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segunda-feira, 9 de maio de 2011
O tesão a priori é o nosso ato falho
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sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Sobre Ana, a alcoólatra, e o Sarcasmo, o Zé Mané
Sobre Ana, a jacófila, e Guto, o "song à monga"
- Terminei. – Disse Guto tamponando a brochura enquanto Ana irrompia a porta indolente, relegando-a, na verdade, aos ácaros pulhas; como estavam, aliás, os guris na praça da Sé, o pote de margarina sobre a pia: ao sabor do acaso desordeiro. Uma pia de mármore, gagá, dessas que não se vê mais em parte alguma, a não ser que se engate marcha ré no tempo do espaço. Restituiu a banha ao lugar e sentou-se à mesa alva. Quase caiu. Depois, fez que ia. Não foi. Guto vira apenas um pacote trôpego, bulímico, de passo elefantino, mas já sabia que àquela altura só podia ser a tal, displicente, rechonchuda, despontando ao encalço das centelhas de neon cujas deixas espocavam pelas frestas da cidade. “Tem dobradinha” – murmurou borocochô – “Dentro do forno”. Sem hesitar, Ana deitou um par de raias de pó sobre a fórmica e, atenta à rinite sazonal que lhe cutucava as narinas, ao frio ocioso de meados de julho, deu dois tiros no alvo. Lift ::::::::::: lift! Aquele pó, ensopado em anilina, desidratado em forno de manicure, ensacado em qualquer coisa plástica, fora a melhor solução que encontrara para não ignorar tilts eventuais. Rosa bambolê. Passando ao largo do que se avizinha, um deleite sem igual invadiu suas papilas. Uma nesga de secreção escorreu pela narina esquerda rumo ao buço, mas ela conseguiu, ora inclinando a cabeça e, por seu lado, minorando a força gravitacional, ora retorcendo a mucosa nasal, remediar a patética situação. Os sinos da Igreja ribombaram, encenando um foda-se católico apostólico romano a todos que já sonhavam: 23 horas. Precisava dormir. Precisava, antes, “Caralho!” desbravar o quarto atrás da cartela do fármaco sem o qual não capotaria jamais. Como a missa estava marcada para às sete, o tempo que lhe restava para o descanso era parco, embora suficiente. Afora isso, havia terço, confissão, eucaristia, metrô e um galo pontiagudo que insistia em ciscar pelos arredores. Sim, participaria da liturgia. “A leitura, a homilia e a oferta” – sussurrou escorregando cadeira abaixo como quem parte rumo a uma antologia literária sideral.
- Ana, terminei!!! – gritou Guto, dessa vez invadindo a cozinha à tamancadas – Putz, você chegou no final! – e sorriu à medida que dissecava o ambiente no rastro de suas pupilonas esculpidas a doses cavalares de prozac. Ele segurava um dos livros mais preciosos à Ana, Pais e Filhos, do Turgueniev, ou, como ela também gostava de dizer, "a história de Bazárov": um amante à moda antiga que havia sucumbido ao tifo e aos refugos da história. Era refém do segredo que com ele fenecera.- Ah, que pena! - fingiu se importar, enquanto, corada, ainda espanava os restos de pó com um pano de prato.
- Pois é...
- E gostou? – indagou mecânica.
- Fantástico!... - disse ele, hipnotizado pelas palavras cruentas que acabara de ler. Ela deu de ombros.
Na verdade, haviam combinado uma espécie de leitura conjunta de algumas páginas do romance quando Ana lhe emprestara o livro. Munida de certa altivez, entretanto, não achava que ele seria capaz de compreender patavinas, já que nem São Dostoiévski, ao que parece, o fora, encaminhando o devaneio do suposto niilista com cópia oculta (cco) para Ivan. Por ora, ficara feliz por não ter de se submeter de forma tão gratuita à tamanha tortura cênica. Mesmo assim, sublevada que estava pelo anti-efeito viciado, deu sequência a um discurso dos mais maníacos, arregalado, enquanto Guto franzia o cenho e punha os olhos em banho-maria:
- Não vejo muita diferença entre Pedro, o Grande, que só queria abrir uma saída para o mar; os marxistas, que queriam banir a sociedade de classes; Bazárov, que dinamitou o bunker; uma prostituta, que troca o que tem pelo o que não tem; ou um alcoólatra, que canoniza com vodka-benta e limão o Santo Boteco da esquina. São todas, irremediavelmente, tentativas de sair, de ir embora, de partir e tudo deixar à sombra de um útero baldio, estéril, oco. O homem anseia pela mudança: sair de casa, sair da toca, sair na noite e perder a dignidade no pardieiro-emblema chamado cidade. Sair, conquistar, fincar raízes e sair novamente! Que seja! O próprio ato de nascer é uma saída! Partimos rumo à vida. Ou, parafraseando Rimbaud: partir é retomar o caminho! – e soltou uma estrepitosa gargalhada.
