Deixas
Agora está sol. Mas fazia 15°C quando saí hoje pela manhã.
Enquanto acelerava na pista de cooper do Ibira, semi-vazia, machucando meus tímpanos recém-despertos com guitarras sonoras, congelando minha pele já acostumada ao clima da megalópole megalouca, lembrava-me de coisas ditas.
Converso com tantas pessoas aqui em Esse Pê sobre uma pilha de coisas a todo tempo que depois não sei quem diabos disse o quê, e só me vem à mente as coisas ditas – ilhadas, perdidas, desconectadas de qualquer autoria.
Sem origem, sem destino, sem âncora.
Nesse espaço meditativo do correr, essas coisas me interpelam como pólvora: pérolas, centelhas, idéias sobressalentes; deixas que, à deriva, ecoam em meu oceano particular.
Imagino um mundo admirável: de idéias desapropriadas, sem donos, sem ego, sem nada; bailando no mar à espera (ou não) de um anzol.
Acho que alguém já disse isso. Acho que, no fim das contas, a vida é assim: uma profusão de coisas ditas (reeditadas).
Brecht disse que a "cópia" ou o "plágio" ou, enfim, a "propriedade", eram meros conceitos burgueses. Não sei. Bom para refletir. :-))))
