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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Contato

Tentando fazer contato com o homem "branco", civilizado, burocrata, ocidental, que vive isolado na selva de pedra paulistana. 3ª tentativa -------------------- a toca.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A dialética das relações humanas pós-apocalipse

É dialético. Paradoxal. Hegeliano. Quase marxista e, sem dúvida, adorniano. As opções de escolhas são tantas - tanto para nós quanto para os outros - que começamos a abrir (arreganhar mesmo!) nosso leque de opções mais restrito ou seleto. Assim, aquelas coisas que antes cultivávamos por algum tempo, aninhávamos em berço esplêndido, decifrávamos, passamos a descartar de imediato - isso porque, igualmente para os outros que nos acolheram de qualquer forma, somos a priori descartados qual produtos. Reagimos conforme "o chute na bunda" que levamos - ou seja, partimos para outra pseudo-escolha. Só que ampliando ou estendendo nosso leque de escolhas e diminuindo o tempo de consumo, além de nos tornarmos hiper-superficiais, examinando mal e porcamente o objeto de estudo, rebaixamos o nível em que se assenta o objeto - até o nível em que "qualquer coisa serve". Nesse rastro, e confirmando as proposições da Escola frankfurtiana, quanto mais escolhas temos, menos escolhas fazemos. A liberdade de escolha do mundo pós-moderno é a total falta de escolha. É catastrófico: vivendo em uma sociedade tão repleta de opções, estamos completamente sem opção.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Eis a gula do pecado...

Eles têm um ao outro. E um ao outro me tem – disse Lilia Brik.

Bem que te disse, de molho alfafa ainda hoje, que tentei falar com algumas pessoas, mas há tanta gente que não há, de fato, ninguém. Lembro-me que, para festa, não convidaria os perfis com foto. Preferi os avatares – sejamos tão iguais que praticamente idênticos. “Preciso embalar a toca em que me estoco para recebê-lo”. Vou presentear-te com uma lingerie importada de 1930 do Fetiche Brabo – loja da bisa em Copa. Vou servir iguarias picotadas do corpo, tipo lóbulos de orelha, estrias. Não sei lidar com nada disso: estou porca, dei para cuspir no chão e mastigar-me até os ossos fêmures. Lamber os dedos, babar muco bucetal como quem verte gordura de cabra pelas moneras. Eis a gula do pecado. Coalhada feito leite. Não me responsabilizo por patavinas e nem pelo amor que cansei de sentir cortar-me os pulsos do beiço. Afiei-me na humilhação. Empobreci-me na ofensa. Sô de sôfrega, sonada, sozinha e sonsa. Santa de hálito regional entre as cáries que prenunciavam um “T” tão delicado que desfalecia sem dizê-lo. “Culpa dela. Da Tiaaaa...”. É preciso haver culpados, senão ele se recusa a rodar o filme – o diretor: “Ação!”. Mas não há. Ação ou culpa? Já nem sei. De resto, era displicente também: reaparecia sem deixar rastros.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Quando o Tolsta veio me visitar!!!

Tolstói é algo desagregador de células. Pergunta-me se há qualquer coisa como morte virtual, portfólio vivo na internet, cemitério online e, em seguida, descobre o céu e o inferno do ciberespaço. É chato. Usa meu banheiro para uma ducha e grita: “Tu enfiaste a escova no reto, guria? Porque se for desse jeito não a uso para limpar as costas”. Cavalo. Kholstomer. Finjo que não ouço, indagando-me se antes de chegar aqui ele pernoitou com algum gaúcho. Esses escritores do século XIX acham que, ao invés de progredir, a humanidade iniciou um longo réquiem rumo à latrina, à contraparte sanitária de tudo que seríamos se não fossemos o que acreditamos ser. Seja como for. Tanto faz. No fim das contas, estamos, sobretudo e aprazivelmente, mais translúcidos e bem comportados, sendo que palavrinhas como cú, nessa geração, são pronunciadas aos quatro ventos e guardadas a sete chaves. Ou seja: assepsia suína.
Passo ao largo de mim mesma. Sublime no parque e a pique, confundo um pássaro com uma ratazana. Sossego: a coisa voa e baila e cantarola. Lindo. O pouco que tinha nas mangas se foi: precisei gastar alguns copeques com um tênis para ele. Mas valeu à pena. Hilário. O Tolsta de all-star fica absolutamente ridículo, e, o que é mais ridículo, preciso me conter para não rir nas fuças dele – ou ele me enfia de novo na máquina do tempo que acredita existir, pois, a contragosto, já andou vendo alguns filmes norte-americanos –, sendo esta tal contenção de despesas, água e risos o que há de verdadeiramente cômico na infame história.

Eis o tênis que comprei pro Tolsta. Ele achou cool, mas se disse adepto da resistência pacífica (!). Eu não entendi.