Era a deixa que Guto precisava.
- Brilhante sua colocação, Ana. Rimbaud disse isso é? Whatever, parto então. Pela enésima vez, imagino. Boa noite, querida.
- Calma aí!... É preciso esperar um bocadinho. Bebês não nascem de supetão... – Ana percebia, enfim, que não falava sozinha, mas que alguém a ouvia. No caso, Guto, aquele sujeito que alugava um quarto para ela e para o qual, vez por outra, ela emprestava um romance.
- O quê?
- A globalização, por exemplo.
- O quê??? – repetiu atônito.
- A globalização. Essa palavra empertigada metida a pós-moderna. Isso sempre existiu. Se hoje falamos com alguém que mora do outro lado do atlântico pelo MSN e se há 500 anos tínhamos que construir caravelas para fazer o mesmo, pouco importa. A intenção sempre foi a da conquista - não raro pestilenta, é verdade. Cheia de jugos e grilhões, mas legítima em seu “Avante!”. O mundo jamais foi outra coisa que não potencial ou realmente global. Não entendo por que razão no século XX isso virou notícia, virou invasão, virou probleme, virou anti-cultural, virou “slovo”. A aventura humana também passa pela terra,
pela lama ou, permutando as letras, pela alma. Não sei qual é a diferença entre o Cacique Coral equatoriano e o MC Donald’s norte-americano. Ambos, a exemplo do “foda-se” ocidental, são franquias aptas a nos infligir facadas. A conquista é inerente à anima nesse tráfego constipado rumo à coisa. Diante da banalização do “nice to meet you”, talvez, precisaríamos, a exemplo do êxtase primitivo, buscar exits espirituais... Ou, quem sabe, trilhas menos, menos... – e, furiosa, socou a fórmica – desalmadas, lamacentas, egocêntricas, o que me soa, na verdade... uma obviedade sem tamanho. – De súbito, Ana refreou o ímpeto tagarela, agarrou um penacho de cabelo, levou o mindinho à boca e se pôs a fitar a janela. Esse delito pareceu a Guto outra chance de se eclipsar. A fim de não induzi-la a um terceiro round verborrágico, no entanto, preferiu se certificar do terreno onde pisava.- Acabou? – perguntou nocauteado.
- O quê? – Ana assustou-se.
- Esse seu discurso estúpido. Acabou?
- Eu... eu não sei...
- Bom, pra mim chega. Tô indo.
- Sim, saia!.. Isso mesmo.
- Não. Essa coisa de sair só vai rolar amanhã, gata. Agora vou dormir. Boa noite. – e acrescentou – Passe no banheiro, hein! Acho que há um restinho de maquiagem na sua bochecha. Aqui, ó – e indicou a Ana o suposto lugar apontando em si próprio. Ela não ouviu. Guto dirigiu-se ao quarto e desencanou.
Ana ficou em silêncio, ainda atada por alguns pensamentos que, como rebentos de tartarugas-marinhas, precisavam vir à tona a fim de serem desovados na praia. Lembrou-se das pí-lu-las. Enfiou a mão na bolsa e, com a ajuda de um copo d’água, engoliu três comprimidos. Rezou cinquenta ave-marias – permeadas, cada dezena, por um Pai Nosso e um Glória a Deus. O terço. Meia hora depois, com o pulso linear, murmurou: "Terminei. Cheguei mesmo no final, Guto". À revelia do que quer que fosse, a moça dormia. Zzzzzzzzzzzzzzzzzz...

