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domingo, 18 de outubro de 2009

Quando o Tolsta veio me visitar!!! (3) e A Segunda Grande Guerra em Iasnaia Poliana

Na vida, se não for alho cru, tudo faz mal, tudo é uma merda, tudo é potencialmente fatal. É por isso que o Tolsta, cara esperto que viveu quase um século, era radical: não ouvia música. É... não lhe fazia bem aos ânimos. Tolsta, aliás, durante um bom tempo (cujo esvair-se, por sinal, é das maiores tragédias da existência) fez apologia à morte. E sem rodeios. Quem leu a “Sonata” sabe disso. Dizia que a morte seria a salvação e fim último da humanidade – simplesmente arredar o pé da vida, de preferência casto, sóbrio e em jujum. Achava bem pior, inclusive, a morte em vida do que a morte propriamente dita. E o que era a “morte em vida” para Tolsta? Basta ler qualquer livro dele para saber, já que este era, acredito, o leitmotiv de toda obra do autor. Muito vasto, né?... De qualquer forma, se é que era mesmo adepto de algo que não de si mesmo (!), Tolsta prezava a morte natural, a vida natural, o bom selvagem, a anti-carnificina, o mujique, o campo, a resistência pacífica – e não os tonéis de sangue e lágrimas que verteram por ocasião da II Guerra, sob a égide, sobretudo, de Hitler e Stalin (Putz... nem o Stalin merece um Hitler ao encalço dele, mas...). E é nesse agitado cenário, descrito por Antony Beevor no ótimo “Stalingrado – o Cerco Fatal”, presente do meu querido Ricardone, que nosso super Tolsta figura para um faniquito póstumo na presença de um bando de nazistas немецкий, aos quais, mesmo sem querer, deu guarita:

“(...) Por iniciativa própria, Guderian e Kluge começaram a retirar seus regimentos mais expostos. O primeiro tomou a decisão instalado na casa de Iasnaia Poliana, de Tolstói, com a sepultura do grande escritor no terreno defronte coberta de neve. Perguntavam-se o que ia acontecer em seguida ao longo de toda a frente central. Os profundos salientes alemães de cada lado de Moscou eram vulneráveis, mas o desespero e a escassez das tropas com que haviam estado lutando os convenceram de que também o inimigo fora arrasado e imobilizado. Jamais imaginaram que a liderança soviética estava arregimentando novos exércitos em segredo atrás de Moscou.”

Tolsta não quis comentar o intertexto. Mesmo por que, anarquista que é, não acredita na propriedade e muito menos em restos mortais. Eu, entretanto, juro ter visto ele resmungar qualquer coisa cabisbaixo (!).

Tolsta faria tudo para reviver aqueles dias plácidos em Iasnaia em que proseava com seu melhor amigo: o pangaré Kholtomer.

sábado, 3 de outubro de 2009

Quando o Tolsta veio me visitar!!! (2)

(Tolsta indo passear no Ibira pela manhã. Péla.)

Quem é o Tolsta? Gaúcho, mujique, apóstolo de cristo, retirante nordestino, anarquista, tarado, sadhu indiano, tuareg, profeta, monge ou, como todos os russos, um louco? Hmmmmm... Ah, já ia me esquecendo: escritor também é uma opção dentre tantas.

hhhh
Moramos no 12º andar, eu e Tolsta, no centro da cidade. São “Inferno de Dante” Paulo. Ele odeia pavorosamente essa turbina de concreto-vândalo que apita sem ressalvas o dia inteiro e quer ir para o campo – ou para qualquer destino feudal onde possa caminhar algumas verstas sobre um extenso e bucólico gramado. Eu, impaciente com sua lista interminável de reclamações, aconselho-o a ir dar um passeio no Ibira, na Aclimação ou no Parque Villa Lobos e não me atazanar o saco com esse papo Ctrl-C Ctrl-V de Rousseau. Poupe-me, bom selvagem.
- Second Life, Tolsta... – repreendo-o.
Mas ele ignora. Não entendeu ainda como nós, humanos do século XXI, podemos ter algo tal qual uma vida virtual.
- Não podemos, não podemos. É pura fantasia. Contextualize, poxa. É como na Bíblia. Ou você acredita em Adão e Eva?
- Niet – ele solta.
Tolstói é algo descrente. Não acredita em nada que, de relance e num vasto prado, não possa fitar, tocar, curar, abastecer com seu viço aristocrático dissimulado e bronco. De retidão apaixonada, queria ser padre, mas me pergunta, sem pestanejar, onde é o lupanar. “Não sei... mesmo” – respondo encabulada. Ele desconversa, diz que só queria saber se há algo do tipo nas redondezas e, quando eu digo que a cidade inteira é um grande bordel, um “Gogol Bordello”, um “American Bar”, que muita gente nem cobra pelo pernoite, ele murmura entredentes: “Diabólico, diabólico. Preciso andar mais por aí”. E fico matutando o que seria dele se fosse ao Love Story vestido daquele jeito e com os sobrolhos a meio. (Des)penso o impensável.
- Para que serve a razão? – ele me indaga de soslaio.