São Paulo é um desgoverno – e isso ele sente tão logo põe os pés na rua. Quer uma bicicleta – adorou. Na Paulista, segue a via tátil, por mais que eu lhe diga que aquilo é um caminho para cegos. Quando volto, atarantada, todos os mendigos da rua estão lá em casa – para ele são mujiques, imagine – mujiques russos que, como ele mesmo acha que é, despencaram por aqui. E palestra, palestra, palestra: sem fim, endless lecture, ad infinitum. Adora falar. Vous parlez français? – ele pergunta a quase todos. Comme Il faut. Um saco o Tolstói. Mala sem alça. Saudades da Anna e de suas correspondências miúdas. Essa sim foi uma visita, eu diria, troglodita: não saíamos da caverna nem para comer e, dá-lhe Vronski , pude tocar nas feridas adquiridas por ela no embate com o vagão do trem, pobrezinha. Foi quase como tocar nas chagas de Jesus Cristo. Inoportuno era manter seu vício em morfina. Acabou na cracolândia. Desde então, não sei que raios de rumo tomou na (sobre)vida.
À noite, já deitado, Tolstoi insiste em dizer que é o Levin. “Não, de novo não!” – penso. E que o personagem era um alter-ego dele. Dãããã. Eu, claro, não acredito.
“Como assim, Tolsta? Antes ou depois de Freud? Não me engane, hein.”
“Eu não acredito em inconsciente, guria” – ele manda.
“Nem eu” – emendo.

Nisso concordamos.

Já botei a vassoura atrás da porta. Mas o Tolsta não quer ir embora e já fez amizade com os "nóia" da rua. Ele não consegue entender que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Aff!...

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Homens ao pé do sol

Hoje são todos barbudos – os homens. Sim, esses meninos que se aninham acuados feito filhotes, sob capotes. Tenho cá comigo que o homem de verdade talvez seja imberbe. Uma quase mulher. Mas só desbigode ralo do ser nu. Homem que viole o íntimo da história e desmereça o vendaval que nele assanhe os pelos. Sem pelos. Abaixo da derme imaculada – e epi-livre. Livre de ser o ter, por ora, no lume da história vil do macho, essa que tantos já fizeram doer - ele mesmo: refém perpétuo do sexo-escarro. Eis, por sinal, a virilidade do amor. Algo como o avesso ao pau – mesmo sendo dele, você, um devoto senil. O bom senso, virtude irrefutável, lhe proporcionará, assim, escolhas à revelia do quedar sob a égide ingrata do falo. E o mundo, embasbacado, será desse czar estéril, comum, galhardo, absorto em sua razão soberana. Um macho-rei, portanto: alheio à herança maldita que há tanto o guia, consciente de sê-lo na extensa plenitude do nós. Sem amarras. Sem rancor. Ser-eno. Celebremos a plenitude silente do nós. A liberdade do gozo, prolífico, relegado a todas as instâncias do outro, enfim e por fim, logrará. E seremos no ato, homens e mulheres, cambada humana arredia insana, ao bel prazer do imaculado, encontro. Encontro este puro e perfeito – no acaso do mais recôndito amor. O homem de verdade – na aurora do amor, vencerá.
Boreal.
Orgia ao pé-do-sol.

domingo, 6 de setembro de 2009

....................................Esquece.

No inferno, trabalho como jornalista. No céu, ainda não tenho uma atividade certa. E saio pela cidade de vez em quando, dobrando-me às esquinas, até que com todas elas enfeixadas às minhas ancas, espiraladas ao meu tornozelo, possa, enfim, tropeçar e estabacar-me (!) - ou, melhor, erguer a blusa voluntariosa e louca como quem levanta uma bandeira e mostra a todos o resultado de tamanha efervescência: a inscrição que trago tatuada abaixo dos meus seios, rígidos e nodulados, cancerosos talvez, no volteio sob a cloaca: não estou disponível para o pernoite. É vero. Depoisssssssss, tento relaxar e, quando percebo, rodopio lívida qual um carretel do qual se puxa a linha, sabe? Neste caso, entretanto, linhas são como ruas, avenidas, retas, mares que, galgando pelo cabo das esquinas, pelas ondas, pelo anzol que vara os séculos, arrolei ao meu corpo flagelado e nu. Muito embora, como mencionei outrora, não vai rolar. Na verdade, não agora, que me sinto fula da vida. Que não me sinto. Que... sinto muito. Sinto tanto que chega a doer.

No fim, é preciso comprar-se. Como foi, como era e como sempre vai ser. É preciso comprar-se. É?... É preciso comprar-se - e não vender-se - todo mês.

domingo, 30 de agosto de 2009

No parachutes, no shelter...

