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segunda-feira, 9 de maio de 2011

O tesão a priori é o nosso ato falho

Às vezes tudo desaparece e só sobra você. Às vezes tudo parece que perece, uma letra muda, e -------- Você (não eu) soçobra por entre quatro paredes, num aperto no peito que só, perto, pertinho, a despeito de um quarto oval, ¼ de merdas esmigalhadas, e não há nada pelo que valha a pena desenterrar uma pá de grilos, mastigar alface e ir à luta. O sacrifício não equivale a uma canção do Bowie. Space Oddity cantada pela Karen Carpenter. Lindo! Imagens redemoinham e, em seguida, na proa do sobressalente, um universo de favores me assaltam: pelas beirinhas, beiradas calhordas, embustes, sacrilégios. Refaço a literatura desonesta esculpida por pentes em lugar de canetas. Os cabelos se enroscam nos mamilos. A vaidade, como ele já disse, é tudo. Não estou falando de Deus, D’us (lacrimoso) ou de Mademoiselle Iolanda. É da memória de que vos falo. Da estupefação contida nesses momentos de intimidade não tida, do sexo imaginado, dos versos ditos, do segredinho que permanece entre nós dois apesar de sermos ambos casados à moda antiga e conservadores pra caralho. Exxxxxxxxxiste, sim, um subtexto tenso, um tesão a priori que é o nosso ato falho, e vou desmerecê-lo se não sair daqui, já que, por ora, pirei. Parei. Voltemos àquela... Àquela historinha da qual se faz roteiro tipo “û de sempre”.


Não tenho a mais vaga e imaculada idéia. Procuro o núcleo e só me resta o medo. Meus amigos são até pessoas descentes, filhos da classe média dos anos 80 que inundou a cidade com seus hábitos filisteus. Eu, amuada, e compelida pela conjuntura, cabe ressaltar, cotegei o russo com um idioma neutro e morri. Alhures, algures e, no hemisfério sul, multidões de refugiados em êxodo. “Tô cuma saudades famélicas de ti... de te namorar... de te devorar... Carentizei” – Foi o que ela lhe disse. Não tinha a mais vaga e imaculada idéia. Procurava o núcleo e só lhe restava o medo. Seus amigos eram pessoas descentes, filhos da classe média dos anos 80 que inundou a cidade com seus hábitos ridículos, homofóbicos, racistas. Mais uma vez, cotejou o russo com o italiano e partiu.
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domingo, 15 de novembro de 2009

Um rosto sem face

Sinto-me, agora, como um mujique malevitchiano - um rosto sem face.

Tenho dúvidas, na verdade, quanto a natureza desse ser: mujique ou proletário?

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Naquele dia, já era noite

Naquele dia, já era noite. Ela vinha tropeçando em cacos de pensamento: refugos de uma longa refrega. Bifurcou coisitudes que, ademais, não lhe serviriam de droga nenhuma. Algumas delas tomaram o rumo do texto ao lado, que emergia em paralelo, reclamando autoria distinta e escrito por um ghostwriter legítimo, desses que pululam aos montes em SP. Adentrou o apartamento com a sua cota de sandices, devidamente cotejada com o original em russo, sem nem suspeitar que já estivesse grávida há 20 dias, que um bisneto da Cândida nasceria dentro em pouco, que a toalha estava molhada sobre a cama – despencou do oitavo andar de suas idéias direto para o colchão. Sentiu estalar duas lágrimas uma noutra na escuridão da pálpebra fechada. Pálido cansaço de não ir a lugar nenhum, de desejar além do seu o querer alheio, “todos juntos e de mãos dadas, atadas”, o querer alheio pleno de dignidade e compostura: bondade. Pessoas perdem tudo que têm de “pessoa” por causa de míseros R$ 100. Que verdade limítrofe em torno da qual sofrer e chutar toda e qualquer esperança no que quer que seja o ser. Não há escolha. Hamlet, para ela, soou como um risível desvario nefelibata.

Tristes trópicos – agora em outra pegada. Como diz a Zazie: “Meu cú” – o que, apesar de lacônico, significa: meu cú é bem mais limpo do que essa imundície toda.

Continua aqui.

sábado, 7 de novembro de 2009

O querido e figuraça FeFi (Felipe Filósofo)