“O universo nada delicado da libido”, persuade-me Tolsta, “é bulímico e anoréxico – é um veleiro sob tormenta, é catastrófico, truculento e trágico, uma foda-relâmpago que tudo parece iluminar e subverter com seu gorjeio para, em seguida, apagar-se”.
Não refreio meu ímpeto de mulherzinha, já violentada por essa corja de canalhas, no bojo de Lilia 4-ever, no âmago de Grace, enfeixada por Suely, e metralho:
- A cabeça de baixo venceu Tolsta. Seus apelos à castidade e ao uso da razão não adiantaram muito. É sob a égide do pau, do falo, do pênis, do cacete, do alfarrábio masculino, que vivemos. E o mundo é uma rede de cabeças acéfalas interligadas de forma cruel. E, claro, um retardado querendo ejacular mais do que o outro. Poucas pessoas fogem a essa regra desumana. É tudo porra. É tudo porra...
Tolsta, entretanto, acredita que eu tenha descrito um procedimento científico e, fulo da vida, retalha:
- Oh, eu odeio médicos. Não me venha com essa conversa mole, guria.
Não entendo que tipo de parentesco o Tolsta tem com os gaúchos. Vira e meche ele solta uma bá, um guria, adora um chimarron, diz que lembra o chá feito no samovar. Enfim, isso me intriga sobremaneira.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Quando o Tolsta veio me visitar!!!

Tolstói é algo desagregador de células. Pergunta-me se há qualquer coisa como morte virtual, portfólio vivo na internet, cemitério online e, em seguida, descobre o céu e o inferno do ciberespaço. É chato. Usa meu banheiro para uma ducha e grita: “Tu enfiaste a escova no reto, guria? Porque se for desse jeito não a uso para limpar as costas”. Cavalo. Kholstomer. Finjo que não ouço, indagando-me se antes de chegar aqui ele pernoitou com algum gaúcho. Esses escritores do século XIX acham que, ao invés de progredir, a humanidade iniciou um longo réquiem rumo à latrina, à contraparte sanitária de tudo que seríamos se não fossemos o que acreditamos ser. Seja como for. Tanto faz. No fim das contas, estamos, sobretudo e aprazivelmente, mais translúcidos e bem comportados, sendo que palavrinhas como cú, nessa geração, são pronunciadas aos quatro ventos e guardadas a sete chaves. Ou seja: assepsia suína.
Passo ao largo de mim mesma. Sublime no parque e a pique, confundo um pássaro com uma ratazana. Sossego: a coisa voa e baila e cantarola. Lindo. O pouco que tinha nas mangas se foi: precisei gastar alguns copeques com um tênis para ele. Mas valeu à pena. Hilário. O Tolsta de all-star fica absolutamente ridículo, e, o que é mais ridículo, preciso me conter para não rir nas fuças dele – ou ele me enfia de novo na máquina do tempo que acredita existir, pois, a contragosto, já andou vendo alguns filmes norte-americanos –, sendo esta tal contenção de despesas, água e risos o que há de verdadeiramente cômico na infame história.

Eis o tênis que comprei pro Tolsta. Ele achou cool, mas se disse adepto da resistência pacífica (!). Eu não entendi.

São Paulo é um desgoverno – e isso ele sente tão logo põe os pés na rua. Quer uma bicicleta – adorou. Na Paulista, segue a via tátil, por mais que eu lhe diga que aquilo é um caminho para cegos. Quando volto, atarantada, todos os mendigos da rua estão lá em casa – para ele são mujiques, imagine – mujiques russos que, como ele mesmo acha que é, despencaram por aqui. E palestra, palestra, palestra: sem fim, endless lecture, ad infinitum. Adora falar. Vous parlez français? – ele pergunta a quase todos. Comme Il faut. Um saco o Tolstói. Mala sem alça. Saudades da Anna e de suas correspondências miúdas. Essa sim foi uma visita, eu diria, troglodita: não saíamos da caverna nem para comer e, dá-lhe Vronski , pude tocar nas feridas adquiridas por ela no embate com o vagão do trem, pobrezinha. Foi quase como tocar nas chagas de Jesus Cristo. Inoportuno era manter seu vício em morfina. Acabou na cracolândia. Desde então, não sei que raios de rumo tomou na (sobre)vida.
À noite, já deitado, Tolstoi insiste em dizer que é o Levin. “Não, de novo não!” – penso. E que o personagem era um alter-ego dele. Dãããã. Eu, claro, não acredito.
“Como assim, Tolsta? Antes ou depois de Freud? Não me engane, hein.”
“Eu não acredito em inconsciente, guria” – ele manda.
“Nem eu” – emendo.

Nisso concordamos.

Já botei a vassoura atrás da porta. Mas o Tolsta não quer ir embora e já fez amizade com os "nóia" da rua. Ele não consegue entender que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Aff!...

domingo, 31 de maio de 2009

Dasabafo: Eu odeio A Sonata a Kreutzer! (O romance)

O Conde Liev Tolstói era um sujeito completamente obtuso e deveria ter sido trancafiado em um manicômio!... Um ser humano de posse de suas faculdades mentais normais - ou seja, que esteja apto a viver e conviver em sociedade - jamais escreveria um romance como A Sonata a Kreutzer, fazendo apologia ao fim da humanidade pela prática da abstinência sexual e sugerindo que as crianças eram meros apêndices que só serviam para tumultuar a vida e trazer sofrimento aos pais (cabe ressaltar que Tolstói prezava pelo didatismo de seus textos, que deveriam servir para algo de concreto). A música, então, para ele, tratava-se de um ente non-sense que só fazia despertar "condicionamentos" desnecessários, já que não eram próprios de quem a ouvia, mas de quem a compunha (?), e engabelar nossa preciosa razão. Que aberração é essa? Se ele tinha problemas com a maluca da mulher, que tocava piano e perseguia-o como a uma sombra, que guardasse isso para o túmulo em Iasnaia, e não ficasse criando argumentos os mais delirantes para justificar suas paranóias. Mas não, agora temos todos que bater palmas, apresentar seminários, por que foi o Conde Liev Tolstói que escreveu, assim como proclamou um monte de bobagens "geniais", inspirou Gandhi, Brecht, achava-se O Apóstolo de Cristo (escreveu um Evangelho, inclusive), vestiasse como um mujique, não ouvia música, não bebia, se dizia anarquista embora não conseguisse colocar em prática nada do que pregava, criou uma Sociedade contra a vodka, só admitia que comparassem sua literatura a de Homero e era o autor predileto dos líderes da Revolução de 1917, apesar de não concordar com Marx ou com qualquer pensador de sua época. A Igreja Ortodoxa fez bem em tê-lo excomungado. Esse cara era completamente doente! Até o Rasputin era mais são. Não é à toa que nosso amado Dostoiésvski se referia a ele com todo sarcasmo que lhe era permitido. Enfim, viva Puchkin!

Tá bom, ele tem lá alguns contos memoráveis, bem como algumas passagens magistrais em sua obra. Pode até ser que eu esteja julgando o todo pela parte, mas, cara#*o, que livro odioso! (Não esqueçamos que Alex, de Laranja Mecânica, que, aliás, adorava flertar com a língua russa, também tinha problemas com o Ludwig Van Beethoven... ) Enfim, viva Puchkin!...

Tolstói sofria da "Sindrome do Messias" - ou seja, achava que era Deus. Normal, vide o Inri Cristo ou tantos outros. O anormal da história é que toda uma geração acreditou nele. Pura retórica.

domingo, 10 de maio de 2009

Uma nota iconoclasta sobre o mito Grigori Iefimovitch Rasputin

"Se quiseres, meu caro, te nomearei ministro. Por
que ris? Por acaso pensa que eu não posso fazer o que digo?
Oh, eu posso tudo, eu faço tudo aquilo que quero. Todos me obedecem. Vais ver: farei de ti um
ministro".

Eu acredito que...

Rasputin era só um produto aberrativo de uma sociedade que vivia de forma muito intensa, austera e, nesse sentido, por vezes equivocada, a religião que lhe dava contornos. O que esperar de um povo que “devia” acreditar que o Czar, por exemplo, aquele mesmo Czar que punha vinagre em suas feridas, era um enviado de Deus? Não. Rasputin não era louco, não era mau, mago, charlatão, ocultista, satanista, vidente ou bobo da corte. Era só um mujique siberiano simples, forte, viril, provavelmente encantador em sua simplicidade e inteligência persuasiva e despudorada, que usava o instrumento ideológico que tinha nas mãos (o cristianismo), no qual depositava uma fé autêntica, a seu bel prazer. E prazer, até onde eu sei, sempre foi sinônimo de pecado. Eis o maior deles: a luxúria. Já era, inclusive, um camponês (e, portanto, um “proletário”) que havia astuciosamente alçado ao grau mais alto do poder ao se tornar o principal conselheiro de Nicolau II – tendo sido assassinado apenas em função disso. Ou seja, um proletário (porque não?) a tomar o poder antes de 1917. Um feito, sem dúvida. Yussupov, um principezinho com cara de bunda, não aceitava que esse “czar acima do czar”, que mandava e desmandava no destino da família imperial, era pacifista e ainda por cima comia a mulherada, fosse um camponês e, portanto, pertencesse a uma classe inferior. Então, envenenou-o e matou-o em um episódio dos mais grotescos, já que o cianureto que havia nos bombons e no vinho não fez qualquer efeito no corpo do stariets e uma bala só não o derrubou. Depois, o dandy do Yussupov ganhou fama em cima disso.

No mais, vamos combinar: não devia ser mesmo difícil engabelar aquele bando de almofadinhas. Quanto ao trágico fim dos Romanov ou de qualquer ser humano, eu sigo acreditando que não há revolução alguma ou sistema “científico” que justifique o assassinato de crianças. Muito longe de ser o ideal...



A ortodoxia criou outras aberrações nesse sentido, como o Conde Liev Tolstói, que também tinha lá sua vertente rasputinesca que a razão extravagante não o deixava liberar. Fundou a corrente filosófica chamada de tolstoismo – através da qual foi auto-proclamado um apóstolo de Cristo. Gogol foi outro que pirou ao fim da vida por causa dos desígnios divinos ortodoxos e acabou cometendo suicídio. Aqui no Brasil já teve muito maluco desse tipo também, só que, apesar de terem tentado, nunca chegaram ao poder. Ou não. Não sei. Por incrível que pareça, dos grandes escritores russos do séc. XIX (o que é mais a minha área), só salvava o Dostoiévski. Esse, do início ao fim, a despeito de tudo que passou (epilepsia, 10 anos de prisão, fuzilamento encenado e o escambal), e seus romances estão aí para comprovar, sempre foi um sujeito são e equilibrado. Um gênio incomparável e inspirador.

Enfim, Rasputin era gente boa.

Para ler:

domingo, 19 de abril de 2009

Dependência química e sindrome do pânico na Rússia do século XIX...

... por que Anna Karenina não passava de uma junkie viciada em morfina...

A pós-hiper-modernidade reclama para si a invenção de alguns dos muitos transtornos mentais que assolam principalmente a população urbana e, nesse sentido, a correria frenética pelas drogas (ou fármacos) que esse ambiente "opressivo" demanda ao ser humano, como calmantes tarja preta ou anti-depressivos. Uma leitura mais detida de alguns romances russos do século XIX, entretanto, especialmente os dos chamados escritores realistas, como Tolstói ou Dostoiévski, nos mostram que na São Petersburgo gogoliana, cheia de narizes, capotes espectrais e homens-coisa, utilizar medicamentos "controlados" para insônia e depressão ou ter ataques de pânico eram coisas relativamente comuns. Dostoiévski, que já sofria de epilepsia, denominava suas crises de ansiedade de "Terror Místico", tendo relegado a muitos de seus personagens essa condição. Já Tolstói, que mantinha uma relação doentia com a esposa paranóica na vida real, fez da louca Anna Karenina uma junkie viciada em morfina - pobrezinha, prestes a se atirar sobre os trilhos do trem, ela não conseguia pregar o olho sem algumas doses de seu frasco semi-suicida.


Dostoiévski descreve um ataque de "terror místico", ou do que hoje chamamos de "síndrome do pânico" no romance "Humilhados e Ofendidos", de meados do séc. XIX:


"(...) eu ia caindo pouco a pouco nessa disposição especial de espírito em que me encontro tão frequentemente à noite desde que estou doente - disposição que eu chamarei de "terror místico". É o dolorosíssimo receio de qualquer coisa que eu não saberia precisar, de algo fantástico e irreal, que não existe na ordem das coisas, mas que parece surgir diante de mim e ganhar corpo num instante, com a irrefutabilidade de um fato terminante, horrível, informe, implacável. Esse pânico vai crescendo sempre, apesar de todos os meus apelos à serenidade e à razão, de sorte que, no fim, embora meu espírito tenha atingido um grau maior de lucidez, perde toda a faculdade de se opor a essa sensação (...)".


Tolstói não dá trégua para a doce e linda Anna - e coloca sobre sua mesinha de cabeceira um remedinho à base de um opiáceo que ameniza (ou potencializa, vai saber...) sua fúria nervosa:


"(...) Entretanto Anna, de regresso ao seu quarto de toucador, pegou num copo em que deitou umas gotas de medicamento cujo principal ingrediente era a morfina. Depois de beber esse líquido, permaneceu imóvel durante algum tempo e dirigiu-se ao quarto com o espírito tranquilo e alegre (...)".

Greta Chapada :-)