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segunda-feira, 9 de maio de 2011

O tesão a priori é o nosso ato falho

Às vezes tudo desaparece e só sobra você. Às vezes tudo parece que perece, uma letra muda, e -------- Você (não eu) soçobra por entre quatro paredes, num aperto no peito que só, perto, pertinho, a despeito de um quarto oval, ¼ de merdas esmigalhadas, e não há nada pelo que valha a pena desenterrar uma pá de grilos, mastigar alface e ir à luta. O sacrifício não equivale a uma canção do Bowie. Space Oddity cantada pela Karen Carpenter. Lindo! Imagens redemoinham e, em seguida, na proa do sobressalente, um universo de favores me assaltam: pelas beirinhas, beiradas calhordas, embustes, sacrilégios. Refaço a literatura desonesta esculpida por pentes em lugar de canetas. Os cabelos se enroscam nos mamilos. A vaidade, como ele já disse, é tudo. Não estou falando de Deus, D’us (lacrimoso) ou de Mademoiselle Iolanda. É da memória de que vos falo. Da estupefação contida nesses momentos de intimidade não tida, do sexo imaginado, dos versos ditos, do segredinho que permanece entre nós dois apesar de sermos ambos casados à moda antiga e conservadores pra caralho. Exxxxxxxxxiste, sim, um subtexto tenso, um tesão a priori que é o nosso ato falho, e vou desmerecê-lo se não sair daqui, já que, por ora, pirei. Parei. Voltemos àquela... Àquela historinha da qual se faz roteiro tipo “û de sempre”.


Não tenho a mais vaga e imaculada idéia. Procuro o núcleo e só me resta o medo. Meus amigos são até pessoas descentes, filhos da classe média dos anos 80 que inundou a cidade com seus hábitos filisteus. Eu, amuada, e compelida pela conjuntura, cabe ressaltar, cotegei o russo com um idioma neutro e morri. Alhures, algures e, no hemisfério sul, multidões de refugiados em êxodo. “Tô cuma saudades famélicas de ti... de te namorar... de te devorar... Carentizei” – Foi o que ela lhe disse. Não tinha a mais vaga e imaculada idéia. Procurava o núcleo e só lhe restava o medo. Seus amigos eram pessoas descentes, filhos da classe média dos anos 80 que inundou a cidade com seus hábitos ridículos, homofóbicos, racistas. Mais uma vez, cotejou o russo com o italiano e partiu.
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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Dafne disse:

Abre aspas -

Gosto de oferecer tudo que amo aos meus amigos. Gosto de oferecer os homens que amo às minhas amigas. Ando apaixonada por essa coisa de estar apaixonada – o que, na verdade, dizem, não é bom. Tô nem aí – tô apaixonada e sei de cor todo caminho de ida e de volta de tanto que já me embrenhei por esse mato sem cachorro, sem ida, sem volta, sem caminho...

Fecha aspas.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Quando o Tolsta veio me visitar!!!

Tolstói é algo desagregador de células. Pergunta-me se há qualquer coisa como morte virtual, portfólio vivo na internet, cemitério online e, em seguida, descobre o céu e o inferno do ciberespaço. É chato. Usa meu banheiro para uma ducha e grita: “Tu enfiaste a escova no reto, guria? Porque se for desse jeito não a uso para limpar as costas”. Cavalo. Kholstomer. Finjo que não ouço, indagando-me se antes de chegar aqui ele pernoitou com algum gaúcho. Esses escritores do século XIX acham que, ao invés de progredir, a humanidade iniciou um longo réquiem rumo à latrina, à contraparte sanitária de tudo que seríamos se não fossemos o que acreditamos ser. Seja como for. Tanto faz. No fim das contas, estamos, sobretudo e aprazivelmente, mais translúcidos e bem comportados, sendo que palavrinhas como cú, nessa geração, são pronunciadas aos quatro ventos e guardadas a sete chaves. Ou seja: assepsia suína.
Passo ao largo de mim mesma. Sublime no parque e a pique, confundo um pássaro com uma ratazana. Sossego: a coisa voa e baila e cantarola. Lindo. O pouco que tinha nas mangas se foi: precisei gastar alguns copeques com um tênis para ele. Mas valeu à pena. Hilário. O Tolsta de all-star fica absolutamente ridículo, e, o que é mais ridículo, preciso me conter para não rir nas fuças dele – ou ele me enfia de novo na máquina do tempo que acredita existir, pois, a contragosto, já andou vendo alguns filmes norte-americanos –, sendo esta tal contenção de despesas, água e risos o que há de verdadeiramente cômico na infame história.

Eis o tênis que comprei pro Tolsta. Ele achou cool, mas se disse adepto da resistência pacífica (!). Eu não entendi.