Felipe Filósofo, além de ser mestre em filósofia pela UERJ, professor da citada matéria, especialista em Hume, Deleuze, Nietzsche (eu sempre empaco escrevendo isso), Sócrates e o diabo a quatro, também é sambista (um baita de um sambista da melhor lavra!). E, claro, é quase um amigo de infância, quase um irmão (!). Estudamos juntos na UERJ lá pelos idos dos anos dois mil e qualquer coisa. Eu fugi do hospício pois já estava matriculada em outro (a UFRJ) - ele continuou lá e hoje está ingressando no doutorado. Um orgulho para mãe e certamente para o pai - já falecido. Nunca me esqueço de ter levantado bandeirinhas e saltitado na quadra da Viradouro para torcer pro samba do Fefi que, dada à contumaz marmelada, não ganhou. Depois Fefi viria a implacar vários sambas em diversas escolas: da Acadêmicos do Rio do Ouro a Unidos da Região Oceânica. Legal. Impossível, entretanto, é conversar com o Fefi por meia hora sem que ele comece a atazanar a paciência alheia com seu repertório criativo e interminável, eu diria, de "putaria" de toda ordem. É preciso ser muito tolerante. Freud diria que ele pulou a fase oral. Eu diria que ele não consegue sair da Grécia e de seus bacanais. Na época da faculdade poderia até ter rolado um "caso" entre eu e Fefi (embora ele fosse batante tímido), mas hoje é impossível devido ao seu vocabulário de baixíssimo nível, que foi se escrachando e lapidando derivadas ao longo dos anos, digno de um cafetão da Vila Mimosa (Putz, não rola...). Enfim, o Fefi é tarado - normal. Sempre quando venho ao Rio dou uma ligadinha pra ele, pois, por incrível que pareça, Fefi também saca muito de filosofia e sempre me ajuda a coletar bibliografia adequada a minha dissertação sobre o Tolsta. Ontem, conversando com o Fefi, eis que ouço uma pérola daquelas:

Abre aspas -

Eu: Mas... Fê, você já participou de alguma orgia?

Fefi: Não. Não participei. Esse é meu trauma.

Fecha aspas.

Ah, Fefi e seu sexo verbal... Vou presenteá-lo com a Playboy da Fernanda Young.


Fefi na sala de aula (o que ele leva muito a sério!) matutando após ter escrito na lousa qualquer coisa sem cabimento. Um sábio. Amo você, Fefi!!! Figura-mor.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O dia parte – e já é tarde

Era manhã. E guardava pra ti, por entre os cômodos da casa, a pedalar de saias, como quem aguarda o passo que vem na contramão, mastigando as sandálias no piso, o dia. Fantasiei-me de sonsa para ver-te, amor. Contudo, o dia parte – e o que chega já é tarde. Tu não vieste? Eis que o tempo retalha e ri, maltratando a fatia que guardei toda faceira pra ti.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Da série: sinceridade gauchesca (!)

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Eu: Mó legal "tu" ter vindo Gauchinho. Não esperava. Por que "tu" veio???

Gauchinho: Bah. Por que eu não tinha nada pra fazer.

Nothing to daclare.

domingo, 26 de julho de 2009

Ele reproduzia, sem o saber, todos os males que acreditava odiar...

O único mal da sociedade capitalista, essa que fingimos odiar, porque é legal gostar de Marx e Che Guevara, é transformar o ser humano em coisa. Todas as relações grotescas que essa sociedade que fingimos odiar produz e, com a ajuda de todos os seus membros, reproduz ad infinitum, culminam na porca da desumanização.

Então lembrei daquela história. A do sujeito, a do homem, ouso dizer, que foi, a princípio, muito gentil com Mariana por que queria usá-la como remédio para curar algumas feridas adquiridas no hiato da solidão. Como lá pelas tantas, a coisa, a Mariana, não serviu a contento, ele, claro, a jogou no lixo, como cartela vazia que era. Só que ele não sabia, pobrezinho: Mariana não era uma coisa, Mariana era um ser humano. Só que ele não sabia, pobrezinho: Mariana era, sim, tão ser humano quanto ele. Só que ele não sabia, pobrezinho: que, ao tratar as pessoas como coisas, ao tratar Mariana como coisa, ele reproduzia toda a dinâmica social (capitalista, cretina, individualista, desumana) que julgava odiar e lutar na direção contrária. Eram nesses “pequeninos” gestos, mais do que em qualquer outro tipo de ação – Mariana pensava depois, sentindo-se infeliz por acreditar no homem – que o homem, ouso dizer, abastece toda a engrenagem que finge odiar, transformando pessoas em coisas consumíveis ao inserí-las na lógica do capital. Afinal de contas, nessa sociedade que amamos odiar, tudo é (não é?) produto, coisa, consumo, superfície, função, troca, lixo – a começar (e a acabar) nas relações humanas. Só que ele não sabia, pobrezinho, tão preocupado que estava com o próprio umbigo, de nada disso.

Ocupe e resista Mariana. Continue acreditando no ser humano. Eu também acredito...

sábado, 11 de julho de 2009

debandada de chimps, vida e milagre

É possível que nada disso faça o menor sentido. Não faz, ora pois, нет. Mas fez, ali (... ...), de repente, e qualquer hiato luminoso em mim se delineou (O), quando avistei manadas trôpegas de búfalos e elefantes-gados em plena savana africana: sedentos, enlameados, aproximando-se, enfim, do leito do rio que irrigando o solo no bojo da aridez perene tudo (tudo!) inundou. Levava consigo cardumes, antílopes, aves, crocodilos, devastando a morte ao sabor de ramalhetes de lírios de cujas pétalas saltavam rãs pintadas à mão deficiente ou gramíneas que, esguias, perfuravam o liso tapete d'água. Debandada de chimps, vida e milagre.

Bufalada: manada de búfalos na plácida savana africana.

