Mostrando postagens com marcador Literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Literatura. Mostrar todas as postagens

domingo, 22 de novembro de 2009

"Triste partida" do Patativa

Meu Deus, meu Deus. . .
Setembro passou
Outubro e
Novembro
Já tamo em Dezembro
Meu Deus, que é de nós,
Meu Deus, meu Deus
Assim fala o pobre
Do seco Nordeste
Com medo da peste
Da fome feroz
Ai, ai, ai, ai
A treze do mês
Ele fez experiência
Perdeu sua crença
Nas pedras de sal,
Meu Deus, meu Deus
Mas noutra esperança
Com gosto se agarra
Pensando na barra
Do alegre Natal
Ai, ai, ai, ai
Rompeu-se o Natal
Porém barra não veio
O sol bem vermeio
Nasceu muito além
Meu Deus, meu Deus
Na copa da mata
Buzina a cigarra
Ninguém vê a barra
Pois a barra não tem
Ai, ai, ai, ai
Sem chuva na terra
Descamba
Janeiro,
Depois fevereiro
E o mesmo verão
Meu Deus, meu Deus
Entonce o nortista
Pensando consigo
Diz: "isso é castigo não chove mais não"
Ai, ai, ai, ai
Apela pra
Março
Que é o mês preferido
Do santo querido
Senhor São José
Meu Deus, meu Deus
Mas nada de chuva
Tá tudo sem jeito
Lhe foge do peito
O resto da fé
Ai, ai, ai, ai
Agora pensando
Ele segue outra tria
Chamando a famia
Começa a dizer
Meu Deus, meu Deus
Eu vendo meu burro
Meu jegue e o cavalo
Nós vamos a São Paulo
Viver ou morrer
Ai, ai, ai, ai
Nós vamos a São Paulo
Que a coisa tá feia
Por terras alheia
Nós vamos vagar
Meu Deus, meu Deus
Se o nosso destino
Não for tão mesquinho
Cá e pro mesmo cantinho
Nós torna a voltar
Ai, ai, ai, ai
E vende seu burro
Jumento e o cavalo
Inté mesmo o galo
Venderam também
Meu Deus, meu Deus
Pois logo aparece
Feliz fazendeiro
Por pouco dinheiro
Lhe compra o que tem
Ai, ai, ai, ai
Em um caminhão
Ele joga a famia
Chegou o triste dia
Já vai viajar
Meu Deus, meu Deus
A seca terrível
Que tudo devora
Lhe bota pra fora
Da terra natá
Ai, ai, ai, ai
O carro já corre
No topo da serra
Oiando pra terra
Seu berço, seu lar
Meu Deus, meu Deus
Aquele nortista
Partido de pena
De longe acena
Adeus meu lugar
Ai, ai, ai, ai
No dia seguinte
Já tudo enfadado
E o carro embalado
Veloz a correr
Meu Deus, meu Deus
Tão triste, coitado
Falando saudoso
Seu filho choroso
Exclama a dizer
Ai, ai, ai, ai
De pena e saudade
Papai sei que morro
Meu pobre cachorro
Quem dá de comer?
Meu Deus, meu Deus
Já outro pergunta
Mãezinha, e meu gato?
Com fome, sem trato
Mimi vai morrer Ai, ai, ai, ai
E a linda pequena
Tremendo de medo
"Mamãe, meus brinquedo
Meu pé de fulô?"
Meu Deus, meu Deus
Meu pé de roseira
Coitado, ele seca
E minha boneca
Também lá ficou
Ai, ai, ai, ai
E assim vão deixando
Com choro e gemido
Do berço querido
Céu lindo azul
Meu Deus, meu Deus
O pai, pesaroso
Nos filho pensando
E o carro rodando
Na estrada do Sul
Ai, ai, ai, ai
Chegaram em São Paulo
Sem cobre quebrado
E o pobre acanhado
Procura um patrão
Meu Deus, meu Deus
Só vê cara estranha
De estranha gente
Tudo é diferente
Do caro torrão
Ai, ai, ai, ai
Trabaia dois ano,
Três ano e mais ano
E sempre nos prano
De um dia vortar
Meu Deus, meu Deus
Mas nunca ele pode
Só vive devendo
E assim vai sofrendo
É sofrer sem parar
Ai, ai, ai, ai
Se arguma notícia
Das banda do norte
Tem ele por sorte
O gosto de ouvir
Meu Deus, meu Deus
Lhe bate no peito
Saudade lhe molho
E as água nos óio
Começa a cair
Ai, ai, ai, ai
Do mundo afastado
Ali vive preso
Sofrendo desprezo
Devendo ao patrão
Meu Deus, meu Deus
O tempo rolando
Vai dia e vem dia
E aquela famia
Não vorta mais não
Ai, ai, ai, ai
Distante da terra
Tão seca mas boa
Exposto à garoa
À lama e o paú
Meu Deus, meu Deus
Faz pena o nortista
Tão forte, tão bravo
Viver como escravo
No Norte e no Sul
Ai, ai, ai, ai

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Revisitando (vapt-vupt) Cocteau

Aos amigos que querem conhecer o Camboja...