Sinto-me no topo de uma Beleza etérea – a qual, entretanto, não me foi dado o direito de ver ou circunscrever.
Apenas sinto.
Cintila, portanto, pelo ar que dentro de mim circula, uma beleza consciente de sê-la.
Beleza, avesso da aparência, construída de percalços, viva.
Esteio e leito por onde navegam lembranças de decênios e milissegundos, conforme a velocidade de cada ato, voluntário ou compulsório, silente ou ruidoso, desmemoriado no presente e perpétuo de sabores que decolam parachutes a perder de vista.
É tão humano quanto a essência do ser – e carrega, em suas vitrines, um quê de fálico, mas não ultraja, só reproduz, tal qual emas na savana africana.
Paro. Apresento-lhe meu sexo, Beleza etérea.
E suplico-lhe por um cafuné, shiatsu a meia-luz, beliscão.
É por ti que, esperançosa, já que me alças ao topo do mundo, e me vejo aqui a tocar as sílabas do céu, que continuo a galopar.
Dou voltas ao mundo em 80 passos.
É por ti que me entrelaço aos homens, ignorantes de sua bondade, de seu poder, desse jardim que pare com tamanha anuência.
É por ti, Beleza etérea, Amor recôndito, dimensão aos homens oculta, que pedalo.
Eis a minha bike: sangue matador.

As atitudes equivocadas acima listadas ensejam, via puro acaso, um encontro: Francis "louco-cara-de-bulldog" Bacon e William "junkie-beat" Burroughs. Fico pensando (em russo) cá avec moi même qual era exactly o tema em pauta. Alguém arrisca?

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Um gosto particular pelo nada

Depois que extraíram meu cérebro, puseram-no em uma pequena bancada de vidro ao lado da porta. Vi Mariah aspergindo-lhe pimenta e suco de tangerina (ou manga, difícil saber sem ter ao menos provado), o que deveria conceder-lhe um arzinho de fresco, saído do forno. E era. Não tinha morrido ainda ou – no mais – não havia morrido em vão. Sentei-me no chão e comecei a imitar um frango. Muito fácil: bastava levantar as alças dos braços e sacudi-las ao léu, em zigue-zague, deixando aparecer as entrelinhas das axilas. Mariah ria. Aquilo deveria ser mesmo risível. Enquanto meu cérebro flambava, disseram-me, comecei a dizer sandices, as quais não posso me lembrar, naturalmente, pois no lugar do cérebro pendia-me uma cabeça oca, algodoada, de onde vertia sangue o bastante para pintar um quadro. Do coração, entretanto, tenho recordações: disparava-me, pois lá pelas dez, à noitinha, senti dores no peito. Era o triunfo oxigenado de não ser.

sábado, 1 de agosto de 2009

Pirofagia sentimentalóide

Nostálgica diz: Bom, chega disso. Vai acabar se queimando feio, chuchu. Nos lábios, na boca, vias aéreas - coração. Sei que é do tipo incendiária, compulsiva, irresponsável, otária, pero...
Gannibal continua: ...daí percebi que sem o conhecer a si mesmo não há o sair de si mesmo e vice-e-versa, muito embora o segundo seja o mais relevante ou o único de fato fundamental. Não sei. Não saio. No cio. Tem gente que não sabe o que quer (e o que não quer aussi). Isso pode ser perigoso, deveria até dar cadeia, eu acredito. Essa gente que fica por aí sem saber o que quer e enfiando no cú de qualquer um que dobre a esquina. E tem gente que, claro, sabe o que quer (adoro esse tipo, aliás): mas então fala, caralho! - eu não tenho como adivinhar o que você quer! Oráculo miraculoso. Entra século, sai século, e os problemas de comunicação não cessam. Mais um na multidão: eu... Só me sinto assim aí, nesse vilarejo pré-romântico descacetado: como se tivesse perdido a individualidade, como se estivessem espicaçando meu ego perolado que tanto mimei, como se me iluminasse qualquer spot mui superficial, como se houvesse clones meus por toda parte, depauperados, como se fosse Natal. E daí, outrossim, a compreensão me escapa. Nada a ver: ah, vem cá, Dani: não dá pra você escrever contos eróticos na primeira pessoa, cara. Eles ficam, obviamente, ilegíveis. Não rola. É claro que a gente associa o relato do autor ao autor do relato, porra. É nojento até. Volte a ser articulista!... No mais, chega de pirofagia sentimental, chega de correria em campos minados e todos esses universos tortos que me atraem so much - sei-lá-por-quê. Ai, espero que ninguém me veja agora. Apaguei.

domingo, 26 de julho de 2009

Ele reproduzia, sem o saber, todos os males que acreditava odiar...

O único mal da sociedade capitalista, essa que fingimos odiar, porque é legal gostar de Marx e Che Guevara, é transformar o ser humano em coisa. Todas as relações grotescas que essa sociedade que fingimos odiar produz e, com a ajuda de todos os seus membros, reproduz ad infinitum, culminam na porca da desumanização.