Até onde eu sei, a razão, essa coisa que nos difere dos animais, e a qual tanto apreço devotamos, é também o que nos confere a capacidade de escolha. O tal do livre arbítrio. No entanto, pensava cá comigo: "Sob um determinado prisma, a razão nos torna pior do que os animais, uma vez que passamos a negar irresponsavelmente o que nos é natural e, por sua vez, naturalizamos, encantados, o artificial". Daí, quando o natural que há muito desnaturalizamos (mas que é o real e, portanto, o que existe) nos surpreende no cotidiano, não sabemos com ele lidar ou dialogar. Simplesmente não o suportamos. Ele nos soa estrangeiro, alheio, caro, irreal. Eis que, por exemplo, nos intercepta a morte, a mais natural das contingências da vida. A partir do momento em que forjamos o luto (leito) no qual ela deságua, obviamente sem o saber, imperializamos o ego, centralizamos o eu, destronamos o outro e, nesse arcabouço asfixiante, os habitantes da savana já não podem pressentir a vida que se achega em desbunde e sem alarde. Silente. Perdemos, assim, o faro dos elefantes, dos búfalos, das gazelas, regredindo a uma razão "divina" e ingrata, alheia ao manancial dos arredores que, miraculosamente, tão logo a seca vingue, apruma-se no deserto.

A natureza inventada racionalmente, de acordo com leis sobretudo científicas, humanas, atrofia nosso olhar de lince e converte em traumas inefáveis o que a outros seres é o comum - visto que inseridos no contexto de suas comunidades. Naturalizar processos equivocados (egocêntricos) pode render ao homem fraturas irreparáveis - e fatais. Não por que redundam na morte, mas por que deslocalizam-na, bem como a incontáveis outros elementos de um curso genuíno, normal. A seca, não raro, faz parte do bem viver.

Não é só a nível da baleia que golpeamos o natural. É, sobretudo, no perímetro cotidiano, urbano - esse que a duras penas nos suporta.

O passo dos elefantinhos... 1, 2, 3, devagarinho quase parando. Um vai cheirando o rabo do outro que, inevitavelmente, fede. :-)

PS: Isso não tem absolutamente nada a ver com Rousseau ou com qualquer corrente ambientalista ecochata. Eu tava vendo Discovery Channel da janela aqui de casa...

domingo, 5 de julho de 2009

Gringo Motel - mistureba cool!!!

Ando fugindo de misturebas-ebas muito perebas - afinal de contas, parece muito fácil pegar um negocinho ali, outro aqui, mais um tanto acolá, bater tudo e enfiar pela sua goela abaixo, sim, pela sua, que adora esquisitices musicais perfumadas a folclore. Mas a banda estadunidense Gringo Motel, que está no seu terceiro álbum, o "El Pinko de Gallo" (lançado em 19 de junho), até que manda bem bem. Gostei. Adorei. Bom pra ouvir, assim, domingo de manhã. Ou de tarde. Entonces, endominguem-se.

Sobre (copiado e colado do myspace):
"The southwest is alive in Philadelphia!
Gringo Motel is a desert twang, instrumental surf band with excursions into mariachi, ambient landscapes, David Lynch, circus music, and outsider art. Their desolate resonance of somber tunes invoke reality as a picture show.
Founded in 1999 by multi instrumentalist, engineer, and artist Tom Scheponik as a project combining art and music. The idea of the project was to have different people stopping by and staying for a while with no commitment. A demo of was recorded in 2001. That idea turned into the first full length album "
Return of El Lobo" (Feb 2005). The album is a tale about a love triangle between a matador, a rooster, and a bull told from the point of view of an uneducated child painter. August 2006, Gringo Motel releases their second album, "Shower Music for the Insane" with even more tales of love, betrayal and revenge. Songs about being so obsessed with something that you can't the whole picture".




Receita boa!
Para ouvir mais:
http://www.myspace.com/gringomotel
http://www.gringomotel.com/

terça-feira, 16 de junho de 2009

"O mar quando quebra na praia é bonito..."



"O bem do mar é o mar, é o mar, é o mar..."

terça-feira, 2 de junho de 2009

.....ecos do quinto andar do céu....

"(...) E mesmo que eu, por algum motivo, um dia me distancie desse lugar, sei que jamais vou me perder novamente, pois é impossível esquecer esse caminho de volta pra casa que em mim foi marcado com tanta doçura, com tanto amor."

