurgião oftálmico, em uma cirurgia de alto risco, poderia extraí-los – embora não sem cegar o paciente. A paranóia é foda na primeira vez. E foi naquele momento, o do esfregão debutante, que o safado me apresentou a sua amante, a amiguinha dos dias de folga, a tal da Mirela, ou Milena, ou “devagar” em russo – a saber, Medllena –, em um dos mais caóticos e malfadados episódios da minha vida - já notadamente absurda, cabe reforçar, em razão do simples leitmotiv que a acerca: viver. O mundo ruiu. Tive vontade de parti-lo em dois, na verdade, quebrá-lo em mil, ficar com a maior metade e deixar para aquele casal de funâmbulos a parte dos líderes carniceiros, da indústria cinematográfica norte-americana, das novelas mexicanas e da música pop, infortúnios dos quais eu nem iria me lembrar. Eu ficaria com o Gaudi, claro, os escritores russos, o Che e o querido jovem frade em um mosteiro em Bordeaux estudando metafísica. De resto, ia fazer como a Andrea: passar as férias em Itacaré na Bahia. Mas não. Não. Muxoxo de “não”. Como já disse o referido jovem frade, “a realidade é o que existe”, minha cara. E, sendo “a realidade o que existe” e não o que a gente inventa para suportá-la, como mal informou o desinformado Proust em alguma das sei-lá-quantas páginas de La Recherche, na tradução do Fernando Py que é a melhor (ah... foi mal, Bandeira!...) – bom, retomando o fio e a meada, como ele bem frisou, mega inspirado que estava, naquele dia de sol a pino, a realidade é o que existe quer você queira quer você não queira ao despetalar a flor do mero acaso. E, para minha completa infelicidade, na realidade em que me enfurnei, pé no âmago da jaca, não havia cavalo ou cavaleiro nenhum para me resgatar – devorando-me, imaginava, logo em seguida, em meio ao capinzal enquanto os carrapatos me transmitiriam uma doença venérea qualquer e eu (hahaha) nem aí. Não havia nada além da cruel realidade. Foi desse modo, aliás, que descobri algo que viria a ser de suma importância (sério!) quando comecei a freqüentar um centro espírita: sim, eu não era esquizofrênica como meus irmãos. Porque se fosse, prestenção, uma paisagem um tanto mais psicobela teria se descortinado perante myself, e não aquela cena oca que, desventurada, porcamente testemunhei: a Medllena, bêbada, aos tropeços, vestindo uma calça da Gang – como diz o Ricardone -, cachorrona, silicone ao relento, e aquele homem para o qual tantos bordados e tricotados fiz, para o qual tantos varais de roupa estendi e camisas sociais alinhei a ferro, também embriagado, na cama, expulsando-me às gargalhadas da casa em que morei, sobretudo ébria, por tantos desenganos e carnavais sem conta. Bem pior e desastroso seria, com efeito, se não fosse o poder de minhas fervorosas orações - que por tantos anos copiosamente rezei sem fraquejar e saber nem para quê ou por quê. Pois foi Deus, tenho certeza, foi Deus que me privou da vista naquele instante, deslocando o par de lentes de meu par de olhos, e só fazendo que aqueles dois ciscos retornassem a seus devidos lugares quando evadi do pardieiro qual um verme. Meu coração, sem dúvida, não agüentaria tamanho desgosto e desafeto – enregelar-se-ia para todo sempre no bojo da estupefação de meu mais caro sentido: a visão. Desde então, não me apoquenta a auto-piedade, não me apunhala a tristeza ou o ciúme e, dos homens, eu só quero o amor. Sim, o amor, pois o desamor, egoísta, nada vê – ou só vê o que bem quer.

PS: Na separação de bens, deixei para ele a música pop. Fiquei com o sobrenome, claro, muito mais útil.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Os hormônios e o século XXI

Apesar de ser um péssimo poeta, Cazuza tinha razão quando dizia que, a despeito da rima, burguesia e poesia não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Em pleno século XXI a sociedade continua dividida em castas, sendo a pior delas, como diz Lukács, a pequena-burguesia, em relação a qual qualquer forma de arte mais elevada é totalmente incompatível. “Enquanto houver burguesia não vai haver poesia”. Em pleno século XXI as pessoas se recusam a se levantar de seus troninhos – onde defecam, dormem, constroem cercas e o diabo – and life goes on. Jean Cocteau profetizou: "a vida é uma queda horizontal" - não por que vamos morrer algum dia, mas por que conseguimos seguir nossas vidinhazinhas em meio ao genocídio alheio, que nos avizinha, sem estar nem aí. Em pleno século XXI vivemos uma peste atrás da outra, sendo a moléstia da vez a tal da porcina, contra a qual não há – não adianta, hermanos – não há prevenção. Em pleno século XXI a sociedade, além de patriarcal, hostil e machista até o útero, continua dividida, na prática, entre aqueles que acreditam em Deus e aqueles que não, sendo que estes não fazem a mínima idéia do que seja esse Tal ente, e aqueles que acreditam, em sua maioria, também não. Em pleno século XXI, os povos primitivos já mostraram ter mais domínio sobre qualquer tecnologia do que o homem civilizado, mesmo assim as últimas aldeias indígenas do Brasil se esvaem como água pelo ralo. Em pleno século XXI vivemos, sim, a barbárie. Em pleno século XXI, não há século XXI – e a mulher, mais particularmente “eu”, sofre de TPM e se põe a reclamar sensibilizada, visto que não há, veja você, te enganaram, século XXI algum. Tudo invenção, estamos na Idade Média. Em pleno século XXI eu abro a janela do apartamento em que moro em São Paulo (essa cidade, esteticamente falando, horrenda) e o que eu vejo é aquela afamada cena de “O sétimo selo” do Bergman: uma montanha e silhuetas próximas ao crepúsculo, em fila, seguindo um líder sem saber para onde ou para quê, à deriva e desnorteadas. Como diz meu sobrinho de quatro anos: “ai, ai, ai...” Um anjinho.