Então lembrei daquela história. A do sujeito, a do homem, ouso dizer, que foi, a princípio, muito gentil com Mariana por que queria usá-la como remédio para curar algumas feridas adquiridas no hiato da solidão. Como lá pelas tantas, a coisa, a Mariana, não serviu a contento, ele, claro, a jogou no lixo, como cartela vazia que era. Só que ele não sabia, pobrezinho: Mariana não era uma coisa, Mariana era um ser humano. Só que ele não sabia, pobrezinho: Mariana era, sim, tão ser humano quanto ele. Só que ele não sabia, pobrezinho: que, ao tratar as pessoas como coisas, ao tratar Mariana como coisa, ele reproduzia toda a dinâmica social (capitalista, cretina, individualista, desumana) que julgava odiar e lutar na direção contrária. Eram nesses “pequeninos” gestos, mais do que em qualquer outro tipo de ação – Mariana pensava depois, sentindo-se infeliz por acreditar no homem – que o homem, ouso dizer, abastece toda a engrenagem que finge odiar, transformando pessoas em coisas consumíveis ao inserí-las na lógica do capital. Afinal de contas, nessa sociedade que amamos odiar, tudo é (não é?) produto, coisa, consumo, superfície, função, troca, lixo – a começar (e a acabar) nas relações humanas. Só que ele não sabia, pobrezinho, tão preocupado que estava com o próprio umbigo, de nada disso.

Ocupe e resista Mariana. Continue acreditando no ser humano. Eu também acredito...

terça-feira, 21 de julho de 2009

Os hormônios e o século XXI

Apesar de ser um péssimo poeta, Cazuza tinha razão quando dizia que, a despeito da rima, burguesia e poesia não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Em pleno século XXI a sociedade continua dividida em castas, sendo a pior delas, como diz Lukács, a pequena-burguesia, em relação a qual qualquer forma de arte mais elevada é totalmente incompatível. “Enquanto houver burguesia não vai haver poesia”. Em pleno século XXI as pessoas se recusam a se levantar de seus troninhos – onde defecam, dormem, constroem cercas e o diabo – and life goes on. Jean Cocteau profetizou: "a vida é uma queda horizontal" - não por que vamos morrer algum dia, mas por que conseguimos seguir nossas vidinhazinhas em meio ao genocídio alheio, que nos avizinha, sem estar nem aí. Em pleno século XXI vivemos uma peste atrás da outra, sendo a moléstia da vez a tal da porcina, contra a qual não há – não adianta, hermanos – não há prevenção. Em pleno século XXI a sociedade, além de patriarcal, hostil e machista até o útero, continua dividida, na prática, entre aqueles que acreditam em Deus e aqueles que não, sendo que estes não fazem a mínima idéia do que seja esse Tal ente, e aqueles que acreditam, em sua maioria, também não. Em pleno século XXI, os povos primitivos já mostraram ter mais domínio sobre qualquer tecnologia do que o homem civilizado, mesmo assim as últimas aldeias indígenas do Brasil se esvaem como água pelo ralo. Em pleno século XXI vivemos, sim, a barbárie. Em pleno século XXI, não há século XXI – e a mulher, mais particularmente “eu”, sofre de TPM e se põe a reclamar sensibilizada, visto que não há, veja você, te enganaram, século XXI algum. Tudo invenção, estamos na Idade Média. Em pleno século XXI eu abro a janela do apartamento em que moro em São Paulo (essa cidade, esteticamente falando, horrenda) e o que eu vejo é aquela afamada cena de “O sétimo selo” do Bergman: uma montanha e silhuetas próximas ao crepúsculo, em fila, seguindo um líder sem saber para onde ou para quê, à deriva e desnorteadas. Como diz meu sobrinho de quatro anos: “ai, ai, ai...” Um anjinho.

sábado, 11 de julho de 2009

debandada de chimps, vida e milagre

É possível que nada disso faça o menor sentido. Não faz, ora pois, нет. Mas fez, ali (... ...), de repente, e qualquer hiato luminoso em mim se delineou (O), quando avistei manadas trôpegas de búfalos e elefantes-gados em plena savana africana: sedentos, enlameados, aproximando-se, enfim, do leito do rio que irrigando o solo no bojo da aridez perene tudo (tudo!) inundou. Levava consigo cardumes, antílopes, aves, crocodilos, devastando a morte ao sabor de ramalhetes de lírios de cujas pétalas saltavam rãs pintadas à mão deficiente ou gramíneas que, esguias, perfuravam o liso tapete d'água. Debandada de chimps, vida e milagre.

Bufalada: manada de búfalos na plácida savana africana.

Até onde eu sei, a razão, essa coisa que nos difere dos animais, e a qual tanto apreço devotamos, é também o que nos confere a capacidade de escolha. O tal do livre arbítrio. No entanto, pensava cá comigo: "Sob um determinado prisma, a razão nos torna pior do que os animais, uma vez que passamos a negar irresponsavelmente o que nos é natural e, por sua vez, naturalizamos, encantados, o artificial". Daí, quando o natural que há muito desnaturalizamos (mas que é o real e, portanto, o que existe) nos surpreende no cotidiano, não sabemos com ele lidar ou dialogar. Simplesmente não o suportamos. Ele nos soa estrangeiro, alheio, caro, irreal. Eis que, por exemplo, nos intercepta a morte, a mais natural das contingências da vida. A partir do momento em que forjamos o luto (leito) no qual ela deságua, obviamente sem o saber, imperializamos o ego, centralizamos o eu, destronamos o outro e, nesse arcabouço asfixiante, os habitantes da savana já não podem pressentir a vida que se achega em desbunde e sem alarde. Silente. Perdemos, assim, o faro dos elefantes, dos búfalos, das gazelas, regredindo a uma razão "divina" e ingrata, alheia ao manancial dos arredores que, miraculosamente, tão logo a seca vingue, apruma-se no deserto.