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Bureaufóbica

São Paulo é um baita escritório a céu aberto, desgovernado por leis civilizadas em desuso, onde tudo, basicamente, é trabalho, cafezinho e burrocracia - eu, particularmente, prefiro o binômio que sintetizou minha estadia desde então: correria-balada. Na verdade, preciso voltar para casa (home sweet home!), já passa das 22 horas. Casa? Vai dormir no escritório, chuchu. Sério: não se pode fazer porra nenhuma por aqui. Um dia quis fazer porra nenhuma e me dei mal: fiquei sem opção, já que é preciso sempre fazer qualquer coisa, mendigar atenção, produzir matéria pautável, entorpercer-se cultural ou etilicamente, transvestir-se de capacidade oral-fálica. Sinto falta daquele nada obeso, desbotado e esparramado tipicamente carioca que madrugava pelo ar. Ecos de O Retorno fundem minha cuca. Sem dúvida: um dos filmes mais prenhes de sentido que já vi e ouvi. Que motivos, afinal, levam alguém a comprar um óculos de dois mil reais? Os mesmos que levam alguém a comprar um de duzentos ou um de vinte no camelot. Não coloquem a culpa na Daslu. A lógica é a mesma: a do consumo voluntário consciente. Fudeu. Não acredito em inconsciente, em Freud, enfim, essas baboseiras redentoras do sujeito ativo. Preocupo-me com o que eu seria se eu não fosse quem eu sou. Discursos incoerentes rondam por aí aos borbotões - a começar pelo meu. Infelizmente, o ente "compra-compra" é quem dá as cartas nesta urbe sacal. Pacman, sacolas sacolejantes e só. É preciso fazer algo com o dinheiro que se ganha, né, meu? Ser. Sumir. Sonhar. Ou seremos interpelados por um odioso "para quê"? O que é uma merda belíssima e sem tamanho. Vide o Johannes. Vide o Miguel. No caminho até a cama, milhares de pessoas te bombardeaim com tudo quanto é tipo de produto inflamável: de solos de guitarra (como vi hoje na Paulista) à filosofia Hare... Triste é o trabalho infantil. Até quando vão permitir que crianças sejam expostas à piedade alheia? A cidade grande brasileira abriga a maior concentração de trabalho infantil do planeta. Crianças como instrumento de dor inflingida em seu coração yuppie maternal. Negligência. Como denunciar? A quem culpar? Já não há culpados... Eu quero ir para casa. Cansei. Casa? There's no place for us, baby. Ask Johannes. Ask the dust. I need to sleep. J'ai sommeil. Odeio o francês. Prefiro os russos. Amo loucamente os russos. Morrer em um duelo é muito punk. Existe, afinal, um liame espectral que conecta Puchkin (Deus) à musa Patti Smith. Um Cavalo de Bronze a Horses. Um mar de possibilidades a uma inundação em São Petersburgo. Johnny a Ievguieni. Mas isso é sublime e eu vou deixar para depois. Go Rimbaud! Carros só servem para engarrafar, causar acidentes e tolir o atleta nato: você. E, por aqui, já nos deparamos com os mártires da bike. Regressamos, veja só, à invenção da roda. E tudo que se propaga aos quatro ventos via descolados de plantão é como a descoberta (tardia) da pólvora. Talvez o mar em sua presença irrefutável e soberana nos confira um sentido de humildade que, no fim, é imprescindível. Não somos nada - ou porra nenhuma. Boa noite, amado. Escrevi demais - nada que preste. Des-leia.


terça-feira, 12 de maio de 2009

Surrada
Acho que fazia isso há alguns anos atrás. Agora não sei mais. Não quero. Desacostumei. Talvez fosse o costume de trair-se uma norma. Não sei mais separar uma coisa de outra que lhe parece tão própria, twins – desenredar, desentrelaçar, desvencilhar essa pele que virou subcutânea, esse cérebro que, desmazelado, bate no lugar do coração. E quando voltei daquela viagem longa à alma do mundo em que você me conduziu pelas mãos, olho no olho, ser-eno, quase um sobre dois, me deparei com essa surra a olhos vistos. Deixei-me surrar a carne. Açougue humano - um varal de corpos. Descosturei a sutura. O horizonte se fez precipício: não, não cheguei a cair. Mas foi só para ver. Essa coisa de “ver(tigem)” me seduz, embora já não queira mais - é sério. Não posso. Desacostumei. Talvez fosse o costume de se ver livre uma exceção. A neblina embaçava a dor do açoite. Éramos todos jovens e egoístas: kamikazes. Agora, a ferida se esgarça pela malha do tempo, exaurindo o presente até a surra. Puta surra! O que resta é lacônico, pontual e cíclico: esse “não sei. Não quero mais. Desacostumei”. Talvez fosse o costume de degolar-se uma norma. Talvez eu só quisesse fazer parte de um aparte no qual não houvesse para mim qualquer parte cabível. E talvez esse aparte onde não habita viv’alma seja a regra – e tolerar o degredo, a norma. Não quero mais nada disso, por mais que tenha sido cúmplice. Perdoem-me aqueles que (...). Já o dia amanhece, surrado, iluminando tudo, inclusive a dor.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

O violão elétrico do Johannes (House of the rising sun)