Pinturas: Gerhard Richter
domingo, 15 de novembro de 2009
Quando o Tolsta veio me visitar!!! (4) - O sagrado
- Precisaríamos de uma ambição embolada de ponta-cabeça – nada que nos fizesse retroceder, mas que nos obrigasse a ceder ao tédio de não querer tudo para si, em silêncio galhofeiro, mallllllllll, como quem agradece simples e naturalmente por estar vivo, por não ter caído hoje do precipício. Difícil isso. Lembro-me daquela moça que, ilhada, discutia comigo. Punha, à guisa da revista Veja, muito popular no Brasil, todos os adeptos de regimes ditos totalitários no mesmo saco (Che, Prestes, Fidel, Hitler e Stalin, tanto faz) – e depois suplicava por qualquer bem genuíno que se desdobrava no afamado "individualismo neoliberal", essa lei do pós-guerra que nos atola no supermarket punk. E - concatenei tentando seguir o raciocínio dela - o individualismo desses homens no saco, ora bolas? Por que hão de ser todos iguais? Pensar é difícil, pensar demora, pensar, não raro, é abdicar de qualquer opinião, é, no bilhar, não encaçapar nenhuma bola. É dom, é perda, é humilhação - desapego e comunhão. Dizem que a fé é dom de Deus. Dios. Dieu. God. Бог.
- A razão também – bombardeia o conde. O resto é reprodução. Arte, guria, é criação.
Lembrei de Nietzsche, que disse: “pensar é criar”. Enfim, outro péla-saco-mor pro panteão olimpiano do intelecto. Tolsta não me ouve mais. Tolsta não me ouve nunca, aliás. Conversa com Johannes, o sem-teto alemão – agora sim, um legítimo юродивый.
Encontro histórico: Os юродивый Tolsta e Johannes deixaram-se fotografar em plena Praça da Sé - marco zero de Sampa City. O calor de novembro não os impediu de vestir seus capotes, botas, bigodes e parangolés, o que corrobora minha tese de que ambos estão completamente alheios ao que se passa no mundo. Devem achar que estão na Rússia! Hahaha! Ou pior: em Iasnaia Poliana! Hahaha! Imagina!!! Loucos de pedra!... Detalhe: a foto foi envelhecida no photoshop - essa parte eu não pesquei.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Naquele dia, já era noite
Tristes trópicos – agora em outra pegada. Como diz a Zazie: “Meu cú” – o que, apesar de lacônico, significa: meu cú é bem mais limpo do que essa imundície toda.
Continua aqui.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
O dia parte – e já é tarde
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Eis a gula do pecado...
Bem que te disse, de molho alfafa ainda hoje, que tentei falar com algumas pessoas, mas há tanta gente que não há, de fato, ninguém. Lembro-me que, para festa, não convidaria os perfis com foto. Preferi os avatares – sejamos tão iguais que praticamente idênticos. “Preciso embalar a toca em que me estoco para recebê-lo”. Vou presentear-te com uma lingerie importada de 1930 do Fetiche Brabo – loja da bisa em Copa. Vou servir iguarias picotadas do corpo, tipo lóbulos de orelha, estrias. Não sei lidar com nada disso: estou porca, dei para cuspir no chão e mastigar-me até os ossos fêmures. Lamber os dedos, babar muco bucetal como quem verte gordura de cabra pelas moneras. Eis a gula do pecado. Coalhada feito leite. Não me responsabilizo por patavinas e nem pelo amor que cansei de sentir cortar-me os pulsos do beiço. Afiei-me na humilhação. Empobreci-me na ofensa. Sô de sôfrega, sonada, sozinha e sonsa. Santa de hálito regional entre as cáries que prenunciavam um “T” tão delicado que desfalecia sem dizê-lo. “Culpa dela. Da Tiaaaa...”. É preciso haver culpados, senão ele se recusa a rodar o filme – o diretor: “Ação!”. Mas não há. Ação ou culpa? Já nem sei. De resto, era displicente também: reaparecia sem deixar rastros.
sábado, 3 de outubro de 2009
Quando o Tolsta veio me visitar!!! (2)
(Tolsta indo passear no Ibira pela manhã. Péla.)
Quem é o Tolsta? Gaúcho, mujique, apóstolo de cristo, retirante nordestino, anarquista, tarado, sadhu indiano, tuareg, profeta, monge ou, como todos os russos, um louco? Hmmmmm... Ah, já ia me esquecendo: escritor também é uma opção dentre tantas.
- Second Life, Tolsta... – repreendo-o.
Mas ele ignora. Não entendeu ainda como nós, humanos do século XXI, podemos ter algo tal qual uma vida virtual.
- Não podemos, não podemos. É pura fantasia. Contextualize, poxa. É como na Bíblia. Ou você acredita em Adão e Eva?