A natureza inventada racionalmente, de acordo com leis sobretudo científicas, humanas, atrofia nosso olhar de lince e converte em traumas inefáveis o que a outros seres é o comum - visto que inseridos no contexto de suas comunidades. Naturalizar processos equivocados (egocêntricos) pode render ao homem fraturas irreparáveis - e fatais. Não por que redundam na morte, mas por que deslocalizam-na, bem como a incontáveis outros elementos de um curso genuíno, normal. A seca, não raro, faz parte do bem viver.

Não é só a nível da baleia que golpeamos o natural. É, sobretudo, no perímetro cotidiano, urbano - esse que a duras penas nos suporta.

O passo dos elefantinhos... 1, 2, 3, devagarinho quase parando. Um vai cheirando o rabo do outro que, inevitavelmente, fede. :-)

PS: Isso não tem absolutamente nada a ver com Rousseau ou com qualquer corrente ambientalista ecochata. Eu tava vendo Discovery Channel da janela aqui de casa...

terça-feira, 30 de junho de 2009

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨Gente-animal¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Primeiro a porta estanca:
bate. Clic.
E leve, o ar desmonta.
Estou presa.
Entrecruzo pernas e liames temporais.

Por mais que os sonhos possam nos aproximar do que sentimos, em aparições vidradas, olhos de gente que perpassa, que percebe-se, e em sensações táteis, não existe nada mais estridente do que a frieza da vida, do que o enjôo estomacal, do que a gastura de lá, à noitinha, pingo a pingo, bem quando escurece a lua.

Os passos que entôo para além da soleira não significam nada a não ser o vago evidente de que pretendo sair. E saindo recolho os pés aos movimentos antes imobilizados, e, como quem retira-se de um curral, de uma tipóia, eu vôo, alcanço alturas inimagináveis sob os calos de um feixe de preto, quando, quase a partir, o telefone me toca. Nada ouço: decolo.

Gradativamente vejo a rua. As paralelas edificadas são valas e correntes inundando os bueiros da cidade que escolhi. Tapumes e estrados, como também sombrinhas, irrefletem o mau dia de canteiros movediços de frutas : todas tortas. Re-chove.

Sem o saber, e ainda prisioneira dessa porta, dessas pelancas em que me afogo, vou desacelerando os passos como quem teme verdadeiramente escorregar. O chão, meu inimigo, não se mostra de acordo com meus anseios plumosos, vagueantes, visionários, quase pipas. Comportando-se feito um dançarino, ele baba em meus pés, espezinha meus sapatos, oleoso, desejando a minha súbita derrocada no tempo ou em qualquer um que me atropele.

A rua dos meus sonhos não seria de modo algum confusa. Seria leve, primaveril, e carregaria, a patins inabaláveis, cada momento de mim. Por isso é que quando o momento-perna, resultado de uma série de impulsos anteriores, correlatos e soberbos, resolvesse se aprumar à luz de um degrau, todos os ares e voltas influiriam para que aquela etapa não se perdesse, não se deslocasse, e que sua finalização fosse um silêncio e não risos na rua superexposta.

A exposição a que me sujeito nessas fraturas, abertas e destelhadas, me atormenta a ponto de eu ficar inerte, não conseguindo sem custo viabilizar a possibilidade de momentos que me preenchem as horas. Sou, por isso, de fato e sem temer, uma viagem percorrida de momentos em seqüência, imbricados, e mesmo estando em pane e descontrolada, percebo o momento-cérebro que apurrinha o momento-nervo-ótico, desalinhando as variadas pálpebras de meu corpo, que quando não são olhos são poros ou xotas. Posso averiguar também a sucessão que foi descontinuada, essa, de momentos-auditivos, quando a profusão de buzinas cessou de, em mim, ecoar.

E essa rua, sem fim, de edificações e corpos, sem fim, que trafegam por peles e mucosas, sem fim, que perambulam por cáries, indicadores e virgens, sem fim, que se aconchegam nos músculos, vazios, engarrafados, sem fim, de avenidas e mundos e terras que, na verdade, são corpos, são poesias encarnadas em corpos – como o seu, como o meu, como o corpo molhado e ralo do leito de um rio, como a pele fétida do fosso, e a artéria sanguinária da ladeira que levanta a morte, em cheiros e perfumes que evadem de unhas, de concreto, de cinzeiros, engendrados então pelos restos de gente-animal."

sábado, 6 de junho de 2009

Verbo de hoje: Embarangar*** (no pretérito perfeito)

Eu embaranguei
Tu embarangaste
Ele/Ela embarangou
Nós embarangamos
Vós embarangastes
Eles/Elas embarangaram

*** Tornar-se baranga. Ver Baranga.

Manhã, tarde, noite e madruga (es)colhidas ao léu

Manhã
"Entre as partes da manhã que mais apreciava, se escondia o sibilo das aves, sobretudo o dos bem-te-vis, que se espalmavam junto à chegada do sol celebrando a benção da luz. A isso se seguia o olhar do tempo, lançado sobre toda a estrutura de seu corpo. Essa chamada, pungente e obscura, arrefecia as vozes que ressonavam por ali, fazendo com que a noite se antecipasse à manhã, e que outras palavras, bem mais tristes, se fizessem audíveis.