Vi Johannes pela primeira vez na Paulista, bem próximo ao Paraíso. Ele tocava e cantava House of the Rising Sun do The Animals no violão e tinha uma placa dependurada ao pescoço: “Dou aulas de italiano”. A figura, a situação e tudo o mais me impressionou. Ele tocava muito bem essa que é uma das músicas preferidas de muita gente, era super alto, tinha uma fisionomia intrigante, uma altivez alemã, um quê de Max von Sidow, usava paletó, calça, sapatos e blusa social quadriculada, e estava em um lugar pelo qual ninguém passava. Não parecia ligar para o que quer que fosse. Depois de muito tempo, vi Johannes com uma flauta. Ele fazia a mesma coisa: tocava-a – só que dessa vez estava em frente à Reserva Cultural, embora também não se detivesse em nada além da flauta. “Tudo bem” – pensei. Semanas depois disso, vi Johannes por uma terceira vez: vendendo sorvete na Brigadeiro. Comecei a rir. “Um personagem!” – pensei. Me pareceu meio louco associar aquele mesmo sujeito grandalhão que cantava The Animals a esse que agora empurrava todo desengonçado um mini-carrinho de sorvete pelas ruas. Resolvi que da próxima vez que o visse iria procurar saber. Saber o que? Qualquer coisa. Sei lá, gosto de “saber” das pessoas – e isso às vezes me coloca em péssimos lençóis. O fato é que hoje vi Johannes ali por perto do Extra, o supermercado, e fui falar com ele. Ele parou o que estava fazendo e, logo que eu comecei a fuzilá-lo com perguntas, disse para eu ter calma e, em seguida, confirmou minhas suspeitas: era alemão, tinha morado nos EUA e acabou vindo para o Brasil com os pais que eram missionários evangélicos – embora não se desse bem com eles, com o resto da família e não tivesse amigos. Viu minha bolsa da USP e perguntou se eu estudava lá. Eu disse: “Sim”. E ele: “Não gosto de pessoas que estudam na USP”. E emendou: “Não gosto de pessoas. (...) Elas só querem saber de beber, falar de mulher e futebol”. Depois disse que, apesar de eu estudar na USP e ter onde morar, ele poderia ser mais inteligente e feliz do que eu. Eu disse que não estava competindo com ele para saber quem era mais ou menos inteligente ou mais ou menos feliz – eu só queria conhecê-lo. Pedi desculpas por incomodá-lo. Ele relaxou um pouco, me deu uns livretinhos da Igreja Anglicana e disse que precisava de R$ 1,00 para acessar a net. Eu dei a “grana” e fui acompanhando o cara Brigadeiro abaixo. Foi aí que contei da vez que o vi tocando The Animals na Paulista. Ele riu. Disse que isso fazia muito tempo (realmente!) e que haviam roubado o violão dele na esquina da Penha com a Brigadeiro numa noite dessas. Quando acordou, o violão elétrico que o pai lhe dera de presente não estava mais lá.

Putz, o Johannes é um daqueles caras dos mais estranhos, complexos, totalmente inaptos a viver em sociedade, no entanto de uma lucidez infame – visto que não é difícil se identificar com seu modo à margem e misantropo de agir. Talvez falte a ele aquele fixador** ao qual o Jean Cocteau alude; além, é claro, das bilhares de questões religiosas que, literalmente, acometem o cara como uma doença. Não estou mesmo a fim, na verdade, de refletir sobre o Johannes (quem sou eu?); isso foi só um relato. Ocorre que o Johannes – que é aquilo que nós nos acostumamos a chamar de mendigo e, categorizando, colocar tudo dentro do mesmo saco – não gosta de gente mas se amarra em música (bom, ele disse que nem tanto...). Enfim, people, roubaram o violão do cara e, assim, quem tiver um sobrando em casa, largado às traças, esquecido em um cantinho, por favor, deixe pro Johannes ali na Igreja Anglicana (ou Americana, não sei ao certo) perto do Extra da Brigadeiro, onde, acredito eu, alguém deve conhecê-lo. Valeu. Acho que ele vai gostar.(Ah, ele também quer se casar com uma norte-americana que o leve de volta para a América...).

** "Existe no homem uma espécie de fixador, quer dizer, de sentimento absurdo e mais forte que a razão, que o faz encarar essas crianças brincando como uma raça de anões, em vez de um bando que grita: “ sai da frente que atrás vem gente.”
Viver é uma queda horizontal.
Sem esse fixador, uma vida sempre atenta à sua própria velocidade se tornaria intolerável. Ele permite que o condenado a morte durma.
Careço desse fixador. Imagino que seja uma glândula enferma. A medicina encara essa enfermidade como um excesso de consciência - uma vantagem intelectual.
Os outros sempre me dão provas do funcionamento desse fixador ridículo, tão indispensável quanto o hábito que nos dissimula a cada dia o horror de ter que levantar, fazer barba, pôr roupa, comer. Algo assim como o álbum de fotografias, fruto de um dos instintos mais bizarros que nos leva a fazer de uma pirueta uma seqüência de monumentos solenes.
O ópio me proporcionou esse fixador. Sem ópio, projetos como casamento, viagens, me pareciam loucura igual a de alguém que despencando pela janela, ao passar pelas janelas dos quartos abaixo desejasse se tornar íntimo de seus ocupantes". Jean Cocteau

segunda-feira, 4 de maio de 2009

to dine, alone
to build a private zone
or trigger a synapse
and free us from our traps

Entregar-se com devoção a tudo aquilo que se ama - e só.

domingo, 3 de maio de 2009

Minha virada antes da virada: fogo, pop francês, Augusta e cítara!