São Paulo é um desgoverno – e isso ele sente tão logo põe os pés na rua. Quer uma bicicleta – adorou. Na Paulista, segue a via tátil, por mais que eu lhe diga que aquilo é um caminho para cegos. Quando volto, atarantada, todos os mendigos da rua estão lá em casa – para ele são mujiques, imagine – mujiques russos que, como ele mesmo acha que é, despencaram por aqui. E palestra, palestra, palestra: sem fim, endless lecture, ad infinitum. Adora falar. Vous parlez français? – ele pergunta a quase todos. Comme Il faut. Um saco o Tolstói. Mala sem alça. Saudades da Anna e de suas correspondências miúdas. Essa sim foi uma visita, eu diria, troglodita: não saíamos da caverna nem para comer e, dá-lhe Vronski , pude tocar nas feridas adquiridas por ela no embate com o vagão do trem, pobrezinha. Foi quase como tocar nas chagas de Jesus Cristo. Inoportuno era manter seu vício em morfina. Acabou na cracolândia. Desde então, não sei que raios de rumo tomou na (sobre)vida.
À noite, já deitado, Tolstoi insiste em dizer que é o Levin. “Não, de novo não!” – penso. E que o personagem era um alter-ego dele. Dãããã. Eu, claro, não acredito.
“Como assim, Tolsta? Antes ou depois de Freud? Não me engane, hein.”
“Eu não acredito em inconsciente, guria” – ele manda.
“Nem eu” – emendo.

Nisso concordamos.

Já botei a vassoura atrás da porta. Mas o Tolsta não quer ir embora e já fez amizade com os "nóia" da rua. Ele não consegue entender que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Aff!...

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Carta ao ET



Querido ET,

Como vai aí arriba (ou aí abajo, dependendo do point of view)? Por aqui você já sabe, né? Tá tudo uma merda. Só o desamor constrói – montoeiras de lixo, rios de espuma branca, miséria raquítica, invisible people, cultura vagaba, cinismo sensual, e por aí vai a perder de vista ad infinitum muito além de qualquer horizonte cinzento – como a CNN intergaláctica já deve ter divulgado. No entanto, há uma série de aforismos que, pairando sobre a tigela, conformam a massa, né, fofo? Coisas do tipo “O passado será sempre melhor”, “The show must go on” ou “Deus ajuda a quem cedo madruga”. E os humilhados e ofendidos? Vixe, Nossa Senhora, estes terão o reino dos céus. Terão sim, mas, antes, acho que esse show já anda mal das pernas e precisa dar uma paradinha. E a arte? No que se transformou a auto-proclamada (por uma horda de piadistas burgueses) e divinizada arte? Bloquinhos de gelo derretendo em Paris? Ah, faça-me o favor. Intervenções cômicas ao lado do banco anti-mendigos – eu diria. Certos surtos freudianos de introspecção alienada deveriam, por ora, ser categoricamente proibidos (Ah, inconsciente tem limite!) – mas aí é fazer como fez Stalin, né, o que já provou ser ineficaz. Então não chama de arte, poxa! Aqui reclamar não é nada cool, ET. Soa ultrapassado, antiquado, retrógado. Sinto falta daquele clima vermelhão de marte. Vermelho-sangue: adoro! Os terráqueos não cultivam muito respeito pelo verde ou pelo azul, por exemplo, e não me admira que você não queira mais pisar por aqui . Sabe ET, acho que a humanidade nem vive mais um retrocesso, vive um retrocídio, movendo-se para trás sem nem dar uma olhadinha pelo espelho retrovisor. E, ao que tudo indica nesse chamado retrocídio, já estamos na Idade Média, exatamente no filme do Bergman, já que tudo no sétimo selo é, de fato, sétima arte. No mais, sinto que a essência humana, essa que nunca se soube direito o que era, mas acerca da qual, com efeito, havia indícios palpáveis, volatilizou-se de vez. De concreto, só o marketing. E a vida, veja você, reside na idéia (ou no pseudo-pilar) de que é preciso “vender-se” para ser. É vendendo, portanto, que podemos comprar. Comprar o que? Nossa liberdade... de consumo (Uebaaaaaaaaa! Adorno rules!). Só – já que, infelizmente, só essa liberdade fake nos cabe. Tenha você acumulada a fortuna que tiver, tanto mais enganado é pela roda que o escraviza. Liberdade (o que você acha, ET?), na verdade, é desvencilhar-se disso tudo (não sou nada original, Platão disse algo semelhante). Camadas de marketing puro, à exceção dos enfants, há muito, ocultam la vérité – liberté, egalité, fraternité. Ideais sobrevivem apenas como pruridos no mamiloUUUUUUU – é o que parece. Depois passa.

Vou ficando por aqui, ET. Já escrevi muita besteira. Se escrever mais a Gannibal não me deixa postar no blog dela, sabe? Vai dizer que eu ando lendo muito... Hmmmmmmmmm.

Espero que não demore uma eternidade para pintar por aqui. Estamos sentindo sua falta. Suas aparições são tão divertidas!!! Muito melhor que arte pós-moderna! Apareça, viu!