Ao contrário da claridade, esse torpor não vinha de fora, mas partia de dentro de si, alojando-se no cerne de seu peito. Era uma espécie vulto sorvendo o que nele havia de vivo, deixando-o, com o passar das horas, esgotado, em estado de desespero profundo. Um desespero mudo, baixo, cuja histeria há muito se dissipara, e que invariavelmente conduzia suas mãos aos músculos do rosto, distendendo-os, como se, dessa forma, pudesse reencontrar sua alma perdida".

Tarde
"Gostava das coisas mais disparatadas: Reznor e Smith. Gostava da praia e das estrelas, ambientes fechados e muito pouco arejados. Gostava da vida e de tudo que dela emanasse, fosse estrepitoso ou fosse manso, fosse cálido ou fosse a calota polar. Gostava dos marujos e das odisséias, assim como da luz estagnada que abrilhanta a existência no fim daquele espaço estreito, lúgubre, indesejado. Gostava dos chuviscos, do sol e das ribanceiras. Subia as montanhas pontiagudas para depois fazer rappel, contemplava as vidas, todas glamurosas, subjacentes a uma revoada de pássaros mortos. Reznor era, para ele, a outra face de Smith, ambos santificados, ambos diabólicos. Meu espirito arde pelo que já não quer, tenta, quer ficar aqui de pé, a postos, participando de toda essa balbúrdia pagã, reverenciando as formas, as formações, mas decola e decola e decola e se depreende a perder de vista. Não restando nada ou ninguém, ele vai para longe, vai para cima (ultra-leve...), e sobrevoa as cidadelas lacrimosas que choram um tráfego atribulado de rodas de jamantas. Meu espirito decalcado, míope já nada vê, mas sabe que está voando, porque sente o vento eriçando seus pêlos, os calafrios que causam as bruscas mudanças na temperatura, ouve (meu espirito ouve) o farfalhar das árvores mudas, apesar de estar parcialmente cego, aceso diante de neblinas, sobre essas montanhas pontiagudas, em meio a nevascas e degelos, meu coração se abriga, e feito um urso polar decide ruminar".

Noite
"Era uma história comprida. Tão comprida que Mariná optou por espicaçá-la, como se fizesse dela blocos de lembranças, como se nela nada estivesse ordenado de maneira cronológica, como se da tal história só restassem meros cortes desmemoriados de uma vida embriagada.

Seus leitores estavam todos bêbados, pondo-se a reler na verdade a existência de si próprios, que agora, traduzia-se de maneira apropriada sob olhares tortos e sem foco.

Eram quatro ou seis olhos, talvez multiplicados pelo desequilíbrio de si mesmos, flutuando num caldeirão borbulhante que emanava um forte odor etílico. Mariná revirava aqueles tocos de partes humanas que, invariavelmente, não hesitavam em encará-la.

Não era uma história comprida, era uma história quente e alucinada, repleta de olhares e indagações que a fitavam conforme mexesse o caldeirão. Era uma existência efervescente."

Madruga
"Assim, quando um choro pardo interrompeu a festa, ela se retirou. Um lamento que aos poucos se desfazia em lágrimas, como se uma pedra de gelo se abrigasse em seu peito. Mas por que? Ela mal sabia, embora se tratasse de algo que a acompanhara por todo esse tempo: Vinte e cinco anos, vividos distraidamente, como um eflúvio que se desloca ao sabor do instante.

Retirou-se. Foi ao banheiro e torceu o rosto sobre as roupas, tentando, em vão, segurar aquela torrente de falas que lhe escapava pelos cílios. A boca já não as depositava mais, e as mãos, crispadas, podiam tão só apreender a amargura que lhe tomava o corpo. Era como se farpas lhe fizessem cócegas.

Respirou e, dessa forma, resgatou o que ainda sobrava de si. Uma mulher franzina, mas que precisava, sobretudo, manter a serenidade. Engoliu a soma de lágrimas e retornou à sala. Lá estavam Lucy e Catalina, insípidas, deslumbrantes, deglutindo cada ovo de codorna que se arrolhava à exatidão da pasta de atum".

terça-feira, 2 de junho de 2009

.....ecos do quinto andar do céu....

"(...) E mesmo que eu, por algum motivo, um dia me distancie desse lugar, sei que jamais vou me perder novamente, pois é impossível esquecer esse caminho de volta pra casa que em mim foi marcado com tanta doçura, com tanto amor."