Como do dia 1 pro dia 2 eu virei – e virei водка, e virei louca³, virei la nuit e virei até os olhos – não consegui ver quase nada na tal da virada cultural, e muito menos, claro, “virá-la”.
Contudo, foi na bala(vira)da da noite anterior que a “maior cidade do multiculturalismo mundial” se descortinou para mim em todo seu esplendor. Sem sombra de dúvidas, os franceses foram de fato os grandes protagonistas da virada cultural, já que o pouco que pude ver na sexta foi sublime: a Cie Carabosse e sua sensacional instalação de fogo que tomava conta de todo Parque da Luz com esculturas de chama enquanto, ao fundo, músicos davam o tom narcotizante. Perfeito. A Andrea ficou apaixonada pelo Pyro-Psycho-Delic-Guitar-Fire-Man. Foi duro tirá-la de lá. Depois, dando continuidade ao clima francês que imperava, partimos para ver o Les Provocateurs (Edgard Sacandurra, Andrea Merkel, Juliana R., Bárbara Eugênia e Alex Antunes) no Berlin detonando pérolas da música francesa em versões sensacionais. Muito fofo. Estou esperando o “gauchinho” ou o "gauchão" me enviar as fotos para eu postar aqui. Mas a noite não acabou por aí! Não. Depois de passar naquele tal de Love Story - uma espécie de "Via Show" paulistano - só para usar o toilet (ser mulher às vezes é foda!), fomos para a Augusta. Aí fudeu. A concentração de lunáticos chega a níveis bem altos por metro quadrado. O que eu posso dizer é que entramos num porãozinho infernal onde eu pude bater cabeça ao som de Killing in The Name do Rage Against The Machine (quanto tempo eu não ouvia isso: mucho bom!!!) e, para terminar, um pardieiro perdidaço chamado Bar da Galega. Lindo. Lembro-me de ter ficado cantando “Raul” com dois figuras que iam pro Largo do Arouche na sequência. Nossa, a noite de Sampa, em sua diversidade eclética e quase utópica, é realmente imbatível, surpreendente e perigosa se você for do tipo kamikaze. O que não é o meu caso, obviamente. Eu nem bebo.

Pra não dizer que eu não vi nada da virada propriamente dita, fui ver o maluco do Marsicano tocar cítara e falar as abobrinhas de sempre meia-noite na Casa das Rosas. Entre peças clássicas indianas, ele mandou Black Sabbath, Raul, Beatles, The Doors, Led Zeppelin e Vinicius. Só faltou Coltrane. Do físico ao metafísico, que belo instrumento...



quarta-feira, 29 de abril de 2009

Razões para odiar a tecnologia * **

"O ideal imaginário da vida que arrisca tudo se opõe ao ideal prático da segurança contra todos os riscos. O ideal do justiceiro ascético se opõe ao ideal do pai de família satisfeito, o ideal da luta se opõe ao ideal das aventuras do bem-estar, o ideal do estado natural se opõe ao ideal do conforto da técnica".

Edgar Morin

A tecnologia, essa que vos fala de inúmeras formas, é só mais um meio que algumas pessoas encontraram de “funcionar” (ou seja, exercer funções) melhor nessa sociedade de avestruzes, como elevadores ou essas coisas robóticas que simplesmente “funcionam” automatizadas, sem dar satisfação de nada a ninguém. E não são, como poderíamos pensar, operadas por seres humanos, são programadas por um bando de vigaristas, o que é muito diferente. Um relógio que é programado para tocar às seis horas da manhã, vai tocar às seis horas da manhã – e isso independe do estado como você estava quando cruzou a porta de casa às cinco. Se, por outro lado, ele é operado humanamente, você vai acordar no momento que lhe for mais conveniente. Operar sugere que haja uma mão humana toda vez que se exerce uma ação; já programar é totalmente desumano, é funcional, é potencializar a máquina. Vivemos em uma sociedade de máquinas e, de cada vez mais, pessoas programadas ( já que peças desse meio-de-produção) – e que se dane o fator humano de qualquer coisa. Adapte-se. A porta do metrô fecha em 10 segundos – e a moça que prendeu o salto no vão e vai ser levada pelo arranque do motor? Foda-se.

A sociedade industrial foi se tornando com o passar do tempo essencialmente programada, mecânica, alheia ao humano de qualquer coisa, e as pessoas, com seus brinquedinhos celulares e i-phonicos, entraram nessa onda. Por inúmeros motivos, que você não faz idéia, alguém que no tête-à-tête te trata como um anjo e com quem você jura que tem uma sintonia peculiar, programa o celular para não receber mais ligações suas – e que se foda você e os motivos do por que você está ligando para ela. Ela se programou, através da tecnologia, para não te atender, para te descartar solenemente, para esquecer que você existe, coisificando-o como uma peça que já não lhe serve – e agora, ao invés de perdemos o braço na geringonça de prensar frigideiras, perdermos parte de nossa alma em meio a essa horda de desalmados, de pessoas que temem o encontro, o humano. É paradoxal, mas a tecnologia só criou mecanismos de encontro que, em determinados contextos, só favorecem o desencontro. Contudo, esse cinismo todo nos parece muito natural, pois a timidez pequeno-burguesa a tudo redime, o comodismo de apertar um botão nos faz senhores de nosso próprio nariz ao vivenciar uma pseudo-liberdade hiper-equivocada, e perdemos, nesse rastro, a capacidade de compartilhar o que quer que seja com o próximo, de encará-lo olho no olho e sofrer as conseqüências desse ato, de dar a cara à tapa. Nos programando, nos livramos, assim, do que nos parece, pelo menos no espaço imediatista da ligeireza da máquina urbana, inútil ao caráter funcional do ser. E não somos mais, apenas funcionamos enclausurados, isolados do outro e das normalíssimas relações conturbadas e febris que com ele se trava, esquecendo que a “única” coisa que de fato existe nessa porra de mundo é isso: o outro; que a mais linda paisagem é a do rosto humano; que a arte, o trabalho, e tudo mais que fazemos, existe somente em função das pessoas – aquelas das quais fugimos propositalmente e temerosos de que percebam essa fuga ou venham nos perguntar: por quê?