Lembranças do Planeta Terra!
Inté
@nostálgica.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Um problema da condição humana ou uma porra de um adolescente retardado de 17 anos

Não sou sexista. Longe disso. Odeio quando alguém começa a dizer: "não, por que os homens são assim e as mulheres são assado". Geralmente é furada. Mas, nos últimos tempos - e tenho relutado em escrever isso - percebi um fenômeno diante do qual não dá pra fazer vista grossa: as mulheres evoluem. Passam da infância à adolescência e, assim, à fase adulta. Sim, as mulheres (pelo menos a maioria) tornam-se adultas. Os homens, entretanto, jamais passam à fase adulta*. Seja ele quem for, tenha ele a idade que tiver, será sempre e no âmago inviolável de seu ser, mesmo que não pareça à primeira vista, mesmo que lute por causas nobres e esbanje sabedoria teórica, mesmo que se julgue muito "maduro", uma porra de um adolescente retardado de 17 anos. É incrível. Temos que lidar com esse "problema", eu diria, característico da condição humana. Eu, particularmente, não vejo saída e não estou mesmo a fim de ficar especulando as pseudo-causas da tal desordem. Não suporto Freud. Alguns problemas são mesmo insolúveis. Por que é tão difícil às pessoas aceitar o mistério? Um adolescente retardado de 17 anos sobrevive no macho e para isso, infelizmente, não há qualquer explicação e nem tampouco cura. Seria algo similar, guardadas as devidas proporções, à TPM feminina. Fiquemos assim.

Clique na imagem:

*Salvo raríssimas e peroladas exceções.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Homens ao pé do sol

Hoje são todos barbudos – os homens. Sim, esses meninos que se aninham acuados feito filhotes, sob capotes. Tenho cá comigo que o homem de verdade talvez seja imberbe. Uma quase mulher. Mas só desbigode ralo do ser nu. Homem que viole o íntimo da história e desmereça o vendaval que nele assanhe os pelos. Sem pelos. Abaixo da derme imaculada – e epi-livre. Livre de ser o ter, por ora, no lume da história vil do macho, essa que tantos já fizeram doer - ele mesmo: refém perpétuo do sexo-escarro. Eis, por sinal, a virilidade do amor. Algo como o avesso ao pau – mesmo sendo dele, você, um devoto senil. O bom senso, virtude irrefutável, lhe proporcionará, assim, escolhas à revelia do quedar sob a égide ingrata do falo. E o mundo, embasbacado, será desse czar estéril, comum, galhardo, absorto em sua razão soberana. Um macho-rei, portanto: alheio à herança maldita que há tanto o guia, consciente de sê-lo na extensa plenitude do nós. Sem amarras. Sem rancor. Ser-eno. Celebremos a plenitude silente do nós. A liberdade do gozo, prolífico, relegado a todas as instâncias do outro, enfim e por fim, logrará. E seremos no ato, homens e mulheres, cambada humana arredia insana, ao bel prazer do imaculado, encontro. Encontro este puro e perfeito – no acaso do mais recôndito amor. O homem de verdade – na aurora do amor, vencerá.
Boreal.
Orgia ao pé-do-sol.

domingo, 30 de agosto de 2009

No parachutes, no shelter...

Sinto-me no topo de uma Beleza etérea – a qual, entretanto, não me foi dado o direito de ver ou circunscrever.
Apenas sinto.
Cintila, portanto, pelo ar que dentro de mim circula, uma beleza consciente de sê-la.
Beleza, avesso da aparência, construída de percalços, viva.
Esteio e leito por onde navegam lembranças de decênios e milissegundos, conforme a velocidade de cada ato, voluntário ou compulsório, silente ou ruidoso, desmemoriado no presente e perpétuo de sabores que decolam parachutes a perder de vista.
É tão humano quanto a essência do ser – e carrega, em suas vitrines, um quê de fálico, mas não ultraja, só reproduz, tal qual emas na savana africana.
Paro. Apresento-lhe meu sexo, Beleza etérea.
E suplico-lhe por um cafuné, shiatsu a meia-luz, beliscão.
É por ti que, esperançosa, já que me alças ao topo do mundo, e me vejo aqui a tocar as sílabas do céu, que continuo a galopar.
Dou voltas ao mundo em 80 passos.
É por ti que me entrelaço aos homens, ignorantes de sua bondade, de seu poder, desse jardim que pare com tamanha anuência.
É por ti, Beleza etérea, Amor recôndito, dimensão aos homens oculta, que pedalo.
Eis a minha bike: sangue matador.

As atitudes equivocadas acima listadas ensejam, via puro acaso, um encontro: Francis "louco-cara-de-bulldog" Bacon e William "junkie-beat" Burroughs. Fico pensando (em russo) cá avec moi même qual era exactly o tema em pauta. Alguém arrisca?