- Niet – ele solta.
Tolstói é algo descrente. Não acredita em nada que, de relance e num vasto prado, não possa fitar, tocar, curar, abastecer com seu viço aristocrático dissimulado e bronco. De retidão apaixonada, queria ser padre, mas me pergunta, sem pestanejar, onde é o lupanar. “Não sei... mesmo” – respondo encabulada. Ele desconversa, diz que só queria saber se há algo do tipo nas redondezas e, quando eu digo que a cidade inteira é um grande bordel, um “Gogol Bordello”, um “American Bar”, que muita gente nem cobra pelo pernoite, ele murmura entredentes: “Diabólico, diabólico. Preciso andar mais por aí”. E fico matutando o que seria dele se fosse ao Love Story vestido daquele jeito e com os sobrolhos a meio. (Des)penso o impensável.
- Para que serve a razão? – ele me indaga de soslaio.
“O universo nada delicado da libido”, persuade-me Tolsta, “é bulímico e anoréxico – é um veleiro sob tormenta, é catastrófico, truculento e trágico, uma foda-relâmpago que tudo parece iluminar e subverter com seu gorjeio para, em seguida, apagar-se”.
Não refreio meu ímpeto de mulherzinha, já violentada por essa corja de canalhas, no bojo de Lilia 4-ever, no âmago de Grace, enfeixada por Suely, e metralho:
- A cabeça de baixo venceu Tolsta. Seus apelos à castidade e ao uso da razão não adiantaram muito. É sob a égide do pau, do falo, do pênis, do cacete, do alfarrábio masculino, que vivemos. E o mundo é uma rede de cabeças acéfalas interligadas de forma cruel. E, claro, um retardado querendo ejacular mais do que o outro. Poucas pessoas fogem a essa regra desumana. É tudo porra. É tudo porra...
Tolsta, entretanto, acredita que eu tenha descrito um procedimento científico e, fulo da vida, retalha:
- Oh, eu odeio médicos. Não me venha com essa conversa mole, guria.
Não entendo que tipo de parentesco o Tolsta tem com os gaúchos. Vira e meche ele solta uma bá, um guria, adora um chimarron, diz que lembra o chá feito no samovar. Enfim, isso me intriga sobremaneira.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Quando o Tolsta veio me visitar!!!
Passo ao largo de mim mesma. Sublime no parque e a pique, confundo um pássaro com uma ratazana. Sossego: a coisa voa e baila e cantarola. Lindo. O pouco que tinha nas mangas se foi: precisei gastar alguns copeques com um tênis para ele. Mas valeu à pena. Hilário. O Tolsta de all-star fica absolutamente ridículo, e, o que é mais ridículo, preciso me conter para não rir nas fuças dele – ou ele me enfia de novo na máquina do tempo que acredita existir, pois, a contragosto, já andou vendo alguns filmes norte-americanos –, sendo esta tal contenção de despesas, água e risos o que há de verdadeiramente cômico na infame história.
Eis o tênis que comprei pro Tolsta. Ele achou cool, mas se disse adepto da resistência pacífica (!). Eu não entendi.
São Paulo é um desgoverno – e isso ele sente tão logo põe os pés na rua. Quer uma bicicleta – adorou. Na Paulista, segue a via tátil, por mais que eu lhe diga que aquilo é um caminho para cegos. Quando volto, atarantada, todos os mendigos da rua estão lá em casa – para ele são mujiques, imagine – mujiques russos que, como ele mesmo acha que é, despencaram por aqui. E palestra, palestra, palestra: sem fim, endless lecture, ad infinitum. Adora falar. Vous parlez français? – ele pergunta a quase todos. Comme Il faut. Um saco o Tolstói. Mala sem alça. Saudades da Anna e de suas correspondências miúdas. Essa sim foi uma visita, eu diria, troglodita: não saíamos da caverna nem para comer e, dá-lhe Vronski , pude tocar nas feridas adquiridas por ela no embate com o vagão do trem, pobrezinha. Foi quase como tocar nas chagas de Jesus Cristo. Inoportuno era manter seu vício em morfina. Acabou na cracolândia. Desde então, não sei que raios de rumo tomou na (sobre)vida.
À noite, já deitado, Tolstoi insiste em dizer que é o Levin. “Não, de novo não!” – penso. E que o personagem era um alter-ego dele. Dãããã. Eu, claro, não acredito.