Homem normal - Fumante com medula de sabugueiro, por que viver essa existência? Valia mais se jogar pela janela.
Fumante - Impossível, eu flutuo.
Homem normal - Seu corpo chegará bem depressa lá embaixo.
Fumante - Chegarei lentamente depois dele . . .

PS: Eu, particularmente, confesso que há muito se foi meu desejo de conhecer o Camboja...

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Déruchette - in Os trabalhadores do mar (Victor Hugo)

"(...) Pássaro com forma de moça, que há aí de mais delicado? Imagina que a tens em casa. Supõe que é Déruchette. Deliciosa criatura! Dá vontade de dizer: "Bom dia, mademoiselle alvéola". Não se lhe vêem as asas, mas ouve-se-lhe o gorjeio. Canta às vezes. Na tagarelice, está abaixo do homem; no canto, está acima dele. Tem mistérios aquele canto; uma virgem é o invólucro de um anjo. Feita a mulher, desaparece o anjo; volta, porém, depois trazendo uma alma de criança à mãe. Esperando a vida, aquela que há de ser mãe algum dia conserva-se muito tempo criança, a menina persiste na moça; é uma calhandra. Pensa-se, ao vê-la: que boa que ela é em não bater as asas para ir-se embora!

A meiga e familiar criatura acomoda-se em casa, de ramo em ramo, isto é, de quarto em quarto, entra, sai, acerca-se, afasta-se, alisa as penas, ou penteia os cabelos, faz toda espécie de rumores delicados, murmura um não sei quê de inefável aos teus ouvidos. Quando ela interroga, responde-se-lhe; interrogada, gorjeia. Tagarela-se com ela. A tagarelice serve para descansar de falar. Há uma porção celeste nessa menina. É um pensamento azul misturado ao seu pensamento negro. Alegras-te por vê-la tão esquiva, tão ligeira, tão fugitiva; agradeces-lhe a bondade de não ser invisível, ela, que poderia, creio eu, ser impalpável.

Neste mundo o lindo é o necessário. Há mui poucas funções tão importantes como esta de ser encantadora. Que desespero na floresta se não houvesse o colibri! Exalar alegrias, irradiar venturas, possuir no meio das coisas sombrias uma transudação de luz, ser o dourado do destino, a harmonia, a gentileza, a graça, é favorecer-te. À beleza basta ser bela para fazer bem. Há criatura que tem consigo a magia de fascinar tudo quanto a rodeia; às vezes nem ela mesmo o sabe, e é quando o prestígio é mais poderoso; a sua presença ilumina, o seu contato aquece; se ela passa, ficas contente; se pára, és feliz; contemplá-la é viver; é a aurora com figura humana; não faz nada, nada que não seja estar presente, e é quanto basta para edenizar o lar doméstico, de todos os poros sai-lhe um paraíso; é um êxtase que ela distribui aos outros, sem mais trabalho que o de respirar ao pé deles. Tem um sorriso que - ninguém sabe a razão - diminui o peso da cadeia enorme arrastada em comum por todos os viventes, que queres que te diga? é divino. Déruchette tinha esse sorriso. Mais ainda, era o próprio sorriso. Há alguma coisa mais parecida que o nosso rosto, é a nossa fisionomia; e outra mais parecida que a nossa fisionomia, é o nosso sorriso. Déruchette, risonha, era Déruchette. (...)"

in Os trabalhadores do mar de Victor Hugo
(Tradução: Machado de Assis)

domingo, 5 de julho de 2009

Em tempo: a bailarina de vermelho causa mais alvoroço do que o CB na FLIP!...

Frisson total na tal "tenda armada" com a chegada da autora do cultuado livro "53, a página intermitente".

Ahhh... E o Gay Talese disse que o mau do jornalismo são os furos... Ptz... Foi irresistível!...
Leia mais: http://abailarinadevermelho.blogspot.com/

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Flip ao vivo

Link para assistir às tendas da FLIP ao vivo aqui.

Sim, também presto para utilidade pública.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Coração de Cão - Mikhail Bulgakov

Baseado no romance homônimo do genial Mikhail Bulgakov (na foto acima), mais conhecido como o autor de Mestre e Margarida, o filme Coração de Cão, dirigido por Vladimir Bortko, é uma porrada hilária no seio do regime da ex-URSS, que esmagou, em meio ao frenesi bolchevista, qualquer tentativa de se produzir arte no país. Vide Maiakovski, Nabokov, Bábel e tantos outros. Bulgakov tentou sobreviver a essa dinâmica, mas teve muitos de seus livros e roteiros para teatro censurados à época. Em 1925 escreveu Coração de Cão, que só veio a conhecimento do público em 1987 - e, dois anos depois, Bortko também filmaria essa peculiar história de um "homem-cão" (um cachorro no qual se implanta a glândula pituitária de um homem morto) que se torna membro do partido e serve, talvez por ser um boçal insuportável afeito ao sistema dominante, muito bem aos desígnios do governo socialista. Um proletário-criatura, totalmente sem escrúpulos, que sabe tirar vantagem tanto da miopia soviética, que parece não enxergar o ser humano, quanto dos privilégios da burguesia que lhe deu vida. Baita crítica.