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Brincando de Deus

Na passagem do virtual para o real, da fantasia para o concreto, que, sabemos, jamais se realiza, uma vez que o partilhar do ente, inda mais do ser, se desloca no esteio do tempo perpétuo, algo de lírico se perde. Pessoas imaginárias são degoladas pelo lapso que, tentador, fertiliza a idéia, tornando-a monumental, falsamente realizável, megalomaníaca, à imagem de seu criador: qualquer vacilo como Pedro. Pedro não é Deus. Enquanto milhares de servos e escravos erigem um sítio misto de Amsterdã e Roma, um eldorado, outros tantos definham sob suas anáguas. A imaginação de Pedro mata, desmantela, aniquila, suporta à revelia da razão um universo de faz-de-conta. Não se desdobra em nada de fato, e, quando a realidade dá as caras, não há muito a fazer a não ser encará-la, distorcê-la – acomodar-se como placas tectônicas em seus ornamentos fictícios, em seus contornos defeituosos, em suas axilas mal-cheirosas, em suas fibras bolorentas, em seus pilares bambos. O que “é”, assim, vasculha e espezinha o que "seria", sem deixar rastro. "E é difícil fitá-lo. Não era nada do que imaginava". É caótico, e até medonho, rasgar a existência onírica daquele que com tanto carinho aninhamos entre têmporas. Enterre-o. Você não é Deus. Há um quê de masoquista, incompreensível e inevitável nessa coisa demasiado humana de brincar de Deus.

domingo, 23 de agosto de 2009

Pro domingão paulistano - cante Lobão (e invente outras memórias...)

"Chove lá fora
E aqui tá tanto frio
Me dá vontade de saber...
Aonde está você?

Me telefona
Me Chama! Me Chama!
Me Chama!...
Nem sempre se vê

Lágrima no escuro
Lágrima no escuro
Lágrima!...
Tá tudo cinza sem você

Tá tão vazio
E a noite fica
Sem porque...
Aonde está você?

Me telefona
Me Chama! Me Chama!
Me Chama..."

Fui lá ontem. Quando entrei, elas me receberam como se eu fosse alguém muito especial – e de fato era, já que todos somos, ora pois. Incrível perceber-se alguém muito especial nessa cidade torta. Diziam-se revolucionárias – e eram. Passei o dia inteirinho por lá, na ânsia de ouvir jazz, entre livros, metafísica e arrepios, do tipo: “Uma palavra vale mais do que mil imagens”. De fato, com imagens não podemos pensar no que quer que seja, só imaginar. O que é ótimo; embora em dias como esses, de descalabro nu, seja preciso pensar, refletir, raciocinar e agir. De resto, também deglutia, alheia a engasgos, aquele bando de histórias que me aturdiam embaladas feito vagões de locomotiva e adentravam afoitas, em looping, em minha boca caudalosa, salivante, esgueirando-se pelo esôfago e assentando-se no estômago, no bojo de pavores e bolores gástricos eslavos. O almoço ainda me escapulia em pílulas de arroto: bafos. No prumo da assepsia – algo terrível. Algo que eu, naturalmente e sem perceber, disfarçava. Sentia-me no meu lugar – e acabei encontrando uma edição portuguesa de um raríssimo exemplar do Turgueniev. Amo. Pensei em tantas pessoas que amo, aliás – e o quão longe e próximas elas podem estar de mim a um só tempo e espaço. Abismos que se desfazem em um piscar de olhos quando – e especialmente – este estilete que trazemos a reboque e a contragosto cessa repentinamente de circunscrever sulcos ao nosso redor ou de machucar aqueles que não somos. Contudo, já de volta a casa, o cio de meados do mês provocou-me sonhos eróticos, verdadeiros pesadelos, concedendo-me, de presente, um encontro com o avesso do menino. Merda. Não entendi quando ela disse que deveria tolerar. E me deixar mutilar? Não. Algo pertubador – e, por ora, já nem quero expor meus copiosos tropeços ou falar sobre nada disso. Prefiro continuar por lá, semeando conceitos, ao encalço de um homem formidável que, dentre outras coisas, perguntou-me se estava tranqüila enquanto palestrava pela enésima vez a respeito da história de minha terceira vida – não a última, espero, mas a mais deslumbrante e orgíaca, consciente de seus prazeres infames e de sua beleza divina. Pedi para sair depois que me ofereceram companhia e um jantar perfumado. Alguém ia tocar piano. Havia, em uma esquina pouco visível, uma balalaica também. Alice e Carrol. Pena... meu tempo de paraíso havia se esgotado.

Holofotes tonitruantes espocam na sílaba. Bá. Algo mesmo como um “bá” gaúcho. Sorry – Des-leia.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Um gosto particular pelo nada

Depois que extraíram meu cérebro, puseram-no em uma pequena bancada de vidro ao lado da porta. Vi Mariah aspergindo-lhe pimenta e suco de tangerina (ou manga, difícil saber sem ter ao menos provado), o que deveria conceder-lhe um arzinho de fresco, saído do forno. E era. Não tinha morrido ainda ou – no mais – não havia morrido em vão. Sentei-me no chão e comecei a imitar um frango. Muito fácil: bastava levantar as alças dos braços e sacudi-las ao léu, em zigue-zague, deixando aparecer as entrelinhas das axilas. Mariah ria. Aquilo deveria ser mesmo risível. Enquanto meu cérebro flambava, disseram-me, comecei a dizer sandices, as quais não posso me lembrar, naturalmente, pois no lugar do cérebro pendia-me uma cabeça oca, algodoada, de onde vertia sangue o bastante para pintar um quadro. Do coração, entretanto, tenho recordações: disparava-me, pois lá pelas dez, à noitinha, senti dores no peito. Era o triunfo oxigenado de não ser.

domingo, 26 de julho de 2009

Ele reproduzia, sem o saber, todos os males que acreditava odiar...