Tem gente que tem medo de gente por aqui (Esse Pê) . Eu, particularmente, acho isso estranhíssimo e inusitado. Hoje muita gente não atende o celular quando vê, em função do advento da bina, que é um tal fulano que está lhe telefonando e com o qual ela não quer falar sabe-se lá porquê. Será que essa mesma pessoa expulsaria esse fulano de sua casa e bateria a porta na cara dele? Não sei. Mas bate o flip. A tecnologia transformou um bocado de pessoas (e me desculpem as que não se enquadram nessa lógica e que usam os apetrechos high tech para o bem) em hipócritas resignados. Isso me perturba bastante. Vou me mudar para Iasnaia, para uma aldeia indígena, para um lugar interiorano onde não haja bina, msn e no qual se possa confiar, verticalizar as relações. Ou ficar por aqui - ocupando e resistindo.

*Texto levemente inspirado na aula do Sérgio de Carvalho.
** Texto escrito no ápice da TPM.

domingo, 26 de abril de 2009

====Era só um sujeito fascinante====

Ficara cego, surdo, mudo. Uma nebulosa vagava impunemente a alguns milímetros de seus olhos, embaçando o vidro e, no entrechoque das pálpebras, ao invés de fazer chover (ou ver), impelia-o a se abrigar em uma caverna a milhas de distância dali. Era quando acendia a lamparina e ficava iluminando a dor. De resto,o brilho das luzes, o desencontro dos volumes, o tráfego de saiotes, os confetes – nada tirava-o daquela espécie de transe. Os ouvidos, por sua vez, levitavam ao encontro do silêncio, de modo que a algazarra feita pelas marchinhas, tocadas ao vivo por um desses grupos que surgem apenas em época de carnaval, lhe passava totalmente despercebida. Seus amigos, todos bebuns, jogados por aquele imenso salão de quatro ou cinco andares, haviam migrado para direções opostas a dele tão logo entraram. Deglutido pelo tumulto, não foi difícil para ele alcançar seu mais novo objetivo: perder-se – não para todo sempre, claro, mas só no intervalo temporal daquele porão de relâmpagos –, sem nem saber, aliás, o que diabos estava fazendo de pé. Driblou uma moça ou outra que lhe suplicou por um beijo apaixonado e acabou serenando invisível aos foliões em um corredor do segundo andar. Eu, que entrei em seguida, atrasada pela fila, procurava-o. Mas quando me vi em meio àquele bloco profético, depois que uma mocinha me deu um pedaço de papel, o qual prontamente amassei sem nem saber que se tratava da comanda, achei que jamais fosse vê-lo novamente – sendo que esse “jamais” era uma hipérbole para as próximas 12 horas ou 12 chopes. No entanto, ao subir alguns lances de escada, avistei-o. Pele branca, cabelos encaracolados e estatura mediana. Ele não queria se esconder. Na verdade, conseguira um espaço relativamente vazio para se instalar: ao lado do toilet. “Será que perdeu o olfato?” – pensei. Até aí – contei –, eram três sentidos primordiais que já lhe faltavam. Andei em sua direção e, sem opções, cutuquei seu ombro direito. Ops, quatro: o tátil. Lacei-me à sua frente e berrei: “Meu vestido preto ficou aí?”. “Como assim vestido preto?” Ele pareceu resmungar com o sobrecenho - embora, de fato, não tenha dito porra nenhuma. Estacionou suas pupilas em mim durante um bom tempo (como se eu fosse uma estranha), afiando lâminas, fazendo a carne sangrar e, incomodada, dei um passo para trás – Calma lá!... Adorava o jeito como ele me fitava – desbravador, titânico, sem receios, pronto para travar qualquer embate, pronto para dizer qualquer verdade, pronto para instaurar um novo regime onde nós, seus súditos, reportar-se-iam sem intermediários ao rei – o Bom, o Belo, o Ideal. Um arqueiro libanês do olhar. Com um golpe de vista, acertava em cheio, aniquilava, seduzia, tremeluzia até o curto-circuito. Era elétrico o que se passava por aquelas bandas, e se por acaso eu levasse aquilo adiante acabaria mastigando-o, comendo-o, lambuzando-me. Não sei exatamente como, mas ele sabia todos os crimes que eu não cometeria. Talvez por isso, magnético, invadisse-me feito um pênis adentra uma xota e fica por ali em standby alheio ao próximo take. Não. Nada disso. Era só um menino fascinante.



(Ela disse: "Vou atirar minha memória às picas!")

sexta-feira, 24 de abril de 2009

"A vida, meu amor, é uma grande sedução onde tudo o que existe se seduz."
CL

Dando voltas indecisas e imprecisas pelas ramificações do bocejo, desmaio. Canto. Avento um sol. Sustento um mi. Mi leva, mi perturba, mi come. Voe por cima da pianola e tome o lugar do acorde – que, há muito, já é seu.

sábado, 18 de abril de 2009

(((((((A "polêmica" do Touro Catalão)))))))

"Cada um de nós é culpado perante todos, por todos e por tudo".