“Como assim, Tolsta? Antes ou depois de Freud? Não me engane, hein.”
“Eu não acredito em inconsciente, guria” – ele manda.
“Nem eu” – emendo.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Carta ao ET

Como vai aí arriba (ou aí abajo, dependendo do point of view)? Por aqui você já sabe, né? Tá tudo uma merda. Só o desamor constrói – montoeiras de lixo, rios de espuma branca, miséria raquítica, invisible people, cultura vagaba, cinismo sensual, e por aí vai a perder de vista ad infinitum muito além de qualquer horizonte cinzento – como a CNN intergaláctica já deve ter divulgado. No entanto, há uma série de aforismos que, pairando sobre a tigela, conformam a massa, né, fofo? Coisas do tipo “O passado será sempre melhor”, “The show must go on” ou “Deus ajuda a quem cedo madruga”. E os humilhados e ofendidos? Vixe, Nossa Senhora, estes terão o reino dos céus. Terão sim, mas, antes, acho que esse show já anda mal das pernas e precisa dar uma paradinha. E a arte? No que se transformou a auto-proclamada (por uma horda de piadistas burgueses) e divinizada arte? Bloquinhos de gelo derretendo em Paris? Ah, faça-me o favor. Intervenções cômicas ao lado do banco anti-mendigos – eu diria. Certos surtos freudianos de introspecção alienada deveriam, por ora, ser categoricamente proibidos (Ah, inconsciente tem limite!) – mas aí é fazer como fez Stalin, né, o que já provou ser ineficaz. Então não chama de arte, poxa! Aqui reclamar não é nada cool, ET. Soa ultrapassado, antiquado, retrógado. Sinto falta daquele clima vermelhão de marte. Vermelho-sangue: adoro! Os terráqueos não cultivam muito respeito pelo verde ou pelo azul, por exemplo, e não me admira que você não queira mais pisar por aqui . Sabe ET, acho que a humanidade nem vive mais um retrocesso, vive um retrocídio, movendo-se para trás sem nem dar uma olhadinha pelo espelho retrovisor. E, ao que tudo indica nesse chamado retrocídio, já estamos na Idade Média, exatamente no filme do Bergman, já que tudo no sétimo selo é, de fato, sétima arte. No mais, sinto que a essência humana, essa que nunca se soube direito o que era, mas acerca da qual, com efeito, havia indícios palpáveis, volatilizou-se de vez. De concreto, só o marketing. E a vida, veja você, reside na idéia (ou no pseudo-pilar) de que é preciso “vender-se” para ser. É vendendo, portanto, que podemos comprar. Comprar o que? Nossa liberdade... de consumo (Uebaaaaaaaaa! Adorno rules!). Só – já que, infelizmente, só essa liberdade fake nos cabe. Tenha você acumulada a fortuna que tiver, tanto mais enganado é pela roda que o escraviza. Liberdade (o que você acha, ET?), na verdade, é desvencilhar-se disso tudo (não sou nada original, Platão disse algo semelhante). Camadas de marketing puro, à exceção dos enfants, há muito, ocultam la vérité – liberté, egalité, fraternité. Ideais sobrevivem apenas como pruridos no mamiloUUUUUUU – é o que parece. Depois passa.
Vou ficando por aqui, ET. Já escrevi muita besteira. Se escrever mais a Gannibal não me deixa postar no blog dela, sabe? Vai dizer que eu ando lendo muito... Hmmmmmmmmm.
Espero que não demore uma eternidade para pintar por aqui. Estamos sentindo sua falta. Suas aparições são tão divertidas!!! Muito melhor que arte pós-moderna! Apareça, viu!
Lembranças do Planeta Terra!
@nostálgica.
sábado, 19 de setembro de 2009
Barata e nada
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Ela era intensa, não cabia em si. Mundos arrolavam de sua pele, de seus cabelos. Era molhada.
... para depois procurar. Só que antes, muito antes - tão antes que já passou - eu tinha que fazer uma série de outras coisas, de mentirinhas, de entre-safras, de porra nenhuma, para só nesse ponto especifico, em algum momento indeciso, rijo e condensado, poder me safar de fininho, poder pular o muro, poder partir. Partir para procurar, procurar alguma minúcia, alguma reminiscência que - ufa! - eu acabei deixando de lado por falta de saudades.
Está feito: na verdade, eu ia principiar me embrenhando pelas caneluras da preguiça, pelo peitoril do que já passou, dispondo-me pé ante pé no cimento fresco, até resgatar do chão o montículo de flocos, até arrumar esse microlar que eu deixei às avessas, estando assim, nessa mesma posição - sentada, descadeirada, acomodada - como se varresse o entulho com os olhos. Depois, juntaria a bagunça num cantinho remoto, numa quina, empilhada, ereta, a fim de que nada me anuviasse a vista, e de que todos esses ciscos de meio-fio continuassem sendo próprios a isso, ao mínimo e inadvertido sinal da tormenta. Não há dúvidas: empenho-me nesse troço estática, sem ação, sem mãos ou pernas, sonolenta, quase sonhando, deitada, quase desmaiada, inerte, quase morta: a um passo de, na iminência de - apática. Meus calcanhares não respondem mais às ordens imperativas da minha mente. Mas é como se tudo não passasse de um mero desejo exclamativo sonado, dissimulando-se pelas intrincadas redes do não-fazer-nada-sem-movimento. ----------- Se tivesse sentido saudades, saudades constituída de suspiros, saudades do durante experimental, saudades das impressões perfeitas, saudades daquelas tigresas de tocaia na mata, saudades da obscuridade das coisas, saudades das incertezas fabulosas, ou se tivesse sofrido de dispnéia e saudades, se tivesse sido acometida pela insônia, pelo sonambulismo e pelas saudades - que sei lá que sufoquei -, se tivesse dilacerado meu corpo, minha alma e meu espírito de saudades - vomitado, urrado, me debatido, reivindicado - não precisava parar. Parar - para depois partir.
Ficar paralisada, indefinidamente, esperando - o quê? - toda bagagem de trecos escorregar por detrás de mim, todo o sangue, todo o tumulto de lixo se espraiar pelos móveis da casa, ansiando por aquele documento vazio - o ultimato da vida -, para daí emergir da letargia, afoita, como uma âncora lançada ao mar e logo em seguida içada. Parada, quase que meio alucinada, recurva, dedilhando notas sem som sobre o teclado, solfejando estribilhos de letras mudas, imundas, açoitando um mundo estranho e comprovadamente impossível. Eu, eu, eu - tomando fôlego pra continuar -, por que não tenho, ao que parece, saudade daquela infantaria de desejos que irrompiam de meus poros, feito calafrios inumanos, feito frutas de doces no pé, feito lulas e tentáculos, chocando-se ao perecível, ousando-se aos contra-sensos, importunando meia orbita e meio mundo de otários sem governo e direção. Eu, eu, eu, sempre eu, quando é difícil respirar para abortar o ontem - e que se foda o antes, e que se danem os documentos e registros extraviados, e que se enterrem os mortos -, para desencorajar o medo de afogar tudo isso em mim, para viver na base sôfrega, porém saborosa, da saudade."
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Homens ao pé do sol
Boreal.
Orgia ao pé-do-sol.
domingo, 6 de setembro de 2009
....................................Esquece.
domingo, 30 de agosto de 2009
No parachutes, no shelter...
Apenas sinto.
Cintila, portanto, pelo ar que dentro de mim circula, uma beleza consciente de sê-la.
Beleza, avesso da aparência, construída de percalços, viva.
Esteio e leito por onde navegam lembranças de decênios e milissegundos, conforme a velocidade de cada ato, voluntário ou compulsório, silente ou ruidoso, desmemoriado no presente e perpétuo de sabores que decolam parachutes a perder de vista.
É tão humano quanto a essência do ser – e carrega, em suas vitrines, um quê de fálico, mas não ultraja, só reproduz, tal qual emas na savana africana.
Paro. Apresento-lhe meu sexo, Beleza etérea.
E suplico-lhe por um cafuné, shiatsu a meia-luz, beliscão.
É por ti que, esperançosa, já que me alças ao topo do mundo, e me vejo aqui a tocar as sílabas do céu, que continuo a galopar.
Dou voltas ao mundo em 80 passos.
É por ti que me entrelaço aos homens, ignorantes de sua bondade, de seu poder, desse jardim que pare com tamanha anuência.
É por ti, Beleza etérea, Amor recôndito, dimensão aos homens oculta, que pedalo.
Eis a minha bike: sangue matador.
As atitudes equivocadas acima listadas ensejam, via puro acaso, um encontro: Francis "louco-cara-de-bulldog" Bacon e William "junkie-beat" Burroughs. Fico pensando (em russo) cá avec moi même qual era exactly o tema em pauta. Alguém arrisca?
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Brincando de Deus
domingo, 23 de agosto de 2009
Pro domingão paulistano - cante Lobão (e invente outras memórias...)
E aqui tá tanto frio
Me dá vontade de saber...
Aonde está você?
Me telefona
Me Chama! Me Chama!
Me Chama!...
Nem sempre se vê
Lágrima no escuro
Lágrima no escuro
Lágrima!...
Tá tudo cinza sem você
Tá tão vazio
E a noite fica
Sem porque...
Aonde está você?
Me telefona
Me Chama! Me Chama!
Me Chama..."
Fui lá ontem. Quando entrei, elas me receberam como se eu fosse alguém muito especial – e de fato era, já que todos somos, ora pois. Incrível perceber-se alguém muito especial nessa cidade torta. Diziam-se revolucionárias – e eram. Passei o dia inteirinho por lá, na ânsia de ouvir jazz, entre livros, metafísica e arrepios, do tipo: “Uma palavra vale mais do que mil imagens”. De fato, com imagens não podemos pensar no que quer que seja, só imaginar. O que é ótimo; embora em dias como esses, de descalabro nu, seja preciso pensar, refletir, raciocinar e agir. De resto, também deglutia, alheia a engasgos, aquele bando de histórias que me aturdiam embaladas feito vagões de locomotiva e adentravam afoitas, em looping, em minha boca caudalosa, salivante, esgueirando-se pelo esôfago e assentando-se no estômago, no bojo de pavores e bolores gástricos eslavos. O almoço ainda me escapulia em pílulas de arroto: bafos. No prumo da assepsia – algo terrível. Algo que eu, naturalmente e sem perceber, disfarçava. Sentia-me no meu lugar – e acabei encontrando uma edição portuguesa de um raríssimo exemplar do Turgueniev. Amo. Pensei em tantas pessoas que amo, aliás – e o quão longe e próximas elas podem estar de mim a um só tempo e espaço. Abismos que se desfazem em um piscar de olhos quando – e especialmente – este estilete que trazemos a reboque e a contragosto cessa repentinamente de circunscrever sulcos ao nosso redor ou de machucar aqueles que não somos. Contudo, já de volta a casa, o cio de meados do mês provocou-me sonhos eróticos, verdadeiros pesadelos, concedendo-me, de presente, um encontro com o avesso do menino. Merda. Não entendi quando ela disse que deveria tolerar. E me deixar mutilar? Não. Algo pertubador – e, por ora, já nem quero expor meus copiosos tropeços ou falar sobre nada disso. Prefiro continuar por lá, semeando conceitos, ao encalço de um homem formidável que, dentre outras coisas, perguntou-me se estava tranqüila enquanto palestrava pela enésima vez a respeito da história de minha terceira vida – não a última, espero, mas a mais deslumbrante e orgíaca, consciente de seus prazeres infames e de sua beleza divina. Pedi para sair depois que me ofereceram companhia e um jantar perfumado. Alguém ia tocar piano. Havia, em uma esquina pouco visível, uma balalaica também. Alice e Carrol. Pena... meu tempo de paraíso havia se esgotado.
Holofotes tonitruantes espocam na sílaba. Bá. Algo mesmo como um “bá” gaúcho. Sorry – Des-leia.
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Um gosto particular pelo nada
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Apocalíptica adverte: o fim do mundo é só uma questão de lógica e twitter

Se:
tudo que existe começa e termina nas relações humanas.
e se:
a integridade das mesmas está cada vez mais ameaçada pela internet.
e se:
transformadas substancialmente*** as relações humanas deixam de existir.
Logo:
o twitter, na verdade, é o fim do mundo.
Nostálgica se manifesta:
Jesus, Apocalíptica! Você tá completamente por fora, menina! Nunca leu Lukács? Nada disso: o mundo acabou faz tempo!... Acabou quando o homem deixou de ser homem para virar mercadoria. Hum? Sociedade capitalista, São Paulo, Avenida Paulista, Manhattan, Champs-Élysées, cultura das saídas. Não há mais relações humanas desde entonces. Há relações entre coisas. Marx - nosssa! - já havia cantado essa pedra da desumanização, sua zéfa. Lá na cracolândia neguinho dá até uma cafungada nela...
Apocalíptica (perplexa):
Oh my God!... Vou comprar amoras!...
(Eu, muito humilde e insignificantemente, continuo acreditando que enquanto houver amor(as), há esperança........................)
***?
quinta-feira, 30 de julho de 2009
O desamor é cego (ou quando virei verme...)
Parece coisa de nada, mas não é fácil quando a lente de contato se perde no globo ocular. A sensação é a de que os olhos, eles mesmos, fossem navegar pela superfície da córnea e ancorassem em algum universo baldio, à deriva, de onde só um cirurgião oftálmico, em uma cirurgia de alto risco, poderia extraí-los – embora não sem cegar o paciente. A paranóia é foda na primeira vez. E foi naquele momento, o do esfregão debutante, que o safado me apresentou a sua amante, a amiguinha dos dias de folga, a tal da Mirela, ou Milena, ou “devagar” em russo – a saber, Medllena –, em um dos mais caóticos e malfadados episódios da minha vida - já notadamente absurda, cabe reforçar, em razão do simples leitmotiv que a acerca: viver. O mundo ruiu. Tive vontade de parti-lo em dois, na verdade, quebrá-lo em mil, ficar com a maior metade e deixar para aquele casal de funâmbulos a parte dos líderes carniceiros, da indústria cinematográfica norte-americana, das novelas mexicanas e da música pop, infortúnios dos quais eu nem iria me lembrar. Eu ficaria com o Gaudi, claro, os escritores russos, o Che e o querido jovem frade em um mosteiro em Bordeaux estudando metafísica. De resto, ia fazer como a Andrea: passar as férias em Itacaré na Bahia. Mas não. Não. Muxoxo de “não”. Como já disse o referido jovem frade, “a realidade é o que existe”, minha cara. E, sendo “a realidade o que existe” e não o que a gente inventa para suportá-la, como mal informou o desinformado Proust em alguma das sei-lá-quantas páginas de La Recherche, na tradução do Fernando Py que é a melhor (ah... foi mal, Bandeira!...) – bom, retomando o fio e a meada, como ele bem frisou, mega inspirado que estava, naquele dia de sol a pino, a realidade é o que existe quer você queira quer você não queira ao despetalar a flor do mero acaso. E, para minha completa infelicidade, na realidade em que me enfurnei, pé no âmago da jaca, não havia cavalo ou cavaleiro nenhum para me resgatar – devorando-me, imaginava, logo em seguida, em meio ao capinzal enquanto os carrapatos me transmitiriam uma doença venérea qualquer e eu (hahaha) nem aí. Não havia nada além da cruel realidade. Foi desse modo, aliás, que descobri algo que viria a ser de suma importância (sério!) quando comecei a freqüentar um centro espírita: sim, eu não era esquizofrênica como meus irmãos. Porque se fosse, prestenção, uma paisagem um tanto mais psicobela teria se descortinado perante myself, e não aquela cena oca que, desventurada, porcamente testemunhei: a Medllena, bêbada, aos tropeços, vestindo uma calça da Gang – como diz o Ricardone -, cachorrona, silicone ao relento, e aquele homem para o qual tantos bordados e tricotados fiz, para o qual tantos varais de roupa estendi e camisas sociais alinhei a ferro, também embriagado, na cama, expulsando-me às gargalhadas da casa em que morei, sobretudo ébria, por tantos desenganos e carnavais sem conta. Bem pior e desastroso seria, com efeito, se não fosse o poder de minhas fervorosas orações - que por tantos anos copiosamente rezei sem fraquejar e saber nem para quê ou por quê. Pois foi Deus, tenho certeza, foi Deus que me privou da vista naquele instante, deslocando o par de lentes de meu par de olhos, e só fazendo que aqueles dois ciscos retornassem a seus devidos lugares quando evadi do pardieiro qual um verme. Meu coração, sem dúvida, não agüentaria tamanho desgosto e desafeto – enregelar-se-ia para todo sempre no bojo da estupefação de meu mais caro sentido: a visão. Desde então, não me apoquenta a auto-piedade, não me apunhala a tristeza ou o ciúme e, dos homens, eu só quero o amor. Sim, o amor, pois o desamor, egoísta, nada vê – ou só vê o que bem quer.
PS: Na separação de bens, deixei para ele a música pop. Fiquei com o sobrenome, claro, muito mais útil.