O único mal da sociedade capitalista, essa que fingimos odiar, porque é legal gostar de Marx e Che Guevara, é transformar o ser humano em coisa. Todas as relações grotescas que essa sociedade que fingimos odiar produz e, com a ajuda de todos os seus membros, reproduz ad infinitum, culminam na porca da desumanização.

Então lembrei daquela história. A do sujeito, a do homem, ouso dizer, que foi, a princípio, muito gentil com Mariana por que queria usá-la como remédio para curar algumas feridas adquiridas no hiato da solidão. Como lá pelas tantas, a coisa, a Mariana, não serviu a contento, ele, claro, a jogou no lixo, como cartela vazia que era. Só que ele não sabia, pobrezinho: Mariana não era uma coisa, Mariana era um ser humano. Só que ele não sabia, pobrezinho: Mariana era, sim, tão ser humano quanto ele. Só que ele não sabia, pobrezinho: que, ao tratar as pessoas como coisas, ao tratar Mariana como coisa, ele reproduzia toda a dinâmica social (capitalista, cretina, individualista, desumana) que julgava odiar e lutar na direção contrária. Eram nesses “pequeninos” gestos, mais do que em qualquer outro tipo de ação – Mariana pensava depois, sentindo-se infeliz por acreditar no homem – que o homem, ouso dizer, abastece toda a engrenagem que finge odiar, transformando pessoas em coisas consumíveis ao inserí-las na lógica do capital. Afinal de contas, nessa sociedade que amamos odiar, tudo é (não é?) produto, coisa, consumo, superfície, função, troca, lixo – a começar (e a acabar) nas relações humanas. Só que ele não sabia, pobrezinho, tão preocupado que estava com o próprio umbigo, de nada disso.

Ocupe e resista Mariana. Continue acreditando no ser humano. Eu também acredito...

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Nostálgica diz: - Li hoje no jornal que o Trent Reznor saiu do Twitter...

- O que é Twitter?...

- Ah... é um troço tipo o facebook... não sei... esqueci minha senha e não entro mais... Mas é uma espécie de rede social junkie onde as pessoas quando não dizem amenidades, dizem banalidades. E acho que o Trent ficou fulo com isso...

- Nossa... O Trent tinha Twitter?

- Tinha...

- Quelle merde...

- Oui... Lembro-me daquela época em que ele teria um harem se quisesse...

- Ptz... a mulherada dava fácil... O cara era o cara... Vermebile em forma de músico. Mas... Twitter?...

- Esquenta não... Você nem sabe o que é Twitter... Vamos ouvir aquela coisa de "I wanna fuck you like an animal..."...

- Sinistro...

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Anabolizante sonoro (!) La, la, la, la, la, la...

Eu já tinha corrido 15 km, o que pra mim é bem razoável. Tava quase quase parandooooo, aos trancos e barrancos. Quando, suddenly, essa música me fez despertar e correr que nem uma louca mais uns 5 km. Não sei por que, já que é da Lhasa De(prê) Sela. Enfim... Me gusta mucho. Volume no máximo.



Mirenme a la vida vuelvo ya
La la la
Pajarillo, tù me despertaste
Enseñame a vivir
En un abismo yo te esperé
Con el abismo yo me enamoré
Pajaro me despertaste
Pajaro no sé por qué
Mirenme a la vida vuelvo ya
La la la
Pajarillo, tu me condenaste
A un amor sin final
En un abismo yo te esperé
Con el abismo yo me enamoré
Pajaro me despertaste
Pajaro no sé por qué
Mirenme a la vida vuelvo ya
La la la
Pajarillo, tu me condenaste
A un amor sin final
En un abismo yo te esperé
Con el abismo yo me enamoré
Pajaro me despertaste
Pajaro no sé por qué
Mirenme a la vida vuelvo ya
La la la...