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Bureaufóbica

São Paulo é um baita escritório a céu aberto, desgovernado por leis civilizadas em desuso, onde tudo, basicamente, é trabalho, cafezinho e burrocracia - eu, particularmente, prefiro o binômio que sintetizou minha estadia desde então: correria-balada. Na verdade, preciso voltar para casa (home sweet home!), já passa das 22 horas. Casa? Vai dormir no escritório, chuchu. Sério: não se pode fazer porra nenhuma por aqui. Um dia quis fazer porra nenhuma e me dei mal: fiquei sem opção, já que é preciso sempre fazer qualquer coisa, mendigar atenção, produzir matéria pautável, entorpercer-se cultural ou etilicamente, transvestir-se de capacidade oral-fálica. Sinto falta daquele nada obeso, desbotado e esparramado tipicamente carioca que madrugava pelo ar. Ecos de O Retorno fundem minha cuca. Sem dúvida: um dos filmes mais prenhes de sentido que já vi e ouvi. Que motivos, afinal, levam alguém a comprar um óculos de dois mil reais? Os mesmos que levam alguém a comprar um de duzentos ou um de vinte no camelot. Não coloquem a culpa na Daslu. A lógica é a mesma: a do consumo voluntário consciente. Fudeu. Não acredito em inconsciente, em Freud, enfim, essas baboseiras redentoras do sujeito ativo. Preocupo-me com o que eu seria se eu não fosse quem eu sou. Discursos incoerentes rondam por aí aos borbotões - a começar pelo meu. Infelizmente, o ente "compra-compra" é quem dá as cartas nesta urbe sacal. Pacman, sacolas sacolejantes e só. É preciso fazer algo com o dinheiro que se ganha, né, meu? Ser. Sumir. Sonhar. Ou seremos interpelados por um odioso "para quê"? O que é uma merda belíssima e sem tamanho. Vide o Johannes. Vide o Miguel. No caminho até a cama, milhares de pessoas te bombardeaim com tudo quanto é tipo de produto inflamável: de solos de guitarra (como vi hoje na Paulista) à filosofia Hare... Triste é o trabalho infantil. Até quando vão permitir que crianças sejam expostas à piedade alheia? A cidade grande brasileira abriga a maior concentração de trabalho infantil do planeta. Crianças como instrumento de dor inflingida em seu coração yuppie maternal. Negligência. Como denunciar? A quem culpar? Já não há culpados... Eu quero ir para casa. Cansei. Casa? There's no place for us, baby. Ask Johannes. Ask the dust. I need to sleep. J'ai sommeil. Odeio o francês. Prefiro os russos. Amo loucamente os russos. Morrer em um duelo é muito punk. Existe, afinal, um liame espectral que conecta Puchkin (Deus) à musa Patti Smith. Um Cavalo de Bronze a Horses. Um mar de possibilidades a uma inundação em São Petersburgo. Johnny a Ievguieni. Mas isso é sublime e eu vou deixar para depois. Go Rimbaud! Carros só servem para engarrafar, causar acidentes e tolir o atleta nato: você. E, por aqui, já nos deparamos com os mártires da bike. Regressamos, veja só, à invenção da roda. E tudo que se propaga aos quatro ventos via descolados de plantão é como a descoberta (tardia) da pólvora. Talvez o mar em sua presença irrefutável e soberana nos confira um sentido de humildade que, no fim, é imprescindível. Não somos nada - ou porra nenhuma. Boa noite, amado. Escrevi demais - nada que preste. Des-leia.


terça-feira, 12 de maio de 2009

Surrada
Acho que fazia isso há alguns anos atrás. Agora não sei mais. Não quero. Desacostumei. Talvez fosse o costume de trair-se uma norma. Não sei mais separar uma coisa de outra que lhe parece tão própria, twins – desenredar, desentrelaçar, desvencilhar essa pele que virou subcutânea, esse cérebro que, desmazelado, bate no lugar do coração. E quando voltei daquela viagem longa à alma do mundo em que você me conduziu pelas mãos, olho no olho, ser-eno, quase um sobre dois, me deparei com essa surra a olhos vistos. Deixei-me surrar a carne. Açougue humano - um varal de corpos. Descosturei a sutura. O horizonte se fez precipício: não, não cheguei a cair. Mas foi só para ver. Essa coisa de “ver(tigem)” me seduz, embora já não queira mais - é sério. Não posso. Desacostumei. Talvez fosse o costume de se ver livre uma exceção. A neblina embaçava a dor do açoite. Éramos todos jovens e egoístas: kamikazes. Agora, a ferida se esgarça pela malha do tempo, exaurindo o presente até a surra. Puta surra! O que resta é lacônico, pontual e cíclico: esse “não sei. Não quero mais. Desacostumei”. Talvez fosse o costume de degolar-se uma norma. Talvez eu só quisesse fazer parte de um aparte no qual não houvesse para mim qualquer parte cabível. E talvez esse aparte onde não habita viv’alma seja a regra – e tolerar o degredo, a norma. Não quero mais nada disso, por mais que tenha sido cúmplice. Perdoem-me aqueles que (...). Já o dia amanhece, surrado, iluminando tudo, inclusive a dor.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Deixas

Agora está sol. Mas fazia 15°C quando saí hoje pela manhã.
Enquanto acelerava na pista de cooper do Ibira, semi-vazia, machucando meus tímpanos recém-despertos com guitarras sonoras, congelando minha pele já acostumada ao clima da megalópole megalouca, lembrava-me de coisas ditas.
Converso com tantas pessoas aqui em Esse Pê sobre uma pilha de coisas a todo tempo que depois não sei quem diabos disse o quê, e só me vem à mente as coisas ditas – ilhadas, perdidas, desconectadas de qualquer autoria.
Sem origem, sem destino, sem âncora.
Nesse espaço meditativo do correr, essas coisas me interpelam como pólvora: pérolas, centelhas, idéias sobressalentes; deixas que, à deriva, ecoam em meu oceano particular.
Imagino um mundo admirável: de idéias desapropriadas, sem donos, sem ego, sem nada; bailando no mar à espera (ou não) de um anzol.
Acho que alguém já disse isso. Acho que, no fim das contas, a vida é assim: uma profusão de coisas ditas (reeditadas).
Brecht disse que a "cópia" ou o "plágio" ou, enfim, a "propriedade", eram meros conceitos burgueses. Não sei. Bom para refletir. :-))))

domingo, 26 de abril de 2009

====Era só um sujeito fascinante====

Ficara cego, surdo, mudo. Uma nebulosa vagava impunemente a alguns milímetros de seus olhos, embaçando o vidro e, no entrechoque das pálpebras, ao invés de fazer chover (ou ver), impelia-o a se abrigar em uma caverna a milhas de distância dali. Era quando acendia a lamparina e ficava iluminando a dor. De resto,o brilho das luzes, o desencontro dos volumes, o tráfego de saiotes, os confetes – nada tirava-o daquela espécie de transe. Os ouvidos, por sua vez, levitavam ao encontro do silêncio, de modo que a algazarra feita pelas marchinhas, tocadas ao vivo por um desses grupos que surgem apenas em época de carnaval, lhe passava totalmente despercebida. Seus amigos, todos bebuns, jogados por aquele imenso salão de quatro ou cinco andares, haviam migrado para direções opostas a dele tão logo entraram. Deglutido pelo tumulto, não foi difícil para ele alcançar seu mais novo objetivo: perder-se – não para todo sempre, claro, mas só no intervalo temporal daquele porão de relâmpagos –, sem nem saber, aliás, o que diabos estava fazendo de pé. Driblou uma moça ou outra que lhe suplicou por um beijo apaixonado e acabou serenando invisível aos foliões em um corredor do segundo andar. Eu, que entrei em seguida, atrasada pela fila, procurava-o. Mas quando me vi em meio àquele bloco profético, depois que uma mocinha me deu um pedaço de papel, o qual prontamente amassei sem nem saber que se tratava da comanda, achei que jamais fosse vê-lo novamente – sendo que esse “jamais” era uma hipérbole para as próximas 12 horas ou 12 chopes. No entanto, ao subir alguns lances de escada, avistei-o. Pele branca, cabelos encaracolados e estatura mediana. Ele não queria se esconder. Na verdade, conseguira um espaço relativamente vazio para se instalar: ao lado do toilet. “Será que perdeu o olfato?” – pensei. Até aí – contei –, eram três sentidos primordiais que já lhe faltavam. Andei em sua direção e, sem opções, cutuquei seu ombro direito. Ops, quatro: o tátil. Lacei-me à sua frente e berrei: “Meu vestido preto ficou aí?”. “Como assim vestido preto?” Ele pareceu resmungar com o sobrecenho - embora, de fato, não tenha dito porra nenhuma. Estacionou suas pupilas em mim durante um bom tempo (como se eu fosse uma estranha), afiando lâminas, fazendo a carne sangrar e, incomodada, dei um passo para trás – Calma lá!... Adorava o jeito como ele me fitava – desbravador, titânico, sem receios, pronto para travar qualquer embate, pronto para dizer qualquer verdade, pronto para instaurar um novo regime onde nós, seus súditos, reportar-se-iam sem intermediários ao rei – o Bom, o Belo, o Ideal. Um arqueiro libanês do olhar. Com um golpe de vista, acertava em cheio, aniquilava, seduzia, tremeluzia até o curto-circuito. Era elétrico o que se passava por aquelas bandas, e se por acaso eu levasse aquilo adiante acabaria mastigando-o, comendo-o, lambuzando-me. Não sei exatamente como, mas ele sabia todos os crimes que eu não cometeria. Talvez por isso, magnético, invadisse-me feito um pênis adentra uma xota e fica por ali em standby alheio ao próximo take. Não. Nada disso. Era só um menino fascinante.



(Ela disse: "Vou atirar minha memória às picas!")