F. Dostoiévski

Minha relação com os animaizinhos domésticos é nula. Quando um cachorrinho de um amigo meu morre eu não sinto absolutamente nada. Ou, pensando bem, um certo alívio de não ter mais que aturar as lambidas incovenientes daquele ser quadrúpede toda vez que vou visitá-lo. Lembro-me de quando o pitbull insuportável de um ex-namorado pulou o muro de dois metros de altura da casa dele e deu linha. Ufa!... Não compartilhei da comoção do resto da família. Aquele bichinho terno, mais cedo ou mais tarde, ia acabar cravando seus dentes afiados em alguém. Dia desses, entretanto, hesitei bastante meu pé antes de esmagar uma barata das mais asquerosas. Juro que passou pela minha cabeça: "É uma vida!". O mesmo tem acontecido, invariavelmente, com as formiguinhas-operárias. Elas são uma graça. Será que estou me tornando uma jainista (!) das mais radicais?

Na verdade, se "comunicar-se" é sair de si mesmo e "entrar em comum" com o outro, partilhando o que há de semelhante, que tipo de comunicação eu posso estabelecer com um cachorrinho além do óbvio ululante de que tanto eu quanto ele estamos vivos? Bom, o fato é que essa me parece uma comunicação muito básica, demasiado sutil, quase etérea, "telepática" e, sinceramente, admiro as pessoas que amam seus bichinhos e decodificam sua linguagem. Não é à toa que a criançada se dá muito bem com eles - para elas, sem dúvida, é mais natural atingir esse estado lúdico e, a partir daí, celebrar a vida em todos os seus matizes.

O que eu não consigo comprar, contudo, é o discurso das sociedades protetoras dos animais - que, como a
WSPA, treme ao ver um touro catalão sendo dilacerado com farpas e estacas, em um espetáculo dos mais grotescos, por um toureiro sagaz. Tudo bem, é terrível. Concordo. Apesar de me sentir atraída pelo "show" em si, muito em virtude de seu caráter popular, não sei se teria estômago para tanto. E, no mais, matar um animal com requintes de crueldade para fins de mero entretenimento, além de nos remeter ao homem medieval, ao homem animalizado pela falta de escolhas, não é aceitável em qualquer hipótese.

Mas o que soa hipócrita em discursos assim é que:

1º) Mal ou bem o homem continua se digladiando e se matando na periferia do mundo por uma série de motivos os mais básicos ou os mais sórdidos - e não tratar isso como uma prioridade é tão risível quanto vencer uma maratona correndo-a de carro. Não raro, campanhas desse tipo, e especialmente às relativas ao meio-ambiente (ex: aquecimento global), parecem estar completamente desconectadas da realidade, ou não suficientemente integradas ao que é o humano por excelência, ao day-after-day suado e sacrificado do trabalhador, do pedinte, do miserável, visando tão somente desviar nossa atenção do que realmente importa no mundo e, por outro lado, redimir o pequeno-burguês de qualquer sentimento de culpa em relação a o que quer que seja. A despeito das imagens e previsões catastróficas, tratam-se, eu diria, de "amenidades". É válido dizer que quando um tsunami varreu a Ásia dia desses, ninguém parecia saber de nada.

2º) Não aceitamos que animais sejam abatidos ou torturados na arena de um "circo", mas aceitamos que eles sejam abatidos e torturados para o consumo humano. Tudo bem. Nada mais justo - afinal de contas, precisamos nos alimentar. Só que todo mundo sabe que essa matança já ultrapassou em muito a cota do mero consumo humano e atingiu, veja você, a cota de "entretenimento" dos empresários que ganham rios de dinheiro com a produção pecuária e frigorífica para, imagino, se divertir.

3º) A verdade é que ninguém sabe ao certo o que é a chamada "vida animal". As pessoas intuem. Os cristãos acreditam que os animais não tem alma - o que é um conceito dos mais profundos (vai explicar o que é alma!). A maioria das pessoas, levadas pelo senso-comum, concorda em dizer que os animais são seres irracionais, uma vez que, sendo prisioneiros do instinto, não possuem o livre-arbítrio, não sofrem do mal da indecisão, distinguindo-se claramente dos humanos. Eu, particularmente, não sei, mas algo me diz que são todos um bando de autistas. Well, o que eu sei é que ao se deparar com o sofrimento animal muitas pessoas transferem essa sensação para si mesmas. O que é perfeitamente normal. O inadmissível é que essas pessoas penem mais com a pseudo-angústia de um filhote do que com a angústia real de uma criança em cujas veias corre um sangue que poderia ser seu. Eis a grande questão "social" de nossa era: "comer ou não comer o hamburguer do Mc Donald's?" Precisamos, antes de qualquer coisa, entrar em comum com aquilo que nos é comum - o humano. Senão, não faz sentido algum proteger os pobrezinhos dos animaizinhos. Será zelando pelo homem que nos tornaremos mais humanos em relação às outras formas de vida que conosco co-existem.


Na melhor das hipóteses, fiquemos com a vingança do touro (!):

PS: É por isso que o Zavala é vegan...