sábado, 20 de junho de 2009

O meu melhor amigo

Meu melhor amigo é monge. Frade, para ser mais específica. Ele mora em um mosteiro em Bordeaux, na França. Lembro-me até hoje quando ele compartilhou sua decisão de ir para o mosteiro comigo. Eu gelei, chorei muito, pois sabia que nunca mais iria vê-lo - ou, se fosse vê-lo, seria ao encalço das contigências da vida. Quando o conheci, nunca havia tido um amigo como ele, nunca havia, na verdade, esbarrado em alguém como ele. Ele tinha qualquer coisa de iluminado: um verdadeiro anjo, um herói. Tinha 32 anos mas vivera como alguém de 320. Experimentara de tudo: Morara com mendigos na rua, fora pescador, trabalhador de fábrica, viajara o mundo, salvara vidas, participara de conspirações e havia até conhecido o Prestes. Ajudou-me a sair de mim mesma - enquanto eu, destrambelhada, punha insulina na agulha. Meus dedos finos tremulavam. Ele era diabético e, quando se sentia mal, eu tinha que correr para qualquer lugar a fim de comprar algo para ele comer. Ele sempre passava mal, ficava vermelho e enjoado. Gostava de pão de queijo. Adorava queijo, de todos os tipos. Era uma graça, um fofo. Ele ficou enclausurado no mosteiro por um ano, mas agora já pode sair. A gente se fala de quando em vez, por e-mail. Ele é como um soldado que abandonou o que chamamos de "vida" para ir para o front. O lugar onde, de certa forma, todos nós devemos ocupar em face de tanto descalabro. Na verdade, ele penetra a alma do mundo. "Cada um na sua trincheira" - ele dizia, e depois me dava um beijo de bochecha. Nossa, como eu o amava...

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Esbofeteei-me

A quarta-feira chegou e tudo que eu precisava era levar um tapa na cara, uma porrada no meio das fuças. Ninguém apareceu para me dar (nessas horas todo mundo some, né?). Tudo bem - Esbofeteei-me. Algumas lágrimas quiseram se achegar, insinuaram-se na meia-lua do umbral, entre a foice dos olhos, pináculo da córnea, ao largo da tez, fizeram-me rememorar o ante-ontem, e eu disse "nem veeeeeeem, meu". E... sorri... Sorri. :-)

Por isso chove.
Por isso venta.
Por isso vou viajar.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Notas paulistanas

Vou fazer 1 ano de imigração daqui a alguns meses. Não sei como os japoneses aguentaram fazer 100.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Bureaufóbica

São Paulo é um baita escritório a céu aberto, desgovernado por leis civilizadas em desuso, onde tudo, basicamente, é trabalho, cafezinho e burrocracia - eu, particularmente, prefiro o binômio que sintetizou minha estadia desde então: correria-balada. Na verdade, preciso voltar para casa (home sweet home!), já passa das 22 horas. Casa? Vai dormir no escritório, chuchu. Sério: não se pode fazer porra nenhuma por aqui. Um dia quis fazer porra nenhuma e me dei mal: fiquei sem opção, já que é preciso sempre fazer qualquer coisa, mendigar atenção, produzir matéria pautável, entorpercer-se cultural ou etilicamente, transvestir-se de capacidade oral-fálica. Sinto falta daquele nada obeso, desbotado e esparramado tipicamente carioca que madrugava pelo ar. Ecos de O Retorno fundem minha cuca. Sem dúvida: um dos filmes mais prenhes de sentido que já vi e ouvi. Que motivos, afinal, levam alguém a comprar um óculos de dois mil reais? Os mesmos que levam alguém a comprar um de duzentos ou um de vinte no camelot. Não coloquem a culpa na Daslu. A lógica é a mesma: a do consumo voluntário consciente. Fudeu. Não acredito em inconsciente, em Freud, enfim, essas baboseiras redentoras do sujeito ativo. Preocupo-me com o que eu seria se eu não fosse quem eu sou. Discursos incoerentes rondam por aí aos borbotões - a começar pelo meu. Infelizmente, o ente "compra-compra" é quem dá as cartas nesta urbe sacal. Pacman, sacolas sacolejantes e só. É preciso fazer algo com o dinheiro que se ganha, né, meu? Ser. Sumir. Sonhar. Ou seremos interpelados por um odioso "para quê"? O que é uma merda belíssima e sem tamanho. Vide o Johannes. Vide o Miguel. No caminho até a cama, milhares de pessoas te bombardeaim com tudo quanto é tipo de produto inflamável: de solos de guitarra (como vi hoje na Paulista) à filosofia Hare... Triste é o trabalho infantil. Até quando vão permitir que crianças sejam expostas à piedade alheia? A cidade grande brasileira abriga a maior concentração de trabalho infantil do planeta. Crianças como instrumento de dor inflingida em seu coração yuppie maternal. Negligência. Como denunciar? A quem culpar? Já não há culpados... Eu quero ir para casa. Cansei. Casa? There's no place for us, baby. Ask Johannes. Ask the dust. I need to sleep. J'ai sommeil. Odeio o francês. Prefiro os russos. Amo loucamente os russos. Morrer em um duelo é muito punk. Existe, afinal, um liame espectral que conecta Puchkin (Deus) à musa Patti Smith. Um Cavalo de Bronze a Horses. Um mar de possibilidades a uma inundação em São Petersburgo. Johnny a Ievguieni. Mas isso é sublime e eu vou deixar para depois. Go Rimbaud! Carros só servem para engarrafar, causar acidentes e tolir o atleta nato: você. E, por aqui, já nos deparamos com os mártires da bike. Regressamos, veja só, à invenção da roda. E tudo que se propaga aos quatro ventos via descolados de plantão é como a descoberta (tardia) da pólvora. Talvez o mar em sua presença irrefutável e soberana nos confira um sentido de humildade que, no fim, é imprescindível. Não somos nada - ou porra nenhuma. Boa noite, amado. Escrevi demais - nada que preste. Des-leia.


