Mostrando postagens com marcador Brecht. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Brecht. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 28 de abril de 2009

Deixas

Agora está sol. Mas fazia 15°C quando saí hoje pela manhã.
Enquanto acelerava na pista de cooper do Ibira, semi-vazia, machucando meus tímpanos recém-despertos com guitarras sonoras, congelando minha pele já acostumada ao clima da megalópole megalouca, lembrava-me de coisas ditas.
Converso com tantas pessoas aqui em Esse Pê sobre uma pilha de coisas a todo tempo que depois não sei quem diabos disse o quê, e só me vem à mente as coisas ditas – ilhadas, perdidas, desconectadas de qualquer autoria.
Sem origem, sem destino, sem âncora.
Nesse espaço meditativo do correr, essas coisas me interpelam como pólvora: pérolas, centelhas, idéias sobressalentes; deixas que, à deriva, ecoam em meu oceano particular.
Imagino um mundo admirável: de idéias desapropriadas, sem donos, sem ego, sem nada; bailando no mar à espera (ou não) de um anzol.
Acho que alguém já disse isso. Acho que, no fim das contas, a vida é assim: uma profusão de coisas ditas (reeditadas).
Brecht disse que a "cópia" ou o "plágio" ou, enfim, a "propriedade", eram meros conceitos burgueses. Não sei. Bom para refletir. :-))))

quinta-feira, 12 de março de 2009

O filhote de elefante

"POLLY - Para que a arte dramática possa ter pleno efeito sobre vocês, solicitamos que fumem o quanto quiserem. Os intérpretes são os melhores do mundo, as bebidas não são falsificadas, as cadeiras são confortáveis. Apostas sobre o desfecho da ação podem ser feitas no balcão do bar. A cortina de fim de ato fechará conforme as apostas do público. Pode-se dizer também não dar tiros no pianista, ele faz o melhor que pode. Quem não compreender logo a ação não precisa quebrar a cabeça: ela é incompreensível. Se desejam ver somente algo que tenha algum sentido, vocês devem se dirigir ao mictório. O dinheiro do ingresso não será devolvido em hipótese alguma. Aqui está o nosso camarada Jip, que tem a honra de interpretar o filhote de elefante. Se vocês acham que seu papel é difícil, eu lhes digo apenas isso: um artista de teatro deve ser capaz de tudo.

SOLDADO - Bravo!

POLLY - E aqui, Jesse Mahoney no papel da mãe de Jackie Pall, o filhote de elefante. E Uria Shelley, o maior conhecedor de hipismo internacional, que faz o papel da lua. Além disso, vocês terão ainda o prazer de ver eu mesmo, no importantíssimo papel de uma bananeira."

(...)

"SOLDADOS - Nós queremos nosso dinheiro de volta. - Encontrem para o filhote de elefante um final mais decente, ou vocês têm dois segundos para colocar todo o nosso dinheiro aqui em cima das mesas, ouviu, lua de Cooch-Behar!"

Trechos de "O filhote de elefante", apêndice para "Um homem é um homem", comédia de Bertolt Brecht.