Fica clara a referência a Mary Shelley, mas os propósitos de Bulgakov eram outros. Vladimir Bortko é uma diretor fabuloso que vem filmando vários clássicos da literatura russa tanto do séc. XX quanto do séc. XIX. O último, agora em 2009, foi Taras Bulba, romance do piradíssimo Gógol.

Parece que existem edições portuguesas (segundo dizem, muito mal traduzidas) dos livros do Bulgakov. Quanto ao filme do Bortko, não faço a mínima idéia de onde encontrar. A Nastia trouxe pra galera lá de "Peter" - com legendas em inglês ou em russo. Quem quiser emprestado, vale muito à pena.

Como existe o you tube, fique com um trechinho da cena em que Polygraf Polygrafovitch Sharikov, o homem-cão (e sem noção) é apresentado ao mundo:

domingo, 31 de maio de 2009

Dasabafo: Eu odeio A Sonata a Kreutzer! (O romance)

O Conde Liev Tolstói era um sujeito completamente obtuso e deveria ter sido trancafiado em um manicômio!... Um ser humano de posse de suas faculdades mentais normais - ou seja, que esteja apto a viver e conviver em sociedade - jamais escreveria um romance como A Sonata a Kreutzer, fazendo apologia ao fim da humanidade pela prática da abstinência sexual e sugerindo que as crianças eram meros apêndices que só serviam para tumultuar a vida e trazer sofrimento aos pais (cabe ressaltar que Tolstói prezava pelo didatismo de seus textos, que deveriam servir para algo de concreto). A música, então, para ele, tratava-se de um ente non-sense que só fazia despertar "condicionamentos" desnecessários, já que não eram próprios de quem a ouvia, mas de quem a compunha (?), e engabelar nossa preciosa razão. Que aberração é essa? Se ele tinha problemas com a maluca da mulher, que tocava piano e perseguia-o como a uma sombra, que guardasse isso para o túmulo em Iasnaia, e não ficasse criando argumentos os mais delirantes para justificar suas paranóias. Mas não, agora temos todos que bater palmas, apresentar seminários, por que foi o Conde Liev Tolstói que escreveu, assim como proclamou um monte de bobagens "geniais", inspirou Gandhi, Brecht, achava-se O Apóstolo de Cristo (escreveu um Evangelho, inclusive), vestiasse como um mujique, não ouvia música, não bebia, se dizia anarquista embora não conseguisse colocar em prática nada do que pregava, criou uma Sociedade contra a vodka, só admitia que comparassem sua literatura a de Homero e era o autor predileto dos líderes da Revolução de 1917, apesar de não concordar com Marx ou com qualquer pensador de sua época. A Igreja Ortodoxa fez bem em tê-lo excomungado. Esse cara era completamente doente! Até o Rasputin era mais são. Não é à toa que nosso amado Dostoiésvski se referia a ele com todo sarcasmo que lhe era permitido. Enfim, viva Puchkin!

Tá bom, ele tem lá alguns contos memoráveis, bem como algumas passagens magistrais em sua obra. Pode até ser que eu esteja julgando o todo pela parte, mas, cara#*o, que livro odioso! (Não esqueçamos que Alex, de Laranja Mecânica, que, aliás, adorava flertar com a língua russa, também tinha problemas com o Ludwig Van Beethoven... ) Enfim, viva Puchkin!...

Tolstói sofria da "Sindrome do Messias" - ou seja, achava que era Deus. Normal, vide o Inri Cristo ou tantos outros. O anormal da história é que toda uma geração acreditou nele. Pura retórica.

domingo, 17 de maio de 2009

Da série: Grandes personagens, diálogos memoráveis...

Bazárov - Pais e Filhos

“(...)
- Realmente – continuou Bazárov – o homem é um ser extravagante. Se a gente observar de longe a vida do campo, a dos “pais”, parece que nada pode haver de melhor. Coma, beba e saiba que o seu modo de viver é o mais regular, o mais justo e o mais racional que existe. O tédio, porém, domina a gente. Queremos ocupar-nos dos homens, ofendê-los até, mas ocuparmo-nos deles.
- Seria necessário organizar a vida de modo que cada instante tivesse uma certa significação – proferiu pensativo Arcádio.
- Concordo! O que significa alguma coisa, ainda que seja um engano, é agradável. Com o que nada significa podemos ainda concordar... O mal consiste nessas mil e uma coisas sem valor algum, indignas de qualquer atenção e incômodos...
(...)
- Onde está a verdade?
- Onde? Respondo-lhe com um eco: onde?
(...)
- Deposita muita confiança em si mesmo? Julga-se superior?
Bazárov, após um breve silêncio, respondeu:
- Quando encontrar um homem que seja igual ou superior a mim, mudarei de opinião a meu respeito. Odiar! Você, por exemplo, ao passar hoje perto da casa do nosso feitor Filipe, disse: que casinha simples, limpa e confortável. Disse mais: que a Rússia será o melhor país do mundo quando o mais pobre mujique tiver um lar como esse, e que cada um de nós deve auxiliar essa conquista... Comecei a odiar aquele mujique, Filipe ou Isidoro, para quem devo fazer o possível e que não me dirá sequer obrigado. Que necessidade tenho eu afinal do seu agradecimento? Viverá bem numa casa limpa e branca e eu andarei sujo. E depois?
- Basta, Eugênio... Ouvi-lo hoje é concordar contra a vontade com aqueles que nos acusam de falta de princípios.
- Repete as palavras do seu tio. Princípios não existem. (...) Há apenas sensações. (...). Sou, por exemplo, negativista por força da sensação. É-me agradável negar. Todo o meu eu sente o prazer de negar e basta! Por que gosto de química? Por que gosto de maças? É a sensação que isso determina. Tudo é unilateral. (...)
(...)
- Eugênio! – disse tristemente Arcádio...
- Não gostou? – interrompeu Bazárov. – (...) Entretanto, basta de filosofia. “A natureza embala-nos o sono”, disse o poeta Púchkin.
- O nosso grande poeta nunca escreveu coisa semelhante – disse Arcádio.
- Se não escreveu, você, como poeta, pode aproveitar esse tema. A propósito, Púchkin deve ter sido militar.
- Puchkin nunca foi militar!
- É impossível! Todos os seus versos começam assim: “Avante, Avante! A nossa terra clama!”
- Está inventando absurdos! É uma calúnia!
- Calúnia? Que importância! Como se a calúnia impressionasse alguém! (...)
(...)
- Veja – disse de repente Arcádio -, uma folha seca de árvore caiu sobre o solo. Seus movimentos são muito parecidos com o vôo de uma borboleta. Não acha esquisito? Um objeto morto e triste é tão parecido com um ser alegre e vivo!
- Amigo Arcádio Nicolaievitch! – Exclamou Bazárov. – Peço-lhe encarecidamente que não me diga frases bonitas.
- Falo como sei... Isto está me parecendo afinal despotismo. Pensei uma coisa e por que não hei de expressar meu pensamento?
- Muito bem. E por que não poderei expressar também o meu? Acho, por exemplo, que dizer frases e palavras bonitas é feio.
- Que é bonito? Dizer termos de calão?
- Já estou vendo que segue ou tem intenção de seguir as pegadas do titio. Aquele idiota ficaria muito satisfeito se ouvisse suas palavras!
- Como qualificou Paviel Pietrovitch?
- Chamei-lhe como merece: um idiota.
- Não posso tolerar mais – exclamou Arcádio.
- Ah, sim? É a voz do sangue... – disse calmamente Bazárov. – Já notei muitas vezes que o parentesco costuma ser inabalável nos homens. O homem é capaz de abandonar tudo, todos os preconceitos. Mas reconhecer que, por exemplo, seu irmão é um ladrão está acima de suas forças! É natural: meu irmão, meu... é possível?
(...)
- Basta, por favor, Eugênio. Acabaremos brigando.
- Arcádio, faça-me o favor: vamos brigar pelo menos uma vez na vida, brigar de verdade até a morte.
- E assim, naturalmente, acabaremos...
- Brigados para toda vida? - exclamou Bazárov. – E por que não? Aqui nesta cama feita de relva, neste lugar próprio para idílios, longe do mundo e dos olhares dos homens, uma briga faz bem. (...)”


Extraído de "Pais e Filhos" de Ivan Turgueniev.
kkk
Essa história de "rótulos" e de que Bazárov foi o primeiro niilista do mundo me soa muito sem graça, pois, formatando, reduz a força desse personagem espetacular. Ele era muito mais que isso. Era um sedutor nato, com olhos de lince, sem qualquer receio de pensar o que quer que fosse, um revolucionário - que, é claro, exibia um discurso de mesmo tom. Todos foram envolvidos pela sua lábia libertária, inusitada, alheia ao ambiente que o circundava, inclusive os leitores de Turgueniev. Ele e o Bateman têm muito em comum. Ou nada. enfim, não importa. Personagens apaixonantes em seu sarcasmo desmedido - à exceção de que o russo era uma pessoa genuinamente boa. O norte-americano eu já não sei. Talvez nem fosse uma pessoa.

domingo, 10 de maio de 2009

Uma nota iconoclasta sobre o mito Grigori Iefimovitch Rasputin

"Se quiseres, meu caro, te nomearei ministro. Por
que ris? Por acaso pensa que eu não posso fazer o que digo?
Oh, eu posso tudo, eu faço tudo aquilo que quero. Todos me obedecem. Vais ver: farei de ti um
ministro".

Eu acredito que...

Rasputin era só um produto aberrativo de uma sociedade que vivia de forma muito intensa, austera e, nesse sentido, por vezes equivocada, a religião que lhe dava contornos. O que esperar de um povo que “devia” acreditar que o Czar, por exemplo, aquele mesmo Czar que punha vinagre em suas feridas, era um enviado de Deus? Não. Rasputin não era louco, não era mau, mago, charlatão, ocultista, satanista, vidente ou bobo da corte. Era só um mujique siberiano simples, forte, viril, provavelmente encantador em sua simplicidade e inteligência persuasiva e despudorada, que usava o instrumento ideológico que tinha nas mãos (o cristianismo), no qual depositava uma fé autêntica, a seu bel prazer. E prazer, até onde eu sei, sempre foi sinônimo de pecado. Eis o maior deles: a luxúria. Já era, inclusive, um camponês (e, portanto, um “proletário”) que havia astuciosamente alçado ao grau mais alto do poder ao se tornar o principal conselheiro de Nicolau II – tendo sido assassinado apenas em função disso. Ou seja, um proletário (porque não?) a tomar o poder antes de 1917. Um feito, sem dúvida. Yussupov, um principezinho com cara de bunda, não aceitava que esse “czar acima do czar”, que mandava e desmandava no destino da família imperial, era pacifista e ainda por cima comia a mulherada, fosse um camponês e, portanto, pertencesse a uma classe inferior. Então, envenenou-o e matou-o em um episódio dos mais grotescos, já que o cianureto que havia nos bombons e no vinho não fez qualquer efeito no corpo do stariets e uma bala só não o derrubou. Depois, o dandy do Yussupov ganhou fama em cima disso.

No mais, vamos combinar: não devia ser mesmo difícil engabelar aquele bando de almofadinhas. Quanto ao trágico fim dos Romanov ou de qualquer ser humano, eu sigo acreditando que não há revolução alguma ou sistema “científico” que justifique o assassinato de crianças. Muito longe de ser o ideal...



A ortodoxia criou outras aberrações nesse sentido, como o Conde Liev Tolstói, que também tinha lá sua vertente rasputinesca que a razão extravagante não o deixava liberar. Fundou a corrente filosófica chamada de tolstoismo – através da qual foi auto-proclamado um apóstolo de Cristo. Gogol foi outro que pirou ao fim da vida por causa dos desígnios divinos ortodoxos e acabou cometendo suicídio. Aqui no Brasil já teve muito maluco desse tipo também, só que, apesar de terem tentado, nunca chegaram ao poder. Ou não. Não sei. Por incrível que pareça, dos grandes escritores russos do séc. XIX (o que é mais a minha área), só salvava o Dostoiévski. Esse, do início ao fim, a despeito de tudo que passou (epilepsia, 10 anos de prisão, fuzilamento encenado e o escambal), e seus romances estão aí para comprovar, sempre foi um sujeito são e equilibrado. Um gênio incomparável e inspirador.

Enfim, Rasputin era gente boa.

Para ler:

sábado, 9 de maio de 2009

Humilhados e Ofendidos (Униженные и оскорбленные)

"(...) E se nada funcionar/volta pra casa/ já tanto faz/vai me ver sorrindo/pra te estancar/e me trai comigo/e me deixa em paz./ Finge pra mim/que eu gosto mais./E todos vão falar/Dar nomes pra mim/Votar minha fé/Que eu sou o teu quintal/Se alguém vier falar/Não brigue por mim/Só diga que sou/Um problema seu".
Gram em "Me trai comigo"
kkkkkkk
"Sim, eu o amo loucamente (...) Vejo bem que perdi a razão, que não devia amá-lo desse modo. Não é sadio esse amor. Sinto agora, e já o sentia há muito tempo, mesmo nos momentos mais felizes, que não terei senão dores e tormentos. Mas que posso fazer, se os tormentos que me vêm dele representam felicidade para mim? (...) Ninguém ama os laços que o prendem, e eu sou a primeira a odiá-los. E no entanto sinto-me feliz por ser sua escrava - sua escrava voluntária, sinto-me feliz por sofrer tudo por amor dele -, contanto que esteja comigo, contanto que eu o possa ver, olhá-lo. Parece-me até que lhe permitiria que amasse uma outra, conquanto eu estivesse ao seu lado (...). Sei que é uma baixeza, e entretanto, se ele me abandonasse eu lhe correria atrás, até ao fim do mundo, mesmo que ele me repelisse e expulsasse. (...) Eu iria embora amanhã se ele o pedisse, se me chamasse. Bastaria que me assobiasse, como ao seu cão, e o seguiria... Não receio tormentos, se me vierem dele! Saberei que recebo meu mal de suas mãos..."

Natascha em Humilhados e Ofendidos de Dostoiévski (1861)
kkkkkk
"I'll search the holy books/I'll try to unravel the mystery of Jesus Christ the Savior/I read the poets and the analysts/Searched through the books on human behavior/I've traveled this world round/For an answer that refused to be found/I don't know why, and i don't know how/But she's nobody's baby now.
I loved her then, and i guess i love her still/Hers is the face i see when a certain mood moves me/She lives in my blood and skin/Her wild feral stare, her dark hair/Her little lips, as cold as stone/Yeah, i was her man.
But there are some things love won't allow/I held her hand, but i don't hold it now/I don't know why, and i don't know how/But she's nobody's baby now.
This is her dress, i loved best/With the blue quilted violets across the breast/And these are my many letters/Torn to peices by long-fingered hands/I was her cruel-hearted man.
And though I try to lay her ghost down/But she's moving through me even now/I don't know why, and i don't know how/But she's nobody's baby now..."
Nobody's baby, Nick Cave
kkkkkkk
"Olha pra mim, amor, olha pra mim;
Meus olhos andam doidos por te olhar!
Cega-me com o brilho de teus olhos
Que cega ando eu há muito por te amar.
O meu colo é arrninho imaculado
Duma brancura casta que entontece;
Tua linda cabeça loira e bela
Deita em meu colo, deita e adormece!
Tenho um manto real de negras trevas
Feito de fios brilhantes d'astros belos
Pisa o manto real de negras trevas
Faz alcatifa, oh faz, de meus cabelos!
Os meus braços são brancos como o linho
Quando os cerro de leve, docemente...
Oh! Deixa-me prender-te e enlear-te
Nessa cadeia assim eternamente! ...
Vem para mim,amor...
Ai não desprezes
A minha adoração de escrava louca!
Só te peço que deixes exalar
Meu último suspiro na tua boca!..."
kkkk
Suplica, Florbela Espanca - essa pirada que adorava rimar "louca" com "boca"!
kkkkk
Ah, não resisto a um drama burguês...

quarta-feira, 6 de maio de 2009

O violão elétrico do Johannes (House of the rising sun)

Vi Johannes pela primeira vez na Paulista, bem próximo ao Paraíso. Ele tocava e cantava House of the Rising Sun do The Animals no violão e tinha uma placa dependurada ao pescoço: “Dou aulas de italiano”. A figura, a situação e tudo o mais me impressionou. Ele tocava muito bem essa que é uma das músicas preferidas de muita gente, era super alto, tinha uma fisionomia intrigante, uma altivez alemã, um quê de Max von Sidow, usava paletó, calça, sapatos e blusa social quadriculada, e estava em um lugar pelo qual ninguém passava. Não parecia ligar para o que quer que fosse. Depois de muito tempo, vi Johannes com uma flauta. Ele fazia a mesma coisa: tocava-a – só que dessa vez estava em frente à Reserva Cultural, embora também não se detivesse em nada além da flauta. “Tudo bem” – pensei. Semanas depois disso, vi Johannes por uma terceira vez: vendendo sorvete na Brigadeiro. Comecei a rir. “Um personagem!” – pensei. Me pareceu meio louco associar aquele mesmo sujeito grandalhão que cantava The Animals a esse que agora empurrava todo desengonçado um mini-carrinho de sorvete pelas ruas. Resolvi que da próxima vez que o visse iria procurar saber. Saber o que? Qualquer coisa. Sei lá, gosto de “saber” das pessoas – e isso às vezes me coloca em péssimos lençóis. O fato é que hoje vi Johannes ali por perto do Extra, o supermercado, e fui falar com ele. Ele parou o que estava fazendo e, logo que eu comecei a fuzilá-lo com perguntas, disse para eu ter calma e, em seguida, confirmou minhas suspeitas: era alemão, tinha morado nos EUA e acabou vindo para o Brasil com os pais que eram missionários evangélicos – embora não se desse bem com eles, com o resto da família e não tivesse amigos. Viu minha bolsa da USP e perguntou se eu estudava lá. Eu disse: “Sim”. E ele: “Não gosto de pessoas que estudam na USP”. E emendou: “Não gosto de pessoas. (...) Elas só querem saber de beber, falar de mulher e futebol”. Depois disse que, apesar de eu estudar na USP e ter onde morar, ele poderia ser mais inteligente e feliz do que eu. Eu disse que não estava competindo com ele para saber quem era mais ou menos inteligente ou mais ou menos feliz – eu só queria conhecê-lo. Pedi desculpas por incomodá-lo. Ele relaxou um pouco, me deu uns livretinhos da Igreja Anglicana e disse que precisava de R$ 1,00 para acessar a net. Eu dei a “grana” e fui acompanhando o cara Brigadeiro abaixo. Foi aí que contei da vez que o vi tocando The Animals na Paulista. Ele riu. Disse que isso fazia muito tempo (realmente!) e que haviam roubado o violão dele na esquina da Penha com a Brigadeiro numa noite dessas. Quando acordou, o violão elétrico que o pai lhe dera de presente não estava mais lá.

Putz, o Johannes é um daqueles caras dos mais estranhos, complexos, totalmente inaptos a viver em sociedade, no entanto de uma lucidez infame – visto que não é difícil se identificar com seu modo à margem e misantropo de agir. Talvez falte a ele aquele fixador** ao qual o Jean Cocteau alude; além, é claro, das bilhares de questões religiosas que, literalmente, acometem o cara como uma doença. Não estou mesmo a fim, na verdade, de refletir sobre o Johannes (quem sou eu?); isso foi só um relato. Ocorre que o Johannes – que é aquilo que nós nos acostumamos a chamar de mendigo e, categorizando, colocar tudo dentro do mesmo saco – não gosta de gente mas se amarra em música (bom, ele disse que nem tanto...). Enfim, people, roubaram o violão do cara e, assim, quem tiver um sobrando em casa, largado às traças, esquecido em um cantinho, por favor, deixe pro Johannes ali na Igreja Anglicana (ou Americana, não sei ao certo) perto do Extra da Brigadeiro, onde, acredito eu, alguém deve conhecê-lo. Valeu. Acho que ele vai gostar.(Ah, ele também quer se casar com uma norte-americana que o leve de volta para a América...).

** "Existe no homem uma espécie de fixador, quer dizer, de sentimento absurdo e mais forte que a razão, que o faz encarar essas crianças brincando como uma raça de anões, em vez de um bando que grita: “ sai da frente que atrás vem gente.”
Viver é uma queda horizontal.
Sem esse fixador, uma vida sempre atenta à sua própria velocidade se tornaria intolerável. Ele permite que o condenado a morte durma.
Careço desse fixador. Imagino que seja uma glândula enferma. A medicina encara essa enfermidade como um excesso de consciência - uma vantagem intelectual.
Os outros sempre me dão provas do funcionamento desse fixador ridículo, tão indispensável quanto o hábito que nos dissimula a cada dia o horror de ter que levantar, fazer barba, pôr roupa, comer. Algo assim como o álbum de fotografias, fruto de um dos instintos mais bizarros que nos leva a fazer de uma pirueta uma seqüência de monumentos solenes.
O ópio me proporcionou esse fixador. Sem ópio, projetos como casamento, viagens, me pareciam loucura igual a de alguém que despencando pela janela, ao passar pelas janelas dos quartos abaixo desejasse se tornar íntimo de seus ocupantes". Jean Cocteau

sexta-feira, 24 de abril de 2009

"A vida, meu amor, é uma grande sedução onde tudo o que existe se seduz."
CL

Dando voltas indecisas e imprecisas pelas ramificações do bocejo, desmaio. Canto. Avento um sol. Sustento um mi. Mi leva, mi perturba, mi come. Voe por cima da pianola e tome o lugar do acorde – que, há muito, já é seu.

domingo, 19 de abril de 2009

Dependência química e sindrome do pânico na Rússia do século XIX...

... por que Anna Karenina não passava de uma junkie viciada em morfina...

A pós-hiper-modernidade reclama para si a invenção de alguns dos muitos transtornos mentais que assolam principalmente a população urbana e, nesse sentido, a correria frenética pelas drogas (ou fármacos) que esse ambiente "opressivo" demanda ao ser humano, como calmantes tarja preta ou anti-depressivos. Uma leitura mais detida de alguns romances russos do século XIX, entretanto, especialmente os dos chamados escritores realistas, como Tolstói ou Dostoiévski, nos mostram que na São Petersburgo gogoliana, cheia de narizes, capotes espectrais e homens-coisa, utilizar medicamentos "controlados" para insônia e depressão ou ter ataques de pânico eram coisas relativamente comuns. Dostoiévski, que já sofria de epilepsia, denominava suas crises de ansiedade de "Terror Místico", tendo relegado a muitos de seus personagens essa condição. Já Tolstói, que mantinha uma relação doentia com a esposa paranóica na vida real, fez da louca Anna Karenina uma junkie viciada em morfina - pobrezinha, prestes a se atirar sobre os trilhos do trem, ela não conseguia pregar o olho sem algumas doses de seu frasco semi-suicida.


Dostoiévski descreve um ataque de "terror místico", ou do que hoje chamamos de "síndrome do pânico" no romance "Humilhados e Ofendidos", de meados do séc. XIX:


"(...) eu ia caindo pouco a pouco nessa disposição especial de espírito em que me encontro tão frequentemente à noite desde que estou doente - disposição que eu chamarei de "terror místico". É o dolorosíssimo receio de qualquer coisa que eu não saberia precisar, de algo fantástico e irreal, que não existe na ordem das coisas, mas que parece surgir diante de mim e ganhar corpo num instante, com a irrefutabilidade de um fato terminante, horrível, informe, implacável. Esse pânico vai crescendo sempre, apesar de todos os meus apelos à serenidade e à razão, de sorte que, no fim, embora meu espírito tenha atingido um grau maior de lucidez, perde toda a faculdade de se opor a essa sensação (...)".


Tolstói não dá trégua para a doce e linda Anna - e coloca sobre sua mesinha de cabeceira um remedinho à base de um opiáceo que ameniza (ou potencializa, vai saber...) sua fúria nervosa:


"(...) Entretanto Anna, de regresso ao seu quarto de toucador, pegou num copo em que deitou umas gotas de medicamento cujo principal ingrediente era a morfina. Depois de beber esse líquido, permaneceu imóvel durante algum tempo e dirigiu-se ao quarto com o espírito tranquilo e alegre (...)".

Greta Chapada :-)

quinta-feira, 12 de março de 2009

O filhote de elefante

"POLLY - Para que a arte dramática possa ter pleno efeito sobre vocês, solicitamos que fumem o quanto quiserem. Os intérpretes são os melhores do mundo, as bebidas não são falsificadas, as cadeiras são confortáveis. Apostas sobre o desfecho da ação podem ser feitas no balcão do bar. A cortina de fim de ato fechará conforme as apostas do público. Pode-se dizer também não dar tiros no pianista, ele faz o melhor que pode. Quem não compreender logo a ação não precisa quebrar a cabeça: ela é incompreensível. Se desejam ver somente algo que tenha algum sentido, vocês devem se dirigir ao mictório. O dinheiro do ingresso não será devolvido em hipótese alguma. Aqui está o nosso camarada Jip, que tem a honra de interpretar o filhote de elefante. Se vocês acham que seu papel é difícil, eu lhes digo apenas isso: um artista de teatro deve ser capaz de tudo.

SOLDADO - Bravo!

POLLY - E aqui, Jesse Mahoney no papel da mãe de Jackie Pall, o filhote de elefante. E Uria Shelley, o maior conhecedor de hipismo internacional, que faz o papel da lua. Além disso, vocês terão ainda o prazer de ver eu mesmo, no importantíssimo papel de uma bananeira."

(...)

"SOLDADOS - Nós queremos nosso dinheiro de volta. - Encontrem para o filhote de elefante um final mais decente, ou vocês têm dois segundos para colocar todo o nosso dinheiro aqui em cima das mesas, ouviu, lua de Cooch-Behar!"

Trechos de "O filhote de elefante", apêndice para "Um homem é um homem", comédia de Bertolt Brecht.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

.....................Happiness......................

"O sentido da palavra felicidade tem mudado desde os tempos de Aristóteles. Nós costumamos entendê-la como um sentimento algo totalmente subjetivo. Se você se sente feliz, você o é. Contudo, Aristóteles e a maioria dos escritores pré-modernos argumentaram que a felicidade é um estado objetivo acima de tudo, não necessariamente um sentimento subjetivo. A palavra grega para felicidade, eudaimonia, literalmente significa espírito bom, ou boa alma. Ser feliz é ser bom. Por esta definição, Jó em seu monturo era feliz. Sócrates, condenado à morte, era feliz. Hitler, gabando-se por ter conquistado a França, não era feliz. Felicidade não é uma jovem amável. Felicidade é bondade".
Peter Kreeft sobre Aristóteles

Por que isso, de repente, nos parece tão obvio???

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

E por falar em...
Sim, esse cara que tinha problemas sérios com o próprio nariz - e, infelizmente, na época dele a cirurgia plástica ainda não estava na moda -, rememoremos um dos momentos mais porras-locas da literatura universal:

“Vejam só que estória foi acontecer na capital setentrional de nosso vasto império! Só agora, refletindo bem sobre tudo, vemos que há nela muito de inverossímel! Sem falar que é realmente estranho o desprendimento sobrenatural do nariz e o seu aparecimento em diversos lugares, sob a forma de conselheiro de Estado... como Kovalióv não se deu conta de que era impossível anunciar sobre um nariz no jornal? Não quero dizer com isso que o anúncio tenha me parecido muito caro: seria um absurdo e não sou em absoluto uma pessoa avarenta. Mas é indecoroso, incômodo, indecente! Além do mais, como é que o nariz foi parar no pão assado e como é que o próprio Ivan Iákovlievitch?... Não, não entendo isso de jeito nenhum, decididamente não entendo! Mas o que é mais estranho, ainda mais incompreensível de tudo é como os autores podem escolher semelhantes assuntos. Confesso que isto é absolutamente inconcebível, parece que... não, não, não entendo em absoluto. Em primeiro lugar, não traz benefício nenhum para a pátria; em segundo... bem, em segundo lugar também não há benefício algum. Eu simplesmente não seu o que é isso...
“Mas, apesar de tudo, muito embora se possa, sem dúvida, admitir isso, aquilo, e mais aquilo, pode ser até... bem, e onde é que não existem absurdos? – E, não obstante, se refletirmos bem sobre tudo isto, na verdade, há algo. Digam o que disserem, mas tais fatos ocorrem no mundo; é raro, mas ocorrem.”


Nicolai Gógol, 1836