terça-feira, 12 de maio de 2009

Surrada
Acho que fazia isso há alguns anos atrás. Agora não sei mais. Não quero. Desacostumei. Talvez fosse o costume de trair-se uma norma. Não sei mais separar uma coisa de outra que lhe parece tão própria, twins – desenredar, desentrelaçar, desvencilhar essa pele que virou subcutânea, esse cérebro que, desmazelado, bate no lugar do coração. E quando voltei daquela viagem longa à alma do mundo em que você me conduziu pelas mãos, olho no olho, ser-eno, quase um sobre dois, me deparei com essa surra a olhos vistos. Deixei-me surrar a carne. Açougue humano - um varal de corpos. Descosturei a sutura. O horizonte se fez precipício: não, não cheguei a cair. Mas foi só para ver. Essa coisa de “ver(tigem)” me seduz, embora já não queira mais - é sério. Não posso. Desacostumei. Talvez fosse o costume de se ver livre uma exceção. A neblina embaçava a dor do açoite. Éramos todos jovens e egoístas: kamikazes. Agora, a ferida se esgarça pela malha do tempo, exaurindo o presente até a surra. Puta surra! O que resta é lacônico, pontual e cíclico: esse “não sei. Não quero mais. Desacostumei”. Talvez fosse o costume de degolar-se uma norma. Talvez eu só quisesse fazer parte de um aparte no qual não houvesse para mim qualquer parte cabível. E talvez esse aparte onde não habita viv’alma seja a regra – e tolerar o degredo, a norma. Não quero mais nada disso, por mais que tenha sido cúmplice. Perdoem-me aqueles que (...). Já o dia amanhece, surrado, iluminando tudo, inclusive a dor.

sábado, 9 de maio de 2009

Humilhados e Ofendidos (Униженные и оскорбленные)

"(...) E se nada funcionar/volta pra casa/ já tanto faz/vai me ver sorrindo/pra te estancar/e me trai comigo/e me deixa em paz./ Finge pra mim/que eu gosto mais./E todos vão falar/Dar nomes pra mim/Votar minha fé/Que eu sou o teu quintal/Se alguém vier falar/Não brigue por mim/Só diga que sou/Um problema seu".
Gram em "Me trai comigo"
kkkkkkk
"Sim, eu o amo loucamente (...) Vejo bem que perdi a razão, que não devia amá-lo desse modo. Não é sadio esse amor. Sinto agora, e já o sentia há muito tempo, mesmo nos momentos mais felizes, que não terei senão dores e tormentos. Mas que posso fazer, se os tormentos que me vêm dele representam felicidade para mim? (...) Ninguém ama os laços que o prendem, e eu sou a primeira a odiá-los. E no entanto sinto-me feliz por ser sua escrava - sua escrava voluntária, sinto-me feliz por sofrer tudo por amor dele -, contanto que esteja comigo, contanto que eu o possa ver, olhá-lo. Parece-me até que lhe permitiria que amasse uma outra, conquanto eu estivesse ao seu lado (...). Sei que é uma baixeza, e entretanto, se ele me abandonasse eu lhe correria atrás, até ao fim do mundo, mesmo que ele me repelisse e expulsasse. (...) Eu iria embora amanhã se ele o pedisse, se me chamasse. Bastaria que me assobiasse, como ao seu cão, e o seguiria... Não receio tormentos, se me vierem dele! Saberei que recebo meu mal de suas mãos..."

Natascha em Humilhados e Ofendidos de Dostoiévski (1861)
kkkkkk
"I'll search the holy books/I'll try to unravel the mystery of Jesus Christ the Savior/I read the poets and the analysts/Searched through the books on human behavior/I've traveled this world round/For an answer that refused to be found/I don't know why, and i don't know how/But she's nobody's baby now.
I loved her then, and i guess i love her still/Hers is the face i see when a certain mood moves me/She lives in my blood and skin/Her wild feral stare, her dark hair/Her little lips, as cold as stone/Yeah, i was her man.
But there are some things love won't allow/I held her hand, but i don't hold it now/I don't know why, and i don't know how/But she's nobody's baby now.
This is her dress, i loved best/With the blue quilted violets across the breast/And these are my many letters/Torn to peices by long-fingered hands/I was her cruel-hearted man.
And though I try to lay her ghost down/But she's moving through me even now/I don't know why, and i don't know how/But she's nobody's baby now..."
Nobody's baby, Nick Cave
kkkkkkk
"Olha pra mim, amor, olha pra mim;
Meus olhos andam doidos por te olhar!
Cega-me com o brilho de teus olhos
Que cega ando eu há muito por te amar.
O meu colo é arrninho imaculado
Duma brancura casta que entontece;
Tua linda cabeça loira e bela
Deita em meu colo, deita e adormece!
Tenho um manto real de negras trevas
Feito de fios brilhantes d'astros belos
Pisa o manto real de negras trevas
Faz alcatifa, oh faz, de meus cabelos!
Os meus braços são brancos como o linho
Quando os cerro de leve, docemente...
Oh! Deixa-me prender-te e enlear-te
Nessa cadeia assim eternamente! ...
Vem para mim,amor...
Ai não desprezes
A minha adoração de escrava louca!
Só te peço que deixes exalar
Meu último suspiro na tua boca!..."
kkkk
Suplica, Florbela Espanca - essa pirada que adorava rimar "louca" com "boca"!
kkkkk
Ah, não resisto a um drama burguês...

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Razões para odiar a tecnologia * **

"O ideal imaginário da vida que arrisca tudo se opõe ao ideal prático da segurança contra todos os riscos. O ideal do justiceiro ascético se opõe ao ideal do pai de família satisfeito, o ideal da luta se opõe ao ideal das aventuras do bem-estar, o ideal do estado natural se opõe ao ideal do conforto da técnica".

Edgar Morin

A tecnologia, essa que vos fala de inúmeras formas, é só mais um meio que algumas pessoas encontraram de “funcionar” (ou seja, exercer funções) melhor nessa sociedade de avestruzes, como elevadores ou essas coisas robóticas que simplesmente “funcionam” automatizadas, sem dar satisfação de nada a ninguém. E não são, como poderíamos pensar, operadas por seres humanos, são programadas por um bando de vigaristas, o que é muito diferente. Um relógio que é programado para tocar às seis horas da manhã, vai tocar às seis horas da manhã – e isso independe do estado como você estava quando cruzou a porta de casa às cinco. Se, por outro lado, ele é operado humanamente, você vai acordar no momento que lhe for mais conveniente. Operar sugere que haja uma mão humana toda vez que se exerce uma ação; já programar é totalmente desumano, é funcional, é potencializar a máquina. Vivemos em uma sociedade de máquinas e, de cada vez mais, pessoas programadas ( já que peças desse meio-de-produção) – e que se dane o fator humano de qualquer coisa. Adapte-se. A porta do metrô fecha em 10 segundos – e a moça que prendeu o salto no vão e vai ser levada pelo arranque do motor? Foda-se.

A sociedade industrial foi se tornando com o passar do tempo essencialmente programada, mecânica, alheia ao humano de qualquer coisa, e as pessoas, com seus brinquedinhos celulares e i-phonicos, entraram nessa onda. Por inúmeros motivos, que você não faz idéia, alguém que no tête-à-tête te trata como um anjo e com quem você jura que tem uma sintonia peculiar, programa o celular para não receber mais ligações suas – e que se foda você e os motivos do por que você está ligando para ela. Ela se programou, através da tecnologia, para não te atender, para te descartar solenemente, para esquecer que você existe, coisificando-o como uma peça que já não lhe serve – e agora, ao invés de perdemos o braço na geringonça de prensar frigideiras, perdermos parte de nossa alma em meio a essa horda de desalmados, de pessoas que temem o encontro, o humano. É paradoxal, mas a tecnologia só criou mecanismos de encontro que, em determinados contextos, só favorecem o desencontro. Contudo, esse cinismo todo nos parece muito natural, pois a timidez pequeno-burguesa a tudo redime, o comodismo de apertar um botão nos faz senhores de nosso próprio nariz ao vivenciar uma pseudo-liberdade hiper-equivocada, e perdemos, nesse rastro, a capacidade de compartilhar o que quer que seja com o próximo, de encará-lo olho no olho e sofrer as conseqüências desse ato, de dar a cara à tapa. Nos programando, nos livramos, assim, do que nos parece, pelo menos no espaço imediatista da ligeireza da máquina urbana, inútil ao caráter funcional do ser. E não somos mais, apenas funcionamos enclausurados, isolados do outro e das normalíssimas relações conturbadas e febris que com ele se trava, esquecendo que a “única” coisa que de fato existe nessa porra de mundo é isso: o outro; que a mais linda paisagem é a do rosto humano; que a arte, o trabalho, e tudo mais que fazemos, existe somente em função das pessoas – aquelas das quais fugimos propositalmente e temerosos de que percebam essa fuga ou venham nos perguntar: por quê?

Tem gente que tem medo de gente por aqui (Esse Pê) . Eu, particularmente, acho isso estranhíssimo e inusitado. Hoje muita gente não atende o celular quando vê, em função do advento da bina, que é um tal fulano que está lhe telefonando e com o qual ela não quer falar sabe-se lá porquê. Será que essa mesma pessoa expulsaria esse fulano de sua casa e bateria a porta na cara dele? Não sei. Mas bate o flip. A tecnologia transformou um bocado de pessoas (e me desculpem as que não se enquadram nessa lógica e que usam os apetrechos high tech para o bem) em hipócritas resignados. Isso me perturba bastante. Vou me mudar para Iasnaia, para uma aldeia indígena, para um lugar interiorano onde não haja bina, msn e no qual se possa confiar, verticalizar as relações. Ou ficar por aqui - ocupando e resistindo.

*Texto levemente inspirado na aula do Sérgio de Carvalho.
** Texto escrito no ápice